Já aqui o disse em crónica anterior, citando a decisão de bispos irlandeses: os padres que tiverem filhos devem assumir as suas "responsabilidades pessoais, legais, morais e financeiras", para que os seus filhos não sejam órfãos de pais vivos e as mães seduzidas e abandonadas.
O irlandês Vicente Doyle descobriu aos 30 anos que era filho de um padre e criou, com o acordo de alguns bispos, a associação "Coping - Children of Priests International", que afirma haver no mundo mais de 4000 filhos de padres.
Um jovem padre madeirense continua no exercício do ministério sacerdotal depois de ter reconhecido a paternidade da sua menina. Segundo as edições em papel e online da Imprensa, o padre quer continuar a sua missão pastoral, mantendo diálogo com o bispo do Funchal, D. António Carilho, que lhe vai aconselhando, como informava o "Jornal de Notícias", que "deverá assumir as responsabilidades inerentes à situação".
O que prescreve o atual Direito Canónico da Igreja Católica não chega para obrigar o padre que infringiu o celibato e reconheceu publicamente a paternidade para se afastar ou ser afastado do exercício do ministério. Será o próprio, em comunhão eclesial com o seu bispo e tendo em conta o bem do Povo de Deus, a tomar a decisão mais ajustada: manter ou não a sua vocação sacerdotal.
Vai caindo em desuso, graças a Deus, a clandestinidade de filhos de padres e abrem-se novos caminhos de responsabilidade consoante a fidelidade ou a infidelidade ao celibato.
Também os filhos desejados ou indesejados dos padres não devem ser joguetes nas mãos e nos caprichos dos adultos. Têm direito a crescer num clima de felicidade, tarefa tanto da riqueza afetiva do pai como da afeição amorosa da mãe, e não cada um a puxar para o seu lado e a viver uma relação egoísta ou possessiva, como se um filho fosse uma bola de trapos.
Em situações dessas e para que do diálogo nasça a luz, é necessário ouvir a mãe e fazê-la participar na decisão, mantendo a sua dignidade e os seus sonhos. Corrija-se a ideia corrente que a mulher só sabe ser a tentadora, como Eva foi para Adão.
As mulheres não merecem ser usadas e deitadas fora com indiferença pela felicidade a que têm direito. Não é conveniente que a Igreja seja mãe dos seus queridos padres e madrasta das mulheres que eles engravidaram e de quem facilmente se descartam. Não são casos de ligeiros namoros platónicos ou de paixões arrebatadoras de adolescentes serôdios. É um amor fecundo e quem nasce tem direito ao calor dos afetos e do amor.
Haverá em Portugal, segundo estatística da Fraternitas, associação que congrega sacerdotes que deixaram o ministério, 600 padres casados. Só lhes desejo que sejam casais e famílias felizes. Quem me dera tê-los lado a lado na exaltante missão sacerdotal.
Padre Rui Osório (conegoruiosorio@diocese-porto.pt),
Voz Portucalense, n.º 40 – 08.11.2017 (pg 16)

Muito bom! Muito obrigada por me ajudar a pensar.
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