«Como é bela e nobre esta preocupação: aliviar o fardo dos outros através da nossa ajuda»

S. Paulo promove nas várias comunidades que ele fundou um peditório em favor dos pobres de Jerusalém, tendo Cristo como modelo, para que haja mais igualdade entre os batizados. Através da partilha, a comunidade esforça-se para repor a igualdade original querida por Deus, pois no princípio, Deus criou-nos à sua imagem e semelhança, isto é, em igualdade:

«Conheceis a generosidade de Nosso Senhor Jesus Cristo: Ele, que era rico, fez-Se pobre por vossa causa, para vos enriquecer pela sua pobreza. Não se trata de vos sobrecarregar para aliviar os outros, mas sim de procurar a igualdade. Nas circunstâncias presentes, aliviai com a vossa abundância a sua indigência para que um dia eles aliviem a vossa indigência com a sua abundância. E assim haverá igualdade, como está escrito: "A quem tinha colhido muito não sobrou e a quem tinha colhido pouco não faltou."» (Segunda Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios 8, 7-15).

Como é bela e nobre esta preocupação: aliviar o fardo dos outros através da nossa ajuda.

Procurar a igualdade!
A desigualdade foi e é um atropelo à vontade do Criador. Para usar uma linguagem da 1.ª leitura, foi «por inveja do demónio e dos seus partidários» que a desigualdade se instalou nas relações entre os homens. 

No atual modelo económico, por exemplo, sabemos que «a inveja, o egoísmo, a cobiça converteram-se em motores da economia; a solidariedade, a preocupação com os pobres são vistas, em contrapartida, como travões ao crescimento económico e são, finalmente, contraproducentes para alcançar uma situação de bem-estar de que todos possam, um dia, beneficiar» (Gustavo Gutiérrez). Há uma clara inversão de valores.

Não surpreende, pois, que os países mais ricos estejam empenhados em fechar as fronteiras em relação aos pobres que, por sua vez, se encontram nesta situação, em parte por causa da exploração de que são vítimas. Alguns sobrevivem por 12 meses ou 12 anos em guerras internas cujas armas terão sido vendidas pelos países mais ricos. Triste desigualdade. Estão condenados a viver como uma mulher que padece de uma hemorragia interminável, uma ferida aberta pelo pecado dos irmãos.

Como as mulheres do Evangelho, muitos destes pobres não têm nome. Aos olhos dos que se movem pela inveja e pela cobiça, eles não têm valor. São tão insignificantes que podem morrer no deserto ou num oceano, na esquina de uma cidade ou na fronteira de um país. Mas a sua presença desafia continuamente a comunidade crente. Eles aproximam-se receosos de quem os pode ajudar. Receosos, mas animados por uma esperança ténue de encontrar no outro um coração generoso. Um coração moldado pelo Deus da generosidade, que lhes estenda a mão e os ajude a recuperar a dignidade de filhos amados por um Pai misericordioso, como Aquele que Jesus nos revelou. E quando os acolhemos, percebemos que eles, à imagem do Salvador, na sua pobreza, também têm a capacidade de nos enriquecer. Eles despertaram o melhor que há em cada um de nós. Transformam-nos, tornam-nos mais humanos! 

Por outro lado, não nos esqueçamos do que o Papa Francisco nos recorda na recente Exortação Alegrai-vos e Exultai: «Em cada irmão, especialmente no mais pequeno, frágil, inerme e necessitado, está presente a própria imagem de Deus. De facto, será com os descartados desta humanidade vulnerável que, no fim dos tempos, o Senhor plasmará a sua última obra de arte» (n. 61). Os pobres evangelizam-nos. Deixemo-nos evangelizar por eles.

P.e Nélio Pita, Congregação da Missão, em iMissio

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