Frases soltas acerca do Evangelho do 6.º Domingo da Páscoa. Tema: «O amor é algo que se possa mandar?»
«Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: "Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor.
Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa.
É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando.
Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai.
Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça. E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros"» (Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João).
Há uma questão que se põe: O amor é algo que se possa mandar? Então, por que Jesus usou disse «É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros»? Ora, sem dúvida, para nos fazer compreender que, dali em diante, os mandamentos negativos do Decálogo davam lugar ao único mandamento positivo: amar.
O verbo «permanecer» aparece três vezes nesta passagem do Evangelho: trata-se de fazer nossa morada neste mesmo Amor pelo qual somos amados. Trata-se de não sair deste Amor, porque fora dele só existe o nada. O que O faz nascer em nós e aí permanecer é a fé. Qual fé? A fé neste Amor que nos faz ser. O nosso amor é, com efeito, sempre segundo: é uma resposta, porque Deus é quem ama primeiro. Assim, os discípulos de Cristo se fazem reconhecer pelo amor que manifestam uns para com os outros. Não por seus "exercícios de piedade", nem pela eventual delicadeza e exatidão da sua vida espiritual, nem mesmo pela prática de virtudes refinadas, se bem que tudo isso possa servir à manutenção de uma fé inicial no amor que se inicia. O intercâmbio de amor com os outros funde-se no intercâmbio com Deus, o que significa que temos de manter contacto com Aquele que quer que existamos.
A palavra amor é mais do que ambígua.
Por isso o Cristo pede que nos amemos, não de qualquer forma, não importando como, mas assim como ele mesmo nos amou.
E para que não confundíssemos este amor com qualquer sentimento mais ardente, faz questão de precisar: este amor consiste em dar a própria vida por quem se ama. Obviamente não seremos todos crucificados, nem abatidos como Dom Romero ou como os monges de Tibhirine. Nem todos seremos chamados a dar nossa vida a Deus e aos outros, em alguma ordem religiosa. Mas há outras maneiras muito mais comuns de dar a nossa vida.
O pensamento de Jesus é claro. Se não há amor, não há vida. Não há comunicação com Ele. Não há experiência do Pai. Se falta o amor na nossa vida, não fica mais que o vazio e a ausência de Deus. Podemos falar de Deus, imaginá-lo, mas não experimentá-lo como fonte de gozo verdadeiro. Então o vazio enche-se de deuses falsos que tomam o lugar do Pai, mas que não podem fazer brotar em nós a verdadeira alegria que o nosso coração pretende.
«Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa».
A alegria de Jesus não consiste em desfrutar egoisticamente da vida. É a alegria de quem dá vida e sabe criar as condições necessárias para que cresça e se desenvolva de forma cada vez mais digna e mais sã. Está aqui um dos ensinamentos-chave do Evangelho. Só é feliz quem faz um mundo mais feliz. Só conhece a alegria quem a sabe oferecer. Só vive quem faz viver.
Os santos e santas, por viverem profundamente fundamentados no amor de Deus, foram testemunhas da alegria. Eles(elas) deixaram transparecer que o amor que Deus nos tem suscita a alegria e esta motiva, dá energia, gera confiança. Este amor é o que nos faz sair de nós mesmos, reencontrar-nos e entregar-nos aos demais. E aqui está o “peso” do amor, o vigor da alegria.
Um sinal de identidade da alegria é o olhar profundo, amplo e expansivo da vida. Mesmo em meio à dor e ao sofrimento, não faltam o bom humor e a ternura. Quem é cristãmente alegre se desgasta menos, integra melhor os acontecimentos, é feliz e faz felizes os outros.
Quem vive na alegria sente-se sereno, livre, pensa positivamente, está próximo dos pobres, acolhe as adversidades, integra suas contradições, ama sem pôr condições, louva, canta e bendiz sem cessar.
Nesses nove versículos, nove vezes ressoa a palavra “amor/amar” e três vezes a palavra “amigos”.
Esse amor deriva de Deus Pai sobre o Filho, do Filho sobre os discípulos, seus amigos, e dos discípulos sobre os outros homens e mulheres. É um amor que se encarna e se dilata para poder alcançar a todos.
O que fazer, então, como discípulos de Jesus? Crer no amor (cf. 1Jo 4, 16), amar os outros porque Deus nos amou primeiro (cf. 1Jo 4, 19) e não ceder nunca à tentação de pensar que nos basta nutrir um amor de desejo ou de expectativa por Deus: não, nós o amamos se realizamos o mandamento novo do amor recíproco, à imagem daquilo que Jesus viveu.
O Espírito Santo acolhido em nossas vidas gera encontro, hospitalidade e dá frutos no amor fraterno. O Espírito de Deus sempre está a nos desafiar, a alargar nossa mente e coração para acolher e agir de forma que o Evangelho seja sempre mais vivido entre nós, nas famílias, nas comunidades e entre os povos, pois a salvação é para todos. A Boa Nova de Jesus é universal!
Textos de:
Padre Marcel Domergue, José António Pagola,
padre Adroaldo Palaoro, Padre Enzo Bianchi
e Irmã Maria Josete Rech

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