Testemunho de um seminarista da RD Congo a propósito da experiência pascal da sua família num país em guerra
Do Evangelho do quarto domingo da Quaresma (Jo 3, 14-21): «A luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque eram más as suas obras. Todo aquele que pratica más acções odeia a luz e não se aproxima dela, para que as suas obras não sejam denunciadas. Mas quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus.»
Comentário/testemunho de Eugène MUHINDO Kabung, seminarista dos Missionários Combonianos
natural da República Democrática do Congo,
acerca da experiência da família num país em guerra:
«Porque é que me persegues, porque é que me matas? Não pertencemos todos à mesma natureza humana? Haverá ainda um pouco de humanidade? É certo que o sofrimento é inerente à humanidade, porque nascer já é entrar no sofrimento. No entanto, sem pretender omitir esta afirmação, o nosso olhar para com o outro deve desafiar-nos a viver o dom do(a) irmão(ã). Desta forma, longe de persegui-lo, massacrá-lo, sequestrá-lo, é humano partilhar e promover a cultura da paz.
O que é que realmente está a acontecer no Congo, particularmente em Kinshasa, Lubero e, sobretudo, Beni?
Não podemos ficar indiferentes quando as pessoas são mortas, violadas, sequestradas.
Quem é o pai que se alegra com a morte de seus próprios filhos e seu infortúnio?
A não ser que seja um sádico, tornando-se como aqueles animais que comem os seus próprios pequeninos.
A realidade que se vive na República Democrática do Congo é trágica e podemos perguntar-nos que legado estamos a deixar às gerações futuras, ao semearmos todos os dias o gérmen da vingança.
Com certeza que não é apenas aqui no Congo, mas, em tantas outras partes do mundo que se sofrem constantes guerras e violências.
É horrível, o que se está a passar na província do Norte do Kivu (Congo) e em particular nas cidades Beni-Lubero de onde sou natural: massacre de populações, violações de mulheres e crianças, raptos de crianças para fazer delas crianças-soldados. Desde 2009, este fenómeno aumenta de dia para dia. Desde então, vive-se autênticas barbaridades, onde muitas famílias foram massacradas e outras encontram-se num estado de pobreza e luto.
Na minha família, em menos de um ano perdemos quatro membros, todos eles raptados e deles não há notícias. O mais certo é que tenham sido mortos à machadada, ou com catanas ou com outro tipo de armas brancas nas florestas vizinhas, como tem acontecido com centenas de pessoas.
Pergunto-se para que servem os 17 000 soldados da ONU (MONUSCO)? O número de viúvas, de crianças órfãs aumenta de dia para dia, famílias inteiras são exterminadas.
Quero deixar-vos o testemunho de uma criança que encontrei numa família de acolhimento:
«Chamo-me Ali. Nasci e cresci em Eringeti. Os meus pais são agricultores. O meu pai tem um moinho. Numa certa tarde. em que o pai tardava em regressar do moinho, uma multidão de homens e mulheres, jovens altos, uns vestidos de preto e outros de branco, entraram na nossa casa. A minha tia estava na cozinha, a minha mãe no quarto, o meu tio no hall de entrada, eu e meus irmãos junto da nossa tia. Estes homens obrigaram-nos a ir com eles. Quando partimos, um deles colocou-se sobre os meus ombros e perguntou-me como me chamava, eu respondi-lhe que me chamava Ali. Eles tinham catanas, machados, martelos, etc. Quando chegámos junto de uma bananeira, longe do nosso bairro, começaram a massacrar a gente. Então eu chorava… chorava… sim chorava. Eles deixaram-me junto de uma mulher toda enxovalhada e suja. Eu pensava que era a minha mãe. Então eu chamava: mãe, mãe, mãe… oh mãe, tu dormes muito, mãe eu tenho frio, cobre-me, mas a mãe não respondia. Durante toda a noite eu chorava pela mamã. Então pela manhã cedo, um senhor apercebeu-se de que eu chorava pela mamã. Este senhor estava com medo e correu de volta para me encontrar e levar-me, dado que eu me encontrava no meio das pessoas que tinham sido mortas. As minhas roupas estavam banhadas de sangue. Então, a esposa deste senhor vestiu-me e deu-me de comer. Por fim reconheceu minha identidade.
Quando o meu pai chegou, um dos meus irmãos regressava a casa, trouxe a mensagem de outros mortos: mãe, tia, tio e irmãos, e aqueles que ele não conhecia. Eram dez da manhã. Então meu pai, perturbado, chamou um amigo da localidade de Beni. Ele veio ter connosco após os enterros. Eu continuava a chamar e a chorar: «Mamã, mamã, mamã…
A minha morreu desta maneira e o meu pai está doente.»
Podemos imaginar o sofrimento desta criança e o trauma que se seguiu. O testemunho desta criança nos mostra o sofrimento de milhares de crianças que viram morrer as suas mães, e de mães que viram morrer os seus filhos de forma horrorosa e indescritível.
Quero deixar um apelo vibrante a toda a humanidade para que o fogo da caridade possa acender-se em cada pessoa afim de podermos construir um mundo mais humano e fraterno.
Quem és tu que matas o teu irmão? Recorda-te que «todos os que lançam mão da espada pela espada morrerão».
A mensagem do Papa Francisco para a Quaresma deste ano interpela-nos a estar atentos aos profetas da mentira, citando a passagem de Mt, 24,12: «Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos» (Mt 24, 12).
Cada um interrogue-se acerca do que está a fazer pela paz no mundo. E assim, ouça, veja e aja. Que a misericórdia de Deus converta os inimigos da paz.
Que Cristo seja o nosso modelo. E que Maria e José intercedam por este povo sofredor
Kisangani, 09/03/ 2018
Maison Comboni – Postulat Prêtres
Missionnaires Comboniens
B.P.505 Kisangani
(Rep. Dem. Congo)
arieirajose@gmail.com

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