A Semana Maior do Cristianismo (a Semana Santa, entre o
Domingo de Ramos e Sábado Santo) foi aquela que nos conduziu à Páscoa. Celebrámos
a Paixão e a Morte de Jesus. Associámos a esta semana todo o sofrimento da
humanidade, e este a Jesus Cristo. Não há Páscoa sem morte, mistério central da
fé em Jesus Cristo. A vida é este dinamismo entre o sofrimento e a felicidade,
entre a morte e a vida.
Na Semana Santa fomos convidados a intuir o mistério e a
profundidade da dor de Jesus, num acontecimento dramático no qual Deus, age com
toda a sua divindade e toda a sua humanidade. Jesus na sua paixão, não finge
sofrer. Ele vive em si o drama do ser humano.
O Deus de Jesus, não nos tira a dor, o sofrimento, a morte,
mas pede-nos para os "abraçar". Não dá anestesia nem adoça os
momentos dramáticos. O Deus de Jesus, quer-nos livres e dignos, responsáveis e
conscientes do nosso próprio ser e da nossa existência, aqui e agora.
Porém, este dinamismo, não é compreensível em si mesmo sem
Amor. Talvez, nestes dias, sejamos
capazes de perceber melhor este dinamismo, com a tragédia de Carcassonne e
Trèbes, França. Só compreendo a morte do Tenente-Coronel Arnaud Beltrame, com
os "olhos" do amor. Alguns dirão que foi o cumprimento do dever. No
entanto, para mim, este "dever" estava inscrito na vocação deste
policia ao serviço dos outros. Este homem vivia uma conversão. Só aos 33 anos
foi batizado e preparava-se para casar pela igreja.
O ato de entrega que vemos na cruz é revelador do que
animou toda a vida de Jesus e que lhe "permite atravessar" a morte
com extrema confiança na fidelidade do Pai. O Amor é mais forte do que a morte!
O ato de entrega de Beltrame, também é revelador da fidelidade ao dever para
com os seus cidadãos e, de um amor maior que se doa. Não existe ato mais
corajoso, mais altruísta e mais heróico que dar a própria vida para salvar
outra.
A Força de Deus, mostra-se na fragilidade e na
debilidade...
Somos chamados a permanecer numa relação com Deus que guarda
a nossa existência e que a continua a habitar mesmo nos momentos que nos
parecem de abandono, de provação e de sofrimento. Jesus continua a confiar no
Amor, não quer violência nem a "lei da força", mas continua
abandonar-se inteiramente nos braços do Pai.
Esta deve ser a experiência da Igreja ou de cada um de nós,
crentes, quando assumimos o escândalo da cruz e o rosto de um Deus humilde e
humilhado. Um amor que não se impõe com violência, não usa os milagres para
cativar. Não quer fazer espetáculo, mas que se propõe, que se oferece, que se
dá...
Um Deus de uma humanidade incrível...
É pois na realidade mais sofredora e humilhante que se
revela este Deus. É nesta que é a realidade humana que Deus nos diz: «Não te
preocupes. Não é o fim!». A Páscoa é o "fim" da nossa vida. Quando
parece que celebramos o sofrimento, o que queremos celebrar verdadeiramente é a
vida que surgiu e continua a surgir do Amor.
Paulo Victória, iMissio.net

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