«As paroquiais com as suas estruturas de cimento e os
colégios e as universidades cristãs, necessitam de uma revisão transformadora
rumo às periferias, como incentiva o Papa Francisco, para superarem
a estagnação e a amarração das vocações às estruturas estatais
romano-bizantinas», diz Egydio Schwade, (à esquerda na foto, de www.zdf.de), filósofo, teólogo, indigenista e ativista social brasileiro, um dos
fundadores do Conselho Indigenista Missionário-CIMI (no Brasil), em
artigo publicado por Casa da Cultura do Urubuí e no portal Unisinos.
A paroquia é uma instituição que ainda não conseguiu rever
a sua História e avançar com o Concílio Vaticano II. Ficou atolada no Concílio de Nicéia. Aqui e ali parece ate em retrocesso: discurso de poder e anti-ecuménico,
cálices de ouro, trajes romano-bizantinos cobrindo o padre e avançando sobre os
fiéis, construções e mais construções consumindo a esmola dos fiéis...
As Igrejas Cristãs tem uma História
original linda e edificante, onde se podem inspirar a cada momento para as
transformações necessárias. Começa com Jesus e impregna os três primeiros
séculos, vivida, atualizada e enriquecida por aquelas “coisas escondidas aos
sábios e entendidos”, presentes junto aos pobres, aos pagãos, à gente do campo,
das catacumbas, das periferias e das prisões arbitrárias. Foram 313 anos de
encarnação na realidade dos humildes, dos excluídos e dos perseguidos pelo
poder dos imperadores. Já a História do Poder de Estado não
tem essa fonte de inspiração. Deixou atrás de si tristeza, calamidades,
violência e luta por privilégios para ricos e poderosos.
Em 313, Constantino “faz as pazes” com
os cristãos. Doze anos depois, em 325, já íntimo de seus lideres, os convidou
para um Concílio em um dos seus Palácios em Nicéia,
com certeza, construído por escravos. Ali os integrou ao poder. Ele mesmo fez o
discurso de abertura do Concílio. Começa uma mudança radical na História do Cristianismo. Para além das discussões e
resoluções, é preciso reconhecer que neste Concílio o que de mais
importante ocorreu foi a conversão das autoridades da Igreja ao poder do Império e
o seu distanciamento das “periferias”, dos pobres e injustiçados. A Igreja tornou-se
uma instituição apêndice do Império Romano. Não foi por acaso que a
partir do ano seguinte, 326 – ao celebrar o aniversário de seus 20 anos de
imperador – inspirado pela sua mãe, Santa Helena, Constantino ergueu as
primeiras três basílicas: Belém (Palestina), São Pedro (Roma/Itáli)
e Treveris (hoje Trier/Alemanha), então segunda maior cidade do
Império. Mais do que presença cristã, estes monumentos e os que se seguiram,
até Aparecida e o Templo de Salomão em São Paulo, são símbolos do poder de
Estado que daí por diante permeia as preocupações dos cristãos, distanciando-os
dos “templos vivos”, do Povo de Deus.
Da Península Ibérica ao Oriente Médio,
do Norte da África ao Reno e seus afluentes e até
a Irlanda, as comunidades cristãs espalhadas pelo império e baseadas na
mensagem de Jesus, vivida, em boa parte segundo o modelo dos povos
originários, foram visitadas por missionários que os incentivavam a aceitar as
“benesses” e as leis do Império. E os povos que ainda resistiam no seu
“paganismo”, em seu território, como
os Celtas e Germanos na Europa Central, continuaram sendo
esmagados por Constantino, seu feroz inimigo.
Foi este o “cristianismo” levado pelas Cruzadas ao Médio
Oriente e que chegou às Américas, com as autoridades
eclesiásticas concordadas e integradas ao poder reinante na Europa e que
orientou e pressionou a vida e as vocações cristãs e massacrou o povo de Deus
das Américas que “vivia em comunidade e tinha tudo em comum”.
Quando em 1949 entrei no Seminário dos padres
jesuítas, foi com o desejo de ser missionário numa das regiões mais
necessitadas do mundo. No meu imaginário foi crescendo a vontade de ir para
a África. Este desejo estava ligado a minha consciência cristã,
cultivada em casa. Mas no período do seminário fui orientado pelos superiores
religiosos no rumo de suas necessidades provinciais já estruturadas. O ano de
1962 foi para mim um ano cruciante, pois com o fim do curso de Filosofia, se
definiam de facto os rumos de vida dos jesuítas. E eu sentia o conflito armado
vivencialmente dentro de mim. O Concilio Vaticano II, então em
curso, inquietava as consciências e reforçava o meu chamado interior
originário. Mas todos na Província alimentavam em mim o desejo
de preencher um dia a vaga de professor em algum colégio ou universidade, longe
da minha vocação original. Passei o ano de 1962 remoendo, discernindo, no
método inaciano, a minha situação. Como não consegui compreensão no ambiente
provincial, decidi expor o conflito interior ao geral da Ordem, conforme neste
caso, permitido aos jesuítas desde Inácio de Loyola. E o Geral me apoiou, sugerindo, porém, que
considerasse a ida aos índios do Mato Grosso. Senti-me aliviado. E
no mês seguinte estava a caminho da Missão Anchieta-MIA de Diamantino/MT,
tachada de “absurdo” pelo Provincial da época.
Ali fiquei três anos trabalhando em dois internatos. O
objetivo dos internatos então não era diferente dos colégios e universidades,
integrados ao modelo constantiniano de educar os índios para o
“centro”, para o “Império”. Um esquema que conduzia ao fim da vida de
aldeia, da sua cultura, da sua terra, da sua autonomia, preparando-os para se
integrarem como páreas nas periferias de Cuiabá. Fiquei com um vazio na alma
ante o rumo que os documentos do Vaticano II apontavam: “Busquem os
missionários colher as sementes do Verbo ocultas nos povos” (Ad Gentes 11). Nos internatos não se
colhem sementes de Deus de povo nenhum. Isto só podia acontecer nas aldeias,
onde eles dominam a situação e milenarmente buscam seguir, a sua maneira, a voz
de Deus.
Foi assim que nasceu em mim e em outros colegas
da MIA que passaram pela mesma experiência, o empenho de lutar
por novos rumos para os trabalhos da Prelazia. A Missão
Anchieta, as paróquias, a ação jesuítica e a Prelazia deviam mudar.
De volta a São Leopoldo/RS para o
curso de Teologia, me reuni com o grupo de companheiros que também haviam
trabalhado na Missão Anchieta e discutimos as nossas
preocupações. E no dia 18-3-66, enviamos uma carta a todos os membros da Prelazia,
expondo-lhes as nossas preocupações e sugerindo um plano de ação. O plano tinha
dois pontos básicos:
1. Parar os trabalhos da Prelazia e nos dedicarmos prioritariamente ao
reconhecimento do território da Prelazia que na época tinha
354.000 km2 e ao contato dos índios isolados.
2. Levantamento sócio-económico e religioso total.
Vivíamos uma vontade forte de colocar em prática o Vaticano II e esmiuçamos as
razões do plano na perspetiva deste. A proposta: apontava para a necessidade de
“sabermos ser arrojados na realização de planos globais da Missão, orientados à
luz dos ensinamentos de Jesus e do Vaticano II;
planos que atinjam o homem nos seus problemas da vida quotidiana”. Esta será a
“principal fonte de vocações sobre as quais toda a Igreja está tão preocupada.
Estabelecer um planejamento concreto, de longo alcance para a Missão,
no qual possamos engajar as vocações que se apresentarem; não devemos temer de
nos aventurar a grandes novas empresas – mesmo que estas não agradem aos daqui
(Província). O que devemos temer é nos cimentarmos em belos colégios,
desajustados às condições do povo que evangelizamos.” Obtivemos poucas
respostas. E as poucas que chegaram, foram lacônicas ou contra.
Vendo o nosso plano rejeitado pelos companheiros em
campo, Thomaz Lisboa (que se tornara meu inseparável companheiro
de sonhos e ação) e eu, partimos noutro rumo. Vimos que seria difícil mudar
algo com o quadro missionário da Prelazia e pensamos na
entrada de leigos, não como tapa-buracos, como costumava acontecer, mas
organizados e como companheiros que pudessem pensar e realizar connosco as
mudanças. Nos fins de semana dávamos palestras a jovens católicos e evangélicos
(dentro dos princípios do ecumenismo proposto pelo Vat. II) no Vale do
Rio dos Sinos e arredores, expondo a situação da igreja missionária e
o nosso plano de ação. Obtivemos acolhidas entusiásticas, mas não conseguimos
concretizar a organização desejada.
Em 1969, Thomaz Lisboa, com a Teologia já
completa e já ordenado padre, voltou à MIA, onde ficou diretor
de Utiariti e logo acabou com o internato, incentivando
índios, religiosos e religiosas a se integrarem nas aldeias. Simultaneamente o
nosso plano de criação de uma organização de leigos teve acolhimento nas Congregações
Marianas de Santa Catarina, onde criei a Operação Anchieta-OPAN.
A organização ampliou logo seu âmbito para além da visão das Congregações
Marianas e em janeiro de 1970, já enviou 10 jovens católicos e
evangélicos, para as prelazias de Diamantino/MT e Guajará-mirim/RO.
Os membros da OPAN eram iniciados em curso no Sul e outro na
Missão, junto com os companheiros(as) religiosos(as). Voluntários e visão sem
fronteiras, chegavam às aldeias na simplicidade, expressa no traje, nas
atitudes e no envolvimento com a vida e os problemas diários: saúde, terra,
cultura e autonomia. A catequese foi abolida. A palavra de ordem era:
encarnação.
Assim conquistavam a aceitação dos índios e mantinham
um bom entrosamento com os demais missionários, animando o novo caminho
da Igreja Missionária Indigenista. De 1969 a 1989 (ano em que se
desvinculou da Igreja e optou passar à ONG indigenista), enviou dezenas de
jovens às comunidades mais carentes e abandonadas das prelazias de Diamantino,
Ji-Paraná, Guajará-Mirim, Rio Branco, Cruzeiro do Sul, Lábrea, Humaitá, Tefé,
Alto Solimões, Itacoatiara, Roraima e Dourados/MS. A sua sede em Cuiabá, foi um
dos centros de irradiação dos novos rumos da Igreja missionária.
Ali, em encontros informais, leigos(as), índios,
padres, bispos e políticos de frente, igualados, discutiam a política
indigenista e os rumos da Igreja Povo de Deus. Foi um dos locais,
onde surgiram as raízes do Conselho Indigenista Missionário-CIMI.
Este foi criado em 1972 em Brasília. Sua sede ali se tornou outro
centro de irradiação, assim como as assembleias indígenas e os encontros de
pastoral indigenista, já dentro do programa do CIMI. Neste ambiente
surgiram as raízes da CPT-Comissão Pastoral da Terra, criada em
1975 e que se tornou uma força em expansão no meio dos pequenos agricultores
injustiçados e perseguidos pelo latifúndio.
As assembleias indígenas, por sua vez, mudaram o rumo
da caminhada indígena. Organizados começaram a reviver a sua cultura e a
defender e reconquistar seu território. E atrás dos encontros de pastoral indigenista,
dioceses e prelazias da Amazónia, deixaram de ser “ilhas
culturais”, como foram qualificadas em 1970 em relatório do então secretario
nacional de Atividade Missionaria da CNBB, Pe. Iasi. Livres dos internatos, animados pelo Concílio Vaticano
II e com o CIMI e a OPAN, trazendo vocações,
jogadas de vida, puderam organizar um plano conjunto de pastoral indigenista e
se expandir pela Igreja Povo de Deus.
As paroquiais com as suas estruturas de cimento e os
colégios e as universidades cristãs, necessitam de uma revisão transformadora
rumo às periferias, como incentiva o Papa Francisco, para superarem
a estagnação e a amarração das vocações às estruturas estatais
romano-bizantinas. Tem-se a impressão hoje que há um retrocesso: colégios e
universidades preparando as elites para governarem as iníquas estruturas de
Estado. Nas paróquias a liturgia, longe das tradições dos povos da região,
longe da vida de Jesus e da vivência dos primeiros cristãos, fortalecem a visão
nicena. Discurso anti-ecuménico, autoridades e ricos e dizimistas garantindo
continuidade ao culto a monumentos, símbolos de poder... Sem estas estruturas,
quantas vocações se liberariam para anunciar a Boa Nova aos que sofrem de
variados males na paroquia e mundo fora!
A nossa paroquia aqui em Presidente Figueiredo é
um exemplo dessa caminhada marcha ré. Localiza-se sobre terras do povo Waimiri-Atroari,
povo que sofreu durante a Ditadura Militar um verdadeiro genocídio. Na
construção da BR-174 foi reduzido de aproximadamente 3.000 pessoas para 332, o
que fez D. Jorge, bispo de Itacoatiara assumir a região e chamar uma
equipe do CIMI-OPAN, para marcar presença junto aos remanescentes. Criou
a Paroquia dos Santos Mártires e Nossa Senhora Aparecida. Alguns
paroquianos ilustraram a parede da igreja, ao lado da mesa de celebração da
eucarística, com uma arte lembrando os mártires inocentes que tombaram na
construção da estrada.
Durante quatro anos a equipe do CIMI-OPAN foi
impedida pela Ditadura Militar de entrar nas aldeias indígenas visitando-as
apenas clandestinamente. Só no final da Ditadura pode marcar presença em
aldeia, onde fez a alfabetização do povo na sua língua materna, até ser expulsa
pelos interesses da exploração do território desse povo.
Dom Jorge morreu. E os remanescentes desses mártires
ficaram esquecidos, empurrados para a periferia da paroquia. E mais
recentemente o vigário mandou até retirar da igreja a arte que marcava a sua
presença e a paroquia se chama hoje apenas: Paróquia de Nossa Senhora
Aparecida, para tristeza da mãe do mártir Jesus e consoladora das famílias que
perderam seus entes queridos, massacrados pelos imperadores romanos.
O irmão jesuíta, Jose Korta, solitário sem incentivo da Província, organizou na
Venezuela a Universidade Kiwxi-Universidade Indígena da Venezuela que merecia
uma atenção, pois pode servir de inspiração, apontando saídas para as escolas
cristãs. Universidade sem cimento, sem asfalto e dirigida pelos indígenas da
região.
Quando o Papa Francisco pede a
mobilização da Igreja rumo à periferia, creio que não é apenas para visitar a
periferia, buscando levá-la ao “centro”, (des)envolvendo-a, europeizando-a,
como o fazíamos com as aldeias indígenas antes do Concílio
Vaticano II, mas sim, conviver com os depositários das riquezas
reveladas por Deus, conhecer os seus valores e enriquecer com eles a
humanidade. Levar a Igreja para as periferias é mudar de lugar, deixar as
estruturas para traz, talvez para alguém que precise de um abrigo e investir na
Igreja de carne e osso, a Igreja Povo de Deus.
Na atual situação da Igreja, incentivar o cristão a
rezar por vocações é tentar a Deus, é agredir a vontade de Deus, ao invés de
cumpri-la como se reza no Pai-Nosso. Fala-se muito nas Igrejas cristãs em
“carismáticos”, “pentecostais”, em “Espírito Santo”, mas está-se de fato
incentivando o cristão a rezar com verdade, com a jogada de sua vida: “Vem
Espírito Santo enchei os corações dos vossos fieis e acendei neles o fogo do
vosso amor. Enviai, Senhor, o vosso Espírito e tudo será criado e
transformareis a face da Terra”, para que ao término de sua vida possa rezar
aquela outra: “Minha alma engrandece o meu Senhor e o meu espírito exulta em
Deus meu Salvador?”
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