"A Igreja é menos Igreja, se as mulheres não participam na tomada de decisões", entrevista à Irmã Alessandra Smerilli

A Irmã Alessandra Smerilli, das Filhas de Maria Auxiliadora, tem 43 anos e é originária de Vasto (Itália). Ensina economia política e elementos de estatísticas na Pontifícia Faculdade de Ciências da Educação Auxilium, em Roma.

Em entrevista à revista Aggiornamenti Sociali, de janeiro passado, editada pelos jesuítas italianos de Milão, falou, entre outros temas, do fortalecimento do papel das mulheres na sociedade e na Igreja.

O que têm a dizer hoje as mulheres numa disciplina como a económica, por décadas campo exclusivo dos homens?
A palavra economia vem do grego oikos nomos, que significa «gestão e cuidados da casa», onde por "casa" podemos entender todo o planeta, a casa comum. E a casa, por razões históricas e culturais, sempre foi associada às mulheres. As mulheres, então, têm uma tarefa fundamental: concentrar-se em cuidar da nossa casa comum. É significativo que a primeira mulher a ganhar o Prémio Nobel de Economia, em 2009, tenha sido a estado-unidense Elinor Ostrom (1933 a 2012), que se ocupou justamente sobre os bens comuns. Da mesma forma, eu acho que não foi por acaso que os primeiros trabalhos teóricos em economia sobre os bens relacionais tenham surgido das mentes das mulheres, particularmente da cientista política Carol J. Uhlaner e da filósofa Martha Nussbaum.

De vozes das mulheres está emergindo também uma tentativa de olhar para todo o sistema económico de uma forma mais conectada com o respeito pelo meio ambiente e os direitos humanos fundamentais. Um exemplo é o recente livro de Kate Raworth, The Doughnut Economics: uma revisão dos modelos económicos visando não tanto o objetivo do crescimento, mas a garantia, tanto quanto possível, de respeito para todos pelos direitos fundamentais, não menos importantes, sem descuidar dos limites na exploração do planeta. As mulheres têm, portanto, muito a dizer para a economia de hoje e do amanhã, mas para isso devem ser profundamente competentes, porque se trata de ultrapassar algumas lógicas profundamente radicadas nos modelos económicos, e isso deve ser feito superando preconceitos e estereótipos.

Considera que as mulheres devem ser portadores de um determinado modelo de liderança?
Hoje estamos a perceber, mesmo em grandes empresas de consultoria, que algumas características femininas são importantes para a administração das empresas. Por exemplo, as organizações que teem nos seus Conselhos de Administração um bom número de mulheres são mais resistentes a crises e mais inovadoras. A partir de alguns estudos sobre comportamentos económicos parece emergir que as mulheres geralmente são mais avessas aos riscos do que os homens, menos propensas à competição (isso também explicaria por que as mulheres que chegam para ocupar cargos de liderança não são muitas: não porque elas não são capazes, mas porque não gostam da competição), menos sensíveis a incentivos extrínsecos, mais hábeis em resolver dilemas em grupos.

Além dos compromissos académicos, é convidada frequente de conferências abertas ao público. Que expectativas existem, por parte dos círculos profissionais que frequenta, em relação ao fato de ser religiosa?
Não me parece que existam grandes expectativas, mais frequentemente, percebo surpresa. Especialmente em alguns ambientes, associa-se ser freira com fazer o bem para a caridade, porém, de forma redutiva: de  mim como freira espera-se que fale de valores, talvez de espiritualidade, e muitas vezes chamam-me precisamente para isso. Por essa razão quase nunca me apresento com o hábito religioso numa conferência.
Normalmente, no entanto, à medida com que falo com as pessoas, elas ficam surpreendidas, entendem com surpresa que também é possível uma leitura diferente a alguns fenómenos. O apreço e estima que recebo quando participo de conferências e reuniões faz-me compreender que há uma grande sede de um olhar positivo sobre os problemas e os desafios de hoje, mas deve ser um olhar concreto, de vivência, de testemunho e não de mestres.

Que expectativas e espaços de responsabilidade vislumbra para as mulheres na Igreja (italiana) hoje?
Estou profundamente convencida de que a Igreja é menos Igreja e o ser humano é menos humano se as mulheres não participam da tomada de decisões, se não exercem suas responsabilidades. Isso não quer dizer ocupar espaços ou cargos de gestão: isso é muito pouco feminino. Existem atenções, sensibilidades, formas de ver a realidade e cuidados com processos que têm dificuldade para emergir em contextos exclusivamente masculinos.
Infelizmente, as estruturas eclesiásticas (italianas) são muito masculinas, e isso cria o que na economia é chamado de um processo de seleção adversa: as mulheres sentem-se pouco atraídas para determinados ambientes. Por exemplo, vejo que as mulheres mais inteligentes que eu conheço, depois de tentar fazer algum contributo no âmbito das estruturas eclesiásticas, preferem oferecer os seus conhecimentos em outros lugares, onde é preciso lutar menos para serem reconhecidas como iguais aos homens.

Ao mesmo tempo, os homens, por não se sentirem encorajados a pensar e agir de forma diferente, talvez, mesmo sem perceber, continuam a perpetuar esquemas, formas de fazer as coisas e organizar-se que deixam as mulheres de fora. Acredito que seja preciso enfrentar a questão de forma serena e aberta, para realizar processos que tornem a todos nós mais conscientes da urgência da mudança. Não acho que o caminho seja o da abertura do sacerdócio às mulheres, mas, como defende o Papa Francisco, uma desclericalização das estruturas eclesiásticas.

O que você recomendaria para as jovens mulheres que estão entrando no mundo do trabalho, ansiosas por uma realização profissional, sem abrir mão do tempo para si e para os outros?
Hoje, é muito difícil realizar-se do ponto de vista profissional sem sacrificar relacionamentos, afetos e família. E, principalmente, para as mulheres, para quem a maternidade ainda é muito complicada para as perspectivas de carreira. Muitas ainda são obrigadas a escolher entre família e trabalho, mas essa escolha funciona, enquanto os filhos são pequenos e requerem cuidados em tempo integral, em seguida, leva à insatisfação com a vida e penaliza a expressão das próprias potencialidades e talentos.

Para as mulheres jovens sugeriria partilhar imediatamente com o seu parceiro de vida as expectativas profissionais e familiares, ou pelo menos acordar sobre subdivisão do trabalho em casa e fora: «Para educar uma criança é preciso uma aldeia inteira», afirma um provérbio africano. Uma criança nascida é um bem para todos, e, portanto, todos devem cuidar dela. Eu diria que devemos passar da ideia de que para poder trabalhar as mulheres precisam sacrificar alguma coisa, para uma nova maneira de pensar sobre a sociedade e a realização na vida.

Hoje consideramos como plenamente realizada uma pessoa que trabalha 15 horas por dia, que não tem tempo para mais nada, que para desempenhar bem seu trabalho deve delegar a outros os seus compromissos e obrigações, como cuidar da casa, dos outros, da família. Em vez disso, todos devemos entender que uma pessoa é menos pessoa se não participa do cuidado da família e dos relacionamentos. Um bom profissional não é uma excelente pessoa se não souber sequer passar sozinho sua camisa, se não tiver tempo para estar com um idoso ou uma criança. E as atividades de cuidados são bens de experiência, ou seja, que são percebidos como tal só quando são vividos. As mulheres, que por história e sensibilidade sempre foram mestres na arte dos cuidados, têm agora a tarefa de a ensinar também aos homens, é uma tarefa educativa imprescindível, se quisermos que alguma coisa mude na nossa sociedade.

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