«Poderemos viver sem as nossas máscaras?» - reflexão para a Quaresma

«Jesus, cheio do Espírito Santo, retirou-Se das margens do Jordão.

Durante quarenta dias, esteve no deserto, conduzido pelo Espírito, e foi tentado pelo Diabo. Nesses dias não comeu nada e, passado esse tempo, sentiu fome. 

O Diabo disse-lhe: «Se és Filho de Deus, manda a esta pedra que se transforme em pão».
Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Nem só de pão vive o homem’». 

O Diabo levou-O a um lugar alto e mostrou-Lhe num instante todos os reinos da terra e disse-Lhe: «Eu Te darei todo este poder e a glória destes reinos, porque me foram confiados e os dou a quem eu quiser. Se Te prostrares diante de mim, tudo será teu».
Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto’». 

Então o Diabo levou-O a Jerusalém, colocou-O sobre o pináculo do templo e disse-Lhe: «Se és Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo, porque está escrito: ‘Ele dará ordens aos seus Anjos a teu respeito, para que Te guardem’; e ainda: ‘Na palma das mãos te levarão, para que não tropeces em alguma pedra’».
Jesus respondeu-lhe: «Está mandado: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’». Então o Diabo, tendo terminado toda a espécie de tentação, retirou-se da presença de Jesus, até certo tempo.

Impelido pelo Espírito, Jesus voltou para a Galileia e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e todos o elogiavam.» (Lc 4, 1-14; Mt 4, 1-17; Mc 1, 1-15).

Comentário
Jesus teve um encontro com Deus, conSigo mesmo e saiu desse encontro entusiasmado para proclamar: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus.»

E eu, o que mostro, sou mesmo eu?

E tu, o que mostras és mesmo tu?

«Fazemos parte de um desfile de máscaras, mesmo sem querermos.

Fazemos de conta que nos conhecemos e cumprimentamos, alegremente, as semelhanças que julgamos ter.

(Porém) Não temos grande vontade de nos conhecer profundamente. Quanto menos, melhor. 
Quanto mais julgarmos saber sem grandes confirmações, melhor. Assim fica tudo arrumado nos seus devidos lugares. 

É esse o nosso grande problema. 
Somos demasiado arrumados e queremos arrumar os outros nas gavetas que temos. 

(Todvia) Não há ninguém tão igual a nós que possa caber nas nossas divisões, nas nossas caixas, no nosso coração. Guardamos dos outros o que nos oferecem de melhor e cuspimos o que não nos interessa ou nos faz tremer a estabilidade.

Fazemos parte de um Carnaval absurdo e vamos andando sem saber se somos as máscaras que vamos mostrando aos outros ou se, lá no fundo, ainda somos mesmo nós.

Sobra-nos pouco de verdade se optarmos por disfarces de circunstância.
Uma máscara para agradar aos outros,
outra para quando tiver medo,
outra para quando estiver a sofrer,
outra para fingir que sou forte,
outra para parecer que estou sempre alegre.

Talvez ganhássemos mais se nos pudéssemos ver, sempre, como somos.

Talvez não fossemos tão bonitos como gostávamos de parecer mas, pelo menos, seríamos nós. 

Não há conforto maior do que esse: o de olhar para mim e querer ver-me.
Sem a maquilhagem das aparências.
Sem a superficialidade que o mundo me exige.

Não há recompensa maior do que sentir que se conhece aquele com quem se está e vive.
Sem o peso das expectativas.

Mas… será este cenário possível?!
Poderemos viver sem as nossas máscaras de segurança?!
Sem aquilo que nos afasta mas, ao mesmo tempo, nos protege (tanto!) dos outros?! 

Parece-me que valerá a pena tentar.

Se os outros não gostarem da nossa imagem verdadeira, o problema não será nosso. Nem deles. É apenas uma consequência de mostrar aquilo que se é.

Haverá quem goste.
Haverá quem decida não nos suportar.
Paciência. 
Ainda assim, teremos o conforto que a transparência nos poderá oferecer
Não enganámos com uma máscara bonita e não tentámos corresponder ao que esperavam de nós.
Fomos fiéis pinturas das paisagens que trazemos dentro.

No dia em que deixarmos cair as máscaras ainda nos sobrará uma pergunta bastante mais difícil do que as anteriores: Estarei eu preparado para ver o que tu és?! E tu… Queres ver-me?!»

Fernando Félix
e Marta Arrais, em iMissio

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