Progredir é crescer, superar-se, habilitar-se mental, emocional, espiritual, física e profissionalmente, para, a partir da força interior, transformar o que nos é exterior.

Progredir é crescer por dentro.

Escreveu Miguel Torga na sua carta ao romancista e poeta brasileiro Ribeiro Couto que “progredir é crescer por dentro” (Traço de União – Temas portugueses e brasileiros, edição Glaciar, 2016). Por outras palavras, só do nosso interior se pode transformar o que nos é exterior. Assim, se completa o exterior que brota de dentro e o interior que perscruta de fora.

Há quem chame renovação, revolução ou conversão a esta transformação interior que nos leva a uma mudança exterior.

Na sociedade individualista actual... crescemos ou minguamos? Aprofundamos ou tornamo-nos derrotados e indiferentes? Somos exigentes connosco ou exigimos apenas dos outros?

São Tomás de Aquino na sua obra-prima Suma Teológica, escrita na segunda metade do século XIII, distinguia os bens interiores e os bens exteriores. 
Nos primeiros está o progresso, ou pelo menos a condição necessária para o concretizar. A que só nos obrigamos por dentro (princípios, valores) para os concretizarmos por fora: a solidariedade, a lealdade, a solicitude, a perseverança, o carácter, a decência, a autenticidade, a integridade, a honradez, a mansidão, a prudência e tantas outras expressões que podemos partilhar sem ficar com menos, mas permitindo que o outro fique com mais.
Nos bens exteriores estão o dinheiro, o poder, a carreira, o sucesso, os interesses que, se divididos ou concertados com o outro, significam quase sempre menos para todos e tantas vezes dilaceram a ideia do bem comum.

Os bens interiores forjam-se e robustecem-se na ética (regras de conduta, base da moral, do legítimo e do ilegítimo), e crescem no nosso interior.
Os bens exteriores precisam de leis para não serem abusados. Mas se não tiverem o respaldo dentro de nós, sem ética-humanista (o amor à verdade, o amor à liberdade e o amor à humanidade) – se nós não crescermos – depressa se tornam num regresso e jamais num progresso.

Como escreveu Dostoiévski: «Somos todos responsáveis por tudo, diante de todos.»

António Bagão Félix, Publico.pt

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