A Nau dos Insensatos - uma alegoria dos navios à deriva nas águas do Mediterrâneo

«A nau dos insensatos é uma antiga alegoria muito usada na cultura ocidental em literatura e pinturas. Imbuída de um senso de autocrítica, ela descreve o mundo e os seus habitantes humanos como uma nau cujos passageiros perturbados nem sabem nem se importam para onde estão a ir» (Wikipédia.pt).

No livro História da Loucura (acede-se aqui à versão em PDF), lançado em 1964, o filósofo e historiador francês Michel Foucault retoma a alegoria da Stultifera navis (nau dos insensatos ou dos loucos) para descrever a sombria trajetória dos indesejados no período da Idade Média, especialmente nos séculos XVI e XVII.

Com relativa frequência eles eram internados em:
- manicómios,
- hospitais,
- lazaretos
- prisões
segregados da população como pessoas perigosas e portadoras de um vírus contagioso.

Foucault retoma a imagem da nau dos insensatos como metáfora para tais internações mais ou menos forçadas. Era de facto em semelhantes naves que, em séculos anteriores, os indesejados eram obrigados a embarcar, sem porto seguro onde pudessem receber ordem para atracar. Eram condenados à deriva sobre as águas por tempo indeterminado.

Entre tais indesejados, figuravam
- os doentes mentais,
- os leprosos,
- as feiticeiras,
- os hereges,
- os vadios,
- os embriagados,
- os sem teto e sem endereço…
Mas também, dependendo da abundância ou carência de mão-de-obra barata e disponível, poderiam ser os sem trabalho, desempregados.

Estes últimos, em tempos de vacas gordas e de pouca demanda de emprego, costumavam ser classificados como
- preguiçosos,
- indolentes
-ineptos para o trabalho regular,
sendo por isso mesmo descartados e enviados para qualquer tipo de internamento ou correção. Já em tempos de vacas magras e escassez de braços, todos se tornavam ideologicamente vagabundos, devendo serem resgatados à força e postos a trabalhar.

A alegoria da Nau dos insensatos vem à tona diante da saga recente de outros dois navios à deriva nas águas do Mediterrâneo.

Primeiro foi o Aquarius SOS Mediterranée, em junho de 2018, com 629 imigrantes a bordo. Provinham do Norte da África e haviam sido resgatados nas costas da Líbia. O caso levantou uma polémica que, em todo o continente, se arrastou por toda uma semana.

Na Itália, o Ministro do Interior Matteo Salvini, mandou fechar os portos do país à embarcação, afirmando que a fronteira mediterrânea não é somente italiana, mas de toda a Europa. Após várias discussões e um bate-boca entre as autoridades de vários países, a Espanha acabou abrindo o porto de Valência para o desembarque dos pobres rechaçados, já abatidos e com a bandeira da esperança a meia haste.

Depois veio o Lifeline SOS Mediterranée, com 234 imigrantes a bordo, resgatados igualmente nas costas da Líbia. Novo rechaço por parte da Itália e nova polêmica de Matteo Salvini com os governos dos vários países que formam a União Europeia (UE). Durante seis dias, o navio permaneceu à deriva, sem receber permissão para atracar em porto seguro.

A Itália atirou a batata quente para Malta,
Malta para a França,
a França para a Espanha
e esta para a UE como um todo.
Ocorreram diversas tentativas de acordos bilaterais e inclusive uma cúpula em Bruxelas com mais de 20 países. Tudo em vão! Todos recusavam abrir um precedente ao receber os africanos.

No final, Malta decidiu acolher a embarcação,
desde que os imigrantes fossem divididos por oito países.
Entre estes, a Itália, a Espanha, Portugal, a França, a Holanda e a própria Malta.

Duas naves à deriva: sem rumo certo, perdidas entre um continente novo e periférico e um outro, velho e central. Os tempos são de crise – de vacas magras – mas nem por isso de escassez de emprego. Ao contrário, os trabalhadores braçais são ignorados, indesejados e descartáveis.

As “naus dos insensatos” erram de um lado para outro, rompem fronteiras e tentam colher as migalhas do progresso técnico e da economia globalizada, que caem da mesa dos países desenvolvidos. Mas a pressão, o medo e a ameaça das populações desses mesmos países, e não só das autoridades, são fatores de rechaço e de políticas anti-migratórias.

Prova disso é o resultado das últimas eleições em não poucas nações: uma guinada à extrema direita. Os deslocamentos humanos fazem parte não apenas da campanha e de todo o processo eleitoral, mas também da forma de governo dos eleitos.

Politizam-se as migrações, criminalizando os próprios migrantes.
As leis se tornam mais rígidas,
multiplicam-se os muros,
instalam-se sofisticados sistemas de vigilância.

Por outro lado,
enquanto a Europa se fecha aos imigrantes que chegam do Sul,
a “tolerância zero” de Donald Trump não somente faz o mesmo, mas desencadeia uma política de expatriação dos indocumentados, com a drástica separação entre pais e filhos.

Onde vão atracar as novas “naus dos insensatos”?

P.e Alfredo J. Gonçalves, vicariogenerale@scalabrini.org

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