«O homem atormentado do Evangelho deste domingo revela umas das escravidões mais profundas que podemos carregar: a de uma falsa imagem de Deus»
Neste quarto Domingo do Tempo Comum, Marcos coloca-nos em Cafarnaum, na sinagoga, com Jesus, um grupo de pescadores e de camponeses. E, ali por perto, alguns levitas ou doutores da lei.
Cafarnaum era uma aldeia de
pescadores, que se estendia pela margem do lago de Galileia. Poderíamos dizer
que é uma povoação importante, se comparada com Nazaré ou Naim, com boa comunicação
tanto com o resto da Galileia como com os territórios vizinhos. Talvez por isso
Jesus a tinha escolhido como lugar estratégico para desenvolver a sua missão
itinerante.
A sinagoga era o espaço onde se
reuniam os vizinhos, sobretudo aos sábados. Ali rezavam, cantavam salmos,
discutiam problemas do povoado ou se informavam dos acontecimentos mais
importantes da vizinhança. No sábado liam e comentavam as Escrituras, e oravam
a Deus pedindo a libertação do seu povo. Era, sem dúvida, um bom contexto para
dar a conhecer a boa notícia do Reino de Deus.
E Jesus “começa a ensinar”. O
texto não narra o quê Jesus ensina. Só diz que “as pessoas ficavam admiradas
com seus ensinamentos, porque Ele ensinava como quem tem autoridade e não como
os doutores da Lei”.
O povo simples sabe distinguir
os dois tipos de ensinamentos, e admira e reconhece o ensinamento de Jesus. Ele
“ensina como quem tem autoridade”! Essa autoridade de Jesus brota da coerência
entre o que Ele vive e crê com o que ele faz. A sua vida e gestos corroboram as
suas palavras. Ali está o segredo da autoridade de Jesus e do encantamento
verdadeiro que sua pessoa produz.
Os ensinamentos de Jesus brotam
da experiência de Deus que Ele vive. Não são um conjunto de normas ou leis a
cumprir, senão a partilha de um jeito de viver movido pelo Espírito de Deus,
que liberta e dá vida.
Entretanto, ouve-se o grito de um homem: «Que tens a ver connosco,
Jesus de Nazaré? Vieste para nos arruinar? Sei quem Tu és: o Santo de Deus» (Mc
1, 21-28).
É interessante o que este homem
diz saber acerca de quem é Jesus: «Eu sei quem tu és: tu és o santo de Deus; que
vieste para nos arruinar…»
Como está equivocado! Está totalmente no oposto da ação de Jesus.
A compaixão de Deus em Jesus gera vida, liberta a vida, cuida a vida!
Aquele homem atormentado revela
nas suas palavras umas das escravidões mais profundas que podemos carregar: a
de uma falsa imagem de Deus, de um Deus que destrói, que mata, que fere, que
divide. Mas esse não é o Deus de Jesus de Nazaré, nem dos grandes profetas! Por
isso a reação de Jesus é imediata e forte: «Cala-te e sai desse homem.»
Ao longo da história, praticaram-se
tantas barbáries em nome de Deus: julgam-se, estigmatizam-se, excluem-se,
matam-se pessoas e povos inteiros em nome de Deus!
Hoje, precisamos de nos
interrogar: Qual é a imagem de Deus que temos? Porque ela orienta os nossos sentimentos,
afetos, opções e ações.
Termino fazendo oração algumas
palavras do Mensagem do Papa Francisco pelo dia mundial dos pobres:
Benditas as mãos que se abrem
para acolher os pobres e socorrê-los: são mãos que levam esperança.
Benditas as mãos que superam toda
a barreira de cultura, religião e nacionalidade, derramando óleo de consolação
nas chagas da humanidade.
Benditas as mãos que se abrem
sem pedir nada em troca, sem “se” nem “mas”, nem “talvez”: são mãos que fazem
descer sobre os irmãos a bênção de Deus.
Irmã Maria Cristina Giani, Missionárias de Cristo Ressuscitado, em
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