Este é o versículo central da Bíblia e da fé cristã: «Deus ressuscitou Jesus dos mortos.» Comentário ao 3.º domingo da Páscoa


As leituras deste 3.° domingo do tempo pascal convidam-nos a refletir sobre a boa notícia da Ressurreição de Jesus a partir da experiência de fé das comunidades primitivas.

A primeira leitura (At 3, 13-19) é a continuação do relato da cura do homem paralítico de nascença que estava na entrada do Templo em Jerusalém. Quando os apóstolos Pedro e João se aproximam do lugar, o homem lhes pede-lhes esmola. Pedro e João dizem que esmola não têm, mas oferecem-lhe o que têm: Jesus o Nazareno. Invocam, então, o nome de Jesus Cristo ressuscitado e ordenam que o homem se levante. Imediatamente, o paralítico de nascença levantou-se e começou a andar.

É importante perceber como Lucas – o autor dos Atos dos Apóstolos e também do Evangelho narrado na missa de hoje – conduz a narrativa. Ele diz que Pedro e João reagem quando o povo fixa os olhos neles, como se eles tivessem o poder de fazer curas. Lucas quer que as comunidades cristãs percebam que é Cristo Ressuscitado que quem faz andar os “paralisados” na fé. Pedro diz com entusiasmo que Jesus é o Autor da vida, que os chefes dos judeus mataram, mas Deus o ressuscitou dos mortos, e nós somos testemunhas. Este versículo 15 é o centro da fé das comunidades primitivas, e continua a ser o centro da nossa fé: «Deus ressuscitou Jesus dos mortos.»

É o que reza o Salmo de hoje (Sl 4): «Sabei que o Senhor faz maravilhas pelos seus amigos, o Senhor me atende quando O invoco.»
É esta a maravilha. Quem acredita na força da ressurreição, caminha, mesmo no meio de dificuldades. Isto é, não podemos ficar paralisados diante das situações que imobilizam o ser humano e o impedem de andar.

A segunda leitura é da segunda carta de são João (1 Jo 2, 1-5). O autor encoraja a comunidade a não pecar, isto é, a não se desviar da fidelidade à Aliança, distanciando-se, desse modo, da fé em Cristo. O apóstolo afirma, todavia, que «se alguém pecar, temos junto do Pai um advogado, Jesus Cristo, o Justo».
As palavras de S. João são uma exortação carinhosa aos discípulos e discípulas para que não desanimem diante das faltas de uns e outros. Podemos contar com um defensor que deu a vida para libertar a humanidade do poder destruidor da divisão, do ódio, da morte. Porém, é necessário vivermos comprometidos na fidelidade, a exemplo de Jesus, e na vivência dos mandamentos. Ele mesmo os resumiu em dois: amar a Deus e amar o próximo. Praticando comunitáriamente estes mandamentos, teremos uma sociedade geradora de paz, onde impera o amor, no reconhecimento de que somos todos irmãos.

A leitura do Evangelho segundo S. Lucas (Lc 24, 35-48) mostra como Jesus introduz os onze apóstolos na plenitude da mensagem pascal. É uma narrativa em continuidade à aparição aos discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35). Enquanto se dirigiam para Emaús, para longe de Jerusalém onde Jesus fora crucificado, cheios de tristeza, decepcionados e desanimados, quase paralisados, «Jesus aproxima-se e caminha com eles» (v. 16).
Jesus acompanhou os discípulos num momento de crise, dialogando, fazendo memória das Escrituras, permanecendo com eles quando chegam ao seu destino, pondo-Se com eles à mesa e proporcionando a bênção e a partilha do pão. A narrativa culmina no reconhecimento de Jesus: «Os seus olhos abriram-se e reconheceram-n’O.» E no mesmo instante voltaram a Jerusalém para contar aos Onze e seus companheiros o que lhes tinha acontecido.

Na narrativa deste domingo Lucas diz que Jesus mostra-Se aos Onze enquanto os discípulos que retornaram de Emaús ainda estão a falar. Também, neste momento, Jesus se aproxima da comunidade, dialoga, realiza gestos que possibilitam que O reconheçam, faz memória das escrituras e confirma os discípulos como testemunhas da Ressurreição. S. Lucas apresenta Jesus Cristo ressuscitado a agir como um pedagogo, orientado os discípulos e discípulas no caminho de fé.

Jesus aparece e oferece a paz. «A paz esteja convosco!» (v. 36). Jesus sabe que, sem paz, é difícil ao ser humano reconhecê-Lo. A comunidade precisava de paz. A descrença por causa da crucificação de Jesus, o desânimo paralisava as pessoas das primeiras comunidades cristãs.

Algo que não é diferente em muitas comunidades. Como é necessário reanimarmos na fé no Cristo Vivo. Estamos a passar por tempos em que muita gente diz que está a perder a esperança, que não acredita.

É urgente e necessário criarmos a cultura da paz. A paz como fruto da justiça social, direitos iguais, onde a democracia impere. E nesse contexto, vamos encontrar muitas pessoas paralisadas, sem força para caminhar e lutar. É importante percebermos que os discípulos reagiram, as comunidades retornaram à vivência da partilha, do reunir-se em torno da Palavra, como memória de um povo que não se deixou vencer pelo medo, nem pela violência, permanecendo fiel ao Deus da Aliança, o autor, promotor e defensor da vida.

Qualquer ação humana que traz mais vida para os corpos oprimidos, doentes, torturados, famintos, sedentos, refugiados, não é apenas obra de misericórdia, mas é sinal concreto do facto central da fé cristã: a ressurreição do próprio Senhor Jesus, e da Sua Igreja, e do mundo inteiro.

Irmã Maria José Lopes, das Irmãs da Divina Providência 

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