Jesus quis um clero como o que temos?

É um facto, bem conhecido, que o Papa Francisco está a encontrar numerosas e às vezes fortes resistências, que vêm, não dos inimigos tradicionais da Igreja, mas sim precisamente e de maneira surpreendente de sectores importantes do clero. Resistências que inevitavelmente contagiam não poucos leigos, que se distanciam da Igreja ou desconfiam do Papa Francisco e dos seus ensinamentos.

Seja qual for o assunto, não há dúvida de que as relações do Papa Francisco com o clero nem sempre são fluidas e simples. Este papa criticou não poucos comportamentos de homens do clero, independentemente de cargos, dignidades e condutas dos ‘homens da Igreja’ que, em não poucos casos, puseram a nu assuntos obscuros ou até mesmo escandalosos. Não seria melhor esconder – ou tentar esconder – determinadas condutas que, tornadas públicos, escandalizam as pessoas e prejudicam os crentes e não-crentes?

Não há dúvida de que este papa quer mudar muitas coisas. Como o mesmo papa disse, há alguns dias, "isto é sério". Até chegar onde for necessário. Até às últimas consequências.

E qual seria a última dessas consequências? Pois, se formos até o fundo e sem medos, acho que chegou a hora de enfrentar uma pergunta que possivelmente nos assusta: Temos certeza de que Deus quer que na Igreja haja um clero como o que temos?

A palavra ‘clero’ não aparece no Novo Testamento. Esse termo foi introduzido provavelmente por alguns escritores cristãos, no século III. Como se sabe, a palavra clero vem do grego kleros, que significa ‘lote’, no seu sentido original de parte da ‘herança’.1 A partir daí ‘clero’ passou a ser entendido como um grupo ou conjunto de pessoas ‘privilegiadas’ ou isentas de impostos e de  outras obrigações, privilégios que foram concedidos à Igreja, especialmente a partir do ano 313, em razão da chamada conversão do imperador Constantino (Peter Brown, ‘Por el ojo de una aguja [Pelo buraco de uma agulha], Barcelona, Acantilado, 2016, 103-104). Concretamente, os ‘privilegiados’ foram os líderes da Igreja. Dito resumidamente, o ‘clero’ tornou-se ‘distinto’ porque era privilegiado. Assim tem sido desde o século IV. E assim continua a ser.

No entanto, se há algo bem claro nos Evangelhos, é que Jesus não quis privilégios, nem privilegiados, na sua comunidade de ‘seguidores’ e discípulos. A isto Jesus opôs-se, de forma categórica, quando dois dos seus discípulos, Tiago e João, pretenderam ocupar os primeiros lugares (Mc 10, 35-46, Mt 20, 20-28). E, sobretudo, na Ceia de despedida, quando Jesus impôs aos seus apóstolos o exemplo de vida que teriam de levar: lavar os pés aos outros (Jo 13, 12-15). O que era como dizer-lhes que tinham de viver, não exatamente como privilegiados, mas como escravos ao serviço dos outros.

Mas aconteceu que, com o passar do tempo, as coisas mudaram. Foi entre os séculos IV e VI, quando bispos e clérigos conseguiram posições de privilégio, enormes riquezas e condições que levaram esses homens a serem os grandes senhores do Ocidente. Ao dizer isso, não pretendo insinuar que os clérigos de hoje sejam ‘grandes senhores’. Não o são. Mas acontece, não raro, que se encontrem ‘homens da Igreja’ que na realidade o que buscam na vida é mais ‘instalar-se’ neste mundo do que ‘seguir Jesus’, com todas as suas consequências.

Pode-se dizer que Jesus quis uma Igreja dividida e separada em duas categorias de cristãos, uns, os ‘clérigos’, com poderes e dignidades, e os outros, os ‘leigos’ submissos e profanos? Sem dúvida, foi assim que se manteve solidamente a religião, com seus templos e suas liturgias. Mas, depois de tal divisão, temos vivido, e vivemos, melhor o Evangelho? Somos assim melhores ‘seguidores de Jesus’?

O ‘clero’, tal como o temos e tal como funciona, não foi uma invenção de Jesus, o Senhor. Ele foi inventado pelo egoísmo humano. Nem pertence à ‘Fé divina e católica’ que a Igreja tenha de estar dividida assim. Na Igreja pode haver ministros do Senhor, testemunhas do Evangelho e pessoas responsáveis pelas comunidades cristãs, que cumprem essas funções sem necessidade de serem ‘privilegiadas’ e ‘consagradas’, como o têm sido desde a Antiguidade tardia.

Não se poderia começar a introduzir mudanças, que o povo crente seja capaz de ir assimilando, para preparar uma Igreja do futuro, que seja menos ‘clerical’, mas mais ‘evangélica’? Ou será que para nós é melhor continuar com a Religião do que com o Evangelho? 

José Maria  Castillo, em Religión Digital.
Tradução: Orlando Almeida
Foto: Pixabay

1 [cfr. Dicionário Houaiss: lote, ‘parte de um todo que se divide’, ndt].

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