O que pensou Jesus sobre os direitos dos homens e das mulheres? Para responder a esta importante pergunta, é necessário ter uma ideia sobre a situação social da mulher no povo e na cultura em que nasceu e viveu o próprio Jesus.
Felizmente, dispomos de farta documentação histórica sobre este assunto. Um dos melhores estudiosos do tema, o professor Joachim Jeremias, detém-se, mais do que em teorias, em factos muito concretos. Por exemplo: quando a mulher judia de Jerusalém saía de casa, cobria o rosto com um manto que incluía dois véus sobre a cabeça, um diadema na testa com fitas caindo até ao queixo e uma malha de rendas e nós; deste modo não se podiam reconhecer os traços do seu rosto (Billerbeck III, 427-434).
Há mais. A mulher que saía sem levar a cabeça coberta, ou seja, sem o manto que ocultava o rosto, ofendia a tal ponto as boas maneiras que o seu marido tinha o direito, até mesmo o dever, de despedi-la, sem ter de lhe pagar a soma estipulada no contrato matrimonial, em caso de divórcio (Kat VII, 7).
Mas ainda havia algo pior. O sábio judeu Filon de Alexandria informa que «mercados, conselhos, tribunais, procissões festivas, reuniões de grandes multidões de homens – numa palavra, toda a vida pública, com as suas discussões e os seus negócios, tanto na paz como na guerra – é feita para os homens. Às mulheres convém que fiquem em casa e vivam retiradas» (J. Jeremias, Jerusalén en tiempos de Jesus, 372).
E note-se que o mais rigoroso era o direito do casamento. Até à idade de 12 anos e meio, uma filha não tinha o direito de recusar o casamento decidido por seu pai, que podia inclusive casá-la com um aleijado. E ainda mais, o pai podia até vender a sua filha como escrava (Ex 21, 7).
Pois bem, assim sendo, os Evangelhos nos informam que Jesus, tão logo iniciou a sua atividade pública, a primeira coisa que fez foi reunir um bom grupo de discípulos que "o seguiam" pelos caminhos e aldeias. O extraordinário é que era um grupo misto, de homens e mulheres, como explica (com seus nomes e origem familiar) o evangelho de Lucas (8, 1-3). Uma lista paralela às outras listas de discípulos (Lc 6, 12-16; At 1, 13; Mc 3, 13-19; Mt 10, 1-4) (F. Bovon). E note-se que as mulheres, listadas por Lucas (com seus nomes, algumas delas), eram tanto pessoas da melhor sociedade (B. Witherington), como mulheres das quais Jesus tinha expulsado "sete demónios" (Lc 8, 2).
Além disso, numa sociedade sem a devida liberdade, Jesus criou, para ele e para os que o acompanhavam, a sua própria liberdade. Assim, ele deixou-se perfumar e beijar por mulheres (Mc 14, 3-9; Mt 26, 6-13; Jo 12, 3), em alguns casos, pessoas com a pior fama (Lc 7, 38). Um tema que, com frequência, os pregadores eclesiásticos têm calado ou dissimulado, como muitas outras coisas que indevidamente costumam ser ocultadas em ambientes clericais.
A manifesta familiaridade que Jesus teve com uma samaritana pouco exemplar (Jo 4, 4-30), com Marta e Maria (Lc 10, 38-41), com a Madalena (Lc 8, 2; Jo 20, 11-18) , o facto de que, quando os discípulos o abandonaram na paixão (Mc 14, 30), quem seguiu junto dele chorando era um grupo de mulheres (Lc 23, 27).
Além disso, é nos lembrado que, até no próprio momento da morte, no Calvário, estava um bom grupo de mulheres (Mc 15, 40-41). E, para concluir esta rápida resenha de memórias evangélicas, não devemos esquecer que, nos relatos das aparições do Ressuscitado, as mulheres tiveram a mais destacada preferência (Mc 16, 1-8; Mt 28, 1-10; Lc 24, 1 -12; Jo 20,11-18).
A Igreja nascente compreendeu – e deixou-o testemunhado na "memória subversiva" de Jesus – que a "humanização de Deus", em Jesus (tal é o mistério da Encarnação), só se aceita e se vive quando o respeito e a prática da igualdade, em dignidade e em direitos, de homens e de mulheres, se tornam, não apenas lei, não simplesmente direito, mas unicamente quando isso é uma realidade patente e palpável.
Uma realidade que todas as autoridades, a começar pela Igreja, lutam e insistem com empenho para conquistar, a plena igualdade, respeitando (como é lógico) as diferenças inerentes à nossa condição natural.
Enquanto as mulheres não tiverem os mesmos direitos económicos que os homens, a mesma dignidade para qualquer trabalho, a mesma liberdade nas relações domésticas, profissionais, sociais e religiosas, haverá famílias em que a mulher vai aguentar tudo o que lhe puserem encima, porque ela sabe que, se o marido a deixar, de que vai viver? como vai seguir em frente? o que vai fazer com os seus filhos? A "violência de género" não se resolve com um telefone. Nem com afastar os violentos duzentos metros. A violência não tem outra solução senão eliminar toda a desigualdade de direitos, respeitando as diferenças.
E, para terminar, onde é que se diz que as mulheres não podem ser sacerdotes ou não podem ocupar cargos de governo na Igreja? A resposta a esta pergunta não pertence à fé. É uma questão cultural. Jesus nunca proibiu às mulheres qualquer atividade na sua comunidade. E confrontou os fariseus quando lhe fizeram a pergunta sobre o privilégio unilateral do homem de repudiar a mulher (Mt 19, 1-12; cfr. Deut 24, 1).
Como igualmente enfrentou os doutores da lei e os fariseus quando lhe trouxeram uma mulher apanhada em adultério (Jo 8, 1-11). E o indivíduo que estava cometendo adultério com aquela mulher não tinha responsabilidade nisso? Não deveriam ter trazido ele também? Ou será que aquele homem tinha o direito de ficar escondido, enquanto a mulher tinha de ser morta? Por que nós religiosos, somos, seremos, às vezes, tão hipócritas?
José María Castillo, Religión Digital. Tradução: Orlando Almeida

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