A data escolhida (24 de junho) para o nascimento de João Batista não foi um acaso. O que é que isso nos ensina?

A data escolhida para celebrar o nascimento de João Batista não é por acaso:

- Para o nascimento de Jesus Cristo foi escolhido o solstício de inverno, a 25 de dezembro, quando a exposição solar dos dias começa a crescer  - lembrando precisamente a frase de João Batista no Evangelho de S. João: «Ele é que deve crescer... » (Jo 3, 30).

- Para o nascimento de João batista foi escolhido o solstício de verão, a 24 de junho, quando os dias começam a diminuir - ecoando, de novo, a frase do Evangelho:  «E eu diminuir» (Jo 3, 30).

João é o maior dos profetas
Quando João Batista nasceu havia pelo menos trezentos anos que não aparecia nenhum um profeta em Israel, e é por isso que todos os evangelistas enfatizam a sua importância.

Relata S. Mateus que «João, o Baptista, pregava no deserto da Judeia. Dizia: "Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu." Foi deste que falou o profeta Isaías, quando disse:
Uma voz clama no deserto: 
Preparai o caminho do Senhor, 
endireitai as suas veredas. 
João trazia um traje de pêlos de camelo e um cinto de couro à volta da cintura; alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Iam ter com ele os de Jerusalém, os de toda a Judeia e os da região do Jordão, e eram por ele baptizados no Jordão, confessando os seus pecados.
Vendo, porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao seu baptismo, disse-lhes: "Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que está para vir? "Produzi, pois, frutos dignos de conversão e não vos iludais a vós mesmos, dizendo: 'Temos por pai a Abraão!' Pois, digo-vos: Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão. O machado já está posto à raiz das árvores, e toda a árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada no fogo. 
Eu batizo-vos com água, para vos mover à conversão; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu e não sou digno de lhe descalçar as sandálias. Ele há de batizar-vos no Espírito Santo e no fogo. Tem na sua mão a pá de joeirar; limpará a sua eira e recolherá o trigo no celeiro, mas queimará a palha num fogo inextinguível.
Então, veio Jesus da Galileia ao Jordão ter com João, para ser baptizado por ele. João opunha-se, dizendo: "Eu é que tenho necessidade de ser baptizado por ti, e Tu vens a mim?" Jesus, porém, respondeu-lhe: "Deixa por agora. Convém que cumpramos assim toda a justiça." João, então, concordou. 
Uma vez baptizado, Jesus saiu da água e eis que se rasgaram os céus, e viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele. E uma voz vinda do Céu dizia: "Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu agrado."» (Mt 3, 1-17;  textos semelhantes em S. Marcos - Mc 1, 2-8; S. Lucas - Lc 3, 1-6; e S. João - Jo 1,19-23).

João Batista faz questão de afirmar que não é o Messias e aponta para Jesus (Jo 1, 19-23). 

Jesus diz de João: «Entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista; e, no entanto, o mais pequeno no Reino do Céu é maior do que ele» (Mt 11, 11).

E é de sublinhar que há um aspecto nas suas doutrinas em que coincidem: ambos criticam duramente uma esperança baseada em pertencer a um povo ou às promessas feitas a Abraão sem nenhum compromisso pessoal. Tanto João como Jesus deixam bem claro que o comportamento pessoal diante de Deus, em todo o lado, é o único meio de alcançar a verdadeira salvação.

O profeta é a voz de Deus
João era filho de um sacerdote, mas ele não se apresentou como tal diante do povo. Pelo contrário, ele deixou a esfera do templo e batizou longe da influência das instituições religiosas do seu tempo.

Ele protestou contra tudo o que remetia para privilégios de castas ou poderes estabelecidos, como se fosse isso que desse autoridade. João pregou e viveu a liberdade de não agir em nome próprio, mas de ser mensageiro de Deus. Ele tinha a consciência clara de ser um enviado, que tem a obrigação de ser fiel ao remetente.

«João Batista é a primeira ruptura com o passado. Já não se chamará Zacarias, porque não será como o seu pai. Chamar-se-á João porque anunciará o novo que está ali mesmo, a seu lado, no ventre virginal de Maria.

Não será o “homem do templo e do culto”, mas o “homem do deserto e do anúncio”.

Não será o “homem que recorda o passado”; será o “homem que anuncia a proximidade do novo”.

Não será o “homem que anuncia a esperança”; será o “homem que anuncia que a esperança já é realidade”.

Não será o “homem da lei”; será o “homem que abre caminhos onde tudo parece estar bloqueado» (Padre Adroaldo Palaoro, jesuíta).

Profetas para hoje
Hoje, precisamos de profetas capazes de esclarecer o caminho que devemos percorrer para alcançar a realização humana: nascemos de Deus, somos convidados a ser sua imagem e semelhança e Deus aguarda que voltemos para Ele.

Hoje, as ofertas da sociedade para o sucesso são muitas, diversas, mas também enganosas, porque, no fundo, resumem-se a isto: primeiro o meu bem-estar, depois o da minha família (ou amigos), a seguir os estranhos, se for caso disso. 

Qual é o caminho que leva à verdadeira salvação? O Evangelho: a vida de Jesus, como nos é demonstrado por todos e cada um dos santos, à sua maneira.

Então, precisamos de fazer uma crítica sincera da escala de valores em que desenvolvemos a nossa vida.

E qual é a referência para essa crítica? O Papa Francisco escreve na carta apostólica Alegrai-vos e Exultai (AE), sobre o chamamento à santidade no mundo atual, que «Jesus explicou, com toda a simplicidade, o que é ser santo; fê-lo quando nos deixou as bem-aventuranças. Estas são como que o bilhete de identidade do cristão. Assim, se um de nós se questionar sobre “como fazer para chegar a ser um bom cristão”, a resposta é simples: é necessário fazer – cada qual a seu modo – aquilo que Jesus disse no sermão das bem-aventuranças» (AE 63)


Foto: Postal antigo, com a Virgem Maria, João e Jesus

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