Há avós argentinas leitoras voluntárias que leem aos mais novos o que de melhor existe na literatura infantil de todo o mundo
As Abuelas Cuentacuentos (Avós Contadoras de Histórias) são
uma tradição da Argentina que pode ser inspiradora para Portugal.
Quem o conta é a escritora Alice Vieira, nesta crónica que
escreveu para a revista Audácia.
«As avós e os livros
Há já alguns anos, estive na Argentina, convidada para um
encontro de literatura com a participação de vários escritores, organizado por
Mempo Giardinelli.
Numa pequena cidade, chamada Resistência, capital da
província do Chaco.
Mempo Giardinelli é escritor premiadíssimo em todo o globo,
com livros traduzidos em todo o mundo – mas decidiu fazer ali, naquela cidade
minúscula e longe de tudo, a sua vida. Ali, na cidade onde nasceu.
Quem conhece a Argentina sabe que a região do Chaco tem
enormes problemas e carências e que por lá a vida não é fácil. Buenos Aires
fica muito longe, e o tango nem sempre é a música que ali se ouve.
Mas Mempo Giardinelli decidiu fazer ali uma fundação, que
tem o seu nome, e que torna tudo diferente. Uma fundação que, no meio de todas
as dificuldades, se interessa pela cultura, pela divulgação do livro, sobretudo
entre as camadas mais jovens. Por isso todos os anos promove encontros com
autores que vêm de todo o mundo, que ali fazem as suas conferências para os
adultos, os seus ateliês e debates, mas também têm tempo para os mais novos,
que acorrem em massa.
Porque, como disse Mempo no último desses encontros, «só a
leitura pode salvar este país; ler e dar a ler é o único caminho para recuperar
a capacidade do pensamento e a sensibilidade de um povo».
Contudo, entre as muitas atividades da fundação, uma das
mais importantes é, certamente, a que mobiliza as avós para levarem a leitura
até aos mais novos: as Abuelas Cuentacuentos, assim se chama o grupo, não são –
e fazem muita questão de o sublinhar – simples contadoras de histórias: elas
são leitoras voluntárias que transmitem o gosto pela leitura. Elas leem aos
mais novos o que de melhor existe na literatura infantil de todo o mundo.
De resto, para serem admitidas no grupo, elas têm de ler
muito, de saber selecionar as leituras, de saber escolher o melhor lugar
para serem ouvidas – e de não
desistirem.
Nem sempre as crianças são fáceis. Mas o grupo de avós
acompanha-as ao longo dos anos, dando-lhes leitura de qualidade uma vez por
semana. «Vontade, persistência e vocação» dizem elas que são os ingredientes
necessários para aquele trabalho.
Além disso, há também a grande aproximação entre as
gerações, o que torna a vida mais fácil.
Em vez de ficarem em casa, as avós têm uma ocupação.
E vez de se queixarem das agruras da vida, as avós arregaçam
as mangas, afinam a garganta – e ei-las que criam uma vida própria.
No fim do ano, há prémios para as avós que mais trabalharam
e mais se distinguiram. Eu estava lá nessa altura e pude ver como tudo era uma
grande festa coletiva.
E eu fico a pensar como seria muito bom se, pelas terras
pequenas do nosso país, também as avós se organizassem e levassem os livros e
as histórias às suas crianças. À falta de uma fundação, podiam mobilizar-se em
torno de uma biblioteca, de uma sociedade de recreio, de uma junta de
freguesia, de qualquer associação local que, de algum modo, as pudesse ajudar e
encaminhar.
E acreditem: não há tecnologia nenhuma capaz de substituir o
prazer de ouvir a voz de uma avó a ler uma história.»

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