Está a provocar
discussão uma confidência de monsenhor Longhi, que acabou no Youtube, acerca da
invasão da Europa por hordas islamistas.
Ao Vatican Insider, o prelado relata também as palavras de João Paulo II ao presidente dos EUA, em 2004: «Aos pés deste ídolo que chamais segurança, quereis sacrificar qualquer dignidade humana.»
Andrea
Tornielli, em Vatican Insider
Tradução: Orlando Almeida
São João Paulo II era um místico, ‘dialogava’ com Nossa Senhora e tinha visões proféticas. Uma destas tem que ver com o futuro da Europa e uma possível ‘invasão islamista’. Mas fala-se também de uma guerra que ‘não será entre religiões’.
Alguns
detalhes sobre os fenómenos de natureza sobrenatural que acompanhavam as
orações do pontífice polaco falecido em 2005 tinham sido divulgados após a sua
morte, outros apareceram na conclusão do rápido processo que levou Karol
Wojtyla aos altares, primeiro como beato e depois como santo. Novas histórias,
não sem acentos perturbadores, são acrescentadas agora graças ao testemunho de
monsenhor Mauro Longhi, sacerdote do clero da Opus Dei, que durante dez anos
esteve ao serviço da Congregação do Clero. O prelado, que de 1985 a 1995, quando
ainda era estudante, acompanhou João Paulo II nas suas excursões nas montanhas
na província de L'Aquila, e recebeu as suas confidências, deu uma palestra (sem
saber que seria filmada e que o seu
conteúdo seria publicado na Internet) no eremitério de são Pedro e são Paulo, em Bienno, Val Camonica, a 22 de
outubro de 2017, dia em que a Igreja celebra a memória litúrgica de S. João
Paulo II.
Entre os
muitos episódios e casos mencionados, dos quais ressalta a fé do Papa Wojtyla e
a força que ele atribuía à oração, monsenhor Longhi citou um acerca de uma visão sobre a
Europa: «Wojtyla, partilhando comigo uma das suas visões
noturnas, disse-me: "Lembra isto àqueles que irás encontrar na Igreja do
terceiro milénio. Vejo a Igreja afligida por uma praga mortal. Mais profunda,
mais dolorosa do que as deste milénio",
referindo-se ao comunismo e ao totalitarismo nazista. "Chama-se
islamismo. Invadirão a Europa. Eu vi as hordas vindas do Ocidente e do
Oriente", e fez uma descrição dos países: de Marrocos à Líbia e ao Egito, e
assim por diante até à parte oriental. O Santo Padre acrescentou: "Invadirão a
Europa, a Europa será um subterrâneo, velhas relíquias, penumbra, teias de
aranha. Lembranças de família. Vós, Igreja do terceiro milénio, devereis conter
a invasão. Mas não com as armas, as armas não serão suficientes, com a vossa fé
vivida com integridade".»
Longhi
situou esta história no ano em que o Catecismo da Igreja Católica foi publicado
e, portanto, 1992. Trata-se certamente de uma imagem forte que foi rapidamente
retomada por quem de há muito teme o risco de uma invasão islamista na Europa e
deseja atitudes mais "musculosas" por parte dos cristãos.
Não há apelos para novas cruzadas
Mas deve
ser lembrado que dificilmente o Papa Wojtyla pode ser ‘arrolado’ nas fileiras
dos que desejam um novo espírito de cruzada. Além do facto de que, na
confidência contada por monsenhor Longhi, é o próprio papa a falar sobre a
necessidade da oração, não se pode esquecer que São João Paulo II foi um grande
artífice do diálogo com o Islão. Como não lembrar o grande discurso de Wojtyla
diante de um estádio lotado de jovens muçulmanos em Casablanca, em 1985, quando
disse: «Cristãos e muçulmanos, temos muitas coisas em comum, como crentes
e como homens. Vivemos no mesmo mundo, marcado por muitos sinais de esperança,
mas também por muitos sinais de angústia. Abraão é para nós um mesmo modelo de
fé em Deus, de submissão à sua vontade e de confiança na sua bondade. Nós
acreditamos no mesmo Deus, o único Deus, o Deus vivo, o Deus que cria os mundos
e leva as suas criaturas à própria perfeição.»
Poder-se-ia
objetar...
Talvez a visão da invasão da Europa seja posterior a esse discurso
corajoso que estava em consonância com a declaração conciliar Nostra
aetate. Talvez o grande papa vindo do Leste europeu tenha mudado a sua
atitude depois de ter ‘visto’ profeticamente estes presságios sobre o futuro do
Velho Continente. Mas não é assim. Em 1986, João Paulo II quis convocar o
encontro inter-religioso de Assis, do qual participaram os muçulmanos. Em 2001,
foi ele o primeiro Pontífice a pisar numa mesquita visitando a dos Omíadas em
Damasco durante a sua viagem à Síria: entrou com passo trémulo e pés descalços
no lugar de oração islâmico. E depois dos atentados de 11 de setembro, ele não
promoveu nenhuma cruzada, nem fez proclamações belicosas ou identitárias. Em janeiro de 2002, convocou uma nova reunião
de oração com os muçulmanos em Assis, procurando tirar qualquer justificativa
religiosa ao terrorismo e a qualquer abuso do nome de Deus para justificar a violência.
O Vatican Insider contactou por telefone monsenhor Mauro Longhi,
que, além de mostrar-se desgostoso com algumas observações impróprias sobre os
seus relatos (que não se destinavam a ser publicadas no Youtube), acrescentou
alguns episódios, outros trechos de conversas com João Paulo II, que mostram quanto é difícil a
tentativa de ‘rotular’ o papa polaco.
«Lembro-me» – confidenciou monsenhor Longhi – «que, em outra ocasião, me falou do seu diálogo com Nossa Senhora, que lhe disse: "A guerra não será entre as religiões, mas será entre ateus e crentes, entre os sem Deus e os crentes".
O prelado acrescenta outro detalhe, muito esclarecedor e ainda mais interessante porque não se refere a episódios místicos ou diálogos sobrenaturais (que sempre devem ser tomados com as devidas cautelas). Trata-se, com efeito, de um diálogo que aconteceu nos últimos anos – provavelmente em 2004 – entre o presidente George Bush jr. e o Papa Wojtyla. Recordemos o contexto: tinham acontecido os ataques dos terroristas de Bin Laden à América, o presidente dos EUA liderou a guerra no Afeganistão, o tema da segurança nos países ocidentais estava na ordem do dia.
«O Papa Wojtyla contou-me» – revela monsenhor Longhi – «que Bush lhe tinha dito: "Santidade, nós só queremos segurança!" E o Papa tinha respondido: "Aos pés deste ídolo que vós chamais segurança, vós quereis sacrificar qualquer dignidade humana.".»
«Lembro-me» – confidenciou monsenhor Longhi – «que, em outra ocasião, me falou do seu diálogo com Nossa Senhora, que lhe disse: "A guerra não será entre as religiões, mas será entre ateus e crentes, entre os sem Deus e os crentes".
O prelado acrescenta outro detalhe, muito esclarecedor e ainda mais interessante porque não se refere a episódios místicos ou diálogos sobrenaturais (que sempre devem ser tomados com as devidas cautelas). Trata-se, com efeito, de um diálogo que aconteceu nos últimos anos – provavelmente em 2004 – entre o presidente George Bush jr. e o Papa Wojtyla. Recordemos o contexto: tinham acontecido os ataques dos terroristas de Bin Laden à América, o presidente dos EUA liderou a guerra no Afeganistão, o tema da segurança nos países ocidentais estava na ordem do dia.
«O Papa Wojtyla contou-me» – revela monsenhor Longhi – «que Bush lhe tinha dito: "Santidade, nós só queremos segurança!" E o Papa tinha respondido: "Aos pés deste ídolo que vós chamais segurança, vós quereis sacrificar qualquer dignidade humana.".»

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