Comentário ao Evangelho da Transfiguração de Jesus

S. Marcos coloca no seu Evangelho (Mc 9, 2-10) Jesus no alto do monte Tabor, transfigurado, tendo ao seu lado Elias e Moisés e aos seus pés Pedro, Tiago e João.

Jesus convida os seus amigos a subir a montanha. O que significa caminhar até a montanha? É ali, naquela visão tão ampla, que acontece algo novo. Jesus lê o passado, projeta o futuro, mostra num ápice o significado da sua vida. E também ali, com os apóstolos, nós redescobrimos um sentido novo para a nossa existência.

A transfiguração de Jesus introduz-nos na experiência da ressurreição. Tomamos conhecimento de quem é Jesus, do que significa conhecer Jesus.

Conhecemos Jesus através de uma relação dialogal, através de uma relação de intimidade. Só assim poderíamos deixar-nos impactar pela voz de Deus: «Este é meu filho amado, escutai-O!»

O que significa, para nós, hoje, «escutai-O»?
Quem é Jesus para nós hoje? Essa é a grande pergunta que também foi feita pela comunidade primitiva: quem era Jesus para eles? O que significa captar esse significado mais profundo e essa missão mais profunda da vida em Deus?

Como responder a essas perguntas no cenário atual de tanta corrupção, de tantas problemáticas, como a experiência dos imigrantes, tráfico de seres humanos, violência contra crianças e adolescentes, trabalho escravo, tantas outras barbáries presentes no nosso universo? Num contexto de mundo de hoje, que nos desafia a ver o Ressuscitado quando tudo nos fala de Cristo renegado, acusado, condenado, açoitado, crucificado?

Que caminho vamos seguir? Qual a opção que vamos viver? Este é o grande legado que Jesus nos deixou, ao mostrar-nos Moisés e Elias. 
Em Moisés, vemos Deus que está sempre a clamar: «Eu vi a aflição do meu povo! Decidi libertá-lo. Vou enviar-te.» (Ex 3).
Em Elias, ecoam as palavras de Jesus em outro Evangelho, o de Lucas: «Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos» (Lc 16, 29).

É nesta realidade que Deus nos convida a testemunhar que Ele, Jesus, ressuscitou, que Ele foi transfigurado, a testemunhar que a resposta de Deus aos poderosos e à morte é mais forte do que qualquer perversidade humana. Deus é mais forte e Ele demarca que o mal e o pecado não vai ser a última palavra do mudo de hoje. Mas, para isso, precisa que desçamos da montanha e que percorramos, como Ele, os caminhos do mundo.

Esse é um grande desafio que nos interpela, que devemos testemunhar, que temos de deixar uma palavra para o mundo de hoje, mas como uma palavra que passa pela nossa própria vida, que nos configura no sentido mais profundo, que nos interpela a ser porta-voz dessa Boa-nova, dessa confirmação de quem é Jesus para nós hoje. 

Irmã Maria Helena Morra, do Instituto Sagrado Coração de Maria.

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