Entrevista a Amelia Tiganus, vítima do tráfico de mulheres: «Tornam-te uma mulher utilizável, descartável»

Em 2002, com 17 anos, Amelia Tiganus chegou à Espanha vendida por 300 euros por uma rede de tráfico que operava desde a Roménia. Passou por 40 prostíbulos. Conseguiu sair cinco anos depois, uma vez que a consideraram descartável. Define-se como uma combatente contra o tráfico. Tomou consciência da escravidão a qual a submeteram a partir do descobrimento de leituras feministas.

Entrevista concedida a Sonia Santoro, em Página/12

De onde é, Amélia?
Nasci em 1984, em Galati, no leste da Roménia. Uma cidade industrial, numa família de classe trabalhadora. Sou a mais velha de duas irmãs. 

A minha vida era como a de qualquer outra pessoa nessa situação. A destacar o meu bom nível de estudo e o meu desejo de ser professora ou médica, também que nunca passei por necessidades económicas. Talvez, sim, sofri as necessidades a nível emocional porque dentro do núcleo familiar era uma situação generalizada. Talvez porque fosse uma sociedade que passou pela época do comunismo, de viver em ditadura, e tanto as mulheres como os homens tinham horários e dinâmicas bem marcadas, e a vida afetiva era deixada à margem, o valor do afeto. Então fomos criados, a minha geração e as que viveram essas épocas de mudança, nessas dinâmicas de ausência do afeto parental.

O que aconteceu? Como caiu na exploração sexual?
O desencadeante, o que mudou a minha vida foi ter sofrido aos 13 anos uma violação múltipla. Eram meninos do bairro, conhecidos. Na rua, voltando do colégio me rodearam e começaram a insistir e isso se desencadeou numa violação múltipla. Porém isso não foi o pior, porque foi um facto muito traumático, porém a minha mente guardou-o num canto e sinto que se apagou da minha memória, o pior foi o que veio depois, quando o meu entorno não soube responder àquilo, talvez por medo ou por falta de ferramentas...

Contou aos seus pais?
Não contei aos meus pais porque tinha muita vergonha, medo de desapontá-los, não queria que sentissem vergonha, nem que colocassem em dúvida o que aconteceu.

Pensava que podiam culpá-la de algo...
Sim, pensava, porque eram muito conservadores. E me criei com essa ideia de que se acontece algo a uma mulher é porque não teve o cuidado suficiente ou porque estava vestida de alguma maneira. Essa mensagem eu tinha incorporado muito bem.

Porém logo se manifestou, se difundiu e me marginalizou. Primeiro, e mais importante, as notas baixavam porque já não rendia, diziam que tinha me tornado uma vagabunda e não viram os sintomas. Tampouco a vizinhança, que se dedicava a apontar-me, a dizer que eu era uma puta. Os pais das minhas amigas não as deixavam falar comigo porque diziam que iria ocorrer-lhes o mesmo...

Então, os seus pais se inteiraram.
Sim. Seguramente gerou-lhes muita dor, penso agora, porém nesse momento me senti bastante desprezada pela sua atuação. 

Vi-me totalmente marginalizada pela sociedade, muito vulnerável. Nessa situação, onde ademais as violações se tornam sistemáticas porque me perseguiam, tinha duas opções: uma era suicidar-me por não aguentar tudo isso e outra era assumir que isso era assim, que eu era uma puta. E adquiri esta falsa salvação, agarrei-me a esta ideia... A partir desse momento pensei «bem, não importa, deito-me com todos», porém, também era para evitar as situações de maior violência, para sobreviver, era um mecanismo de defesa.

Quanto tempo durou isso?
Desde os 13 anos até os 17 anos e meio, quando começaram a dizer-me para ir a Espanha exercer a prostituição por alguns anos, ter uma casa, um carro. Deram-me como exemplo outras meninas que vinham de ali, que eram muito queridas e admiradas, porque dentro do sistema és o que tens, o valor que tens. E me iludi muito, acreditei e disse que sim. Tinha 17 anos, era menor de idade e esse homem me vendeu por 300 euros. Ele possuía um prostíbulo em Alicante, onde em seguida cumpri a maioridade. Assim foi como cheguei à Espanha e ao sistema de prostituição.

E afastou-se dos seus pais?
Naquela equação, os meus pais ficaram de lado, porque eu tentei sobreviver à minha maneira, aos 16 anos comecei a trabalhar numa fábrica, a levar a minha vida para a frente, e eles ficaram numa posição secundária.

Repensou o consentimento que supostamente deu a essa idade?
Claro. O mais chamativo é que eu não me identifiquei como vítima de tráfico até há quatro anos. Ou seja, sete anos depois de sair do sistema da prostituição, sem apoio, em tremenda solidão. Eu durante todo esse tempo pensei que como dei meu consentimento, sem pensar como o dei, tinha de me conformar. É a revitimização que sempre ou quase sempre nós mulheres sofremos. Foi pela afirmação do meu ser feminino que me dei conta de que era vítima do tráfico...

Como chegou ao feminismo?
Por causalidade, começando a ler. Foi um momento de abrir os olhos, me dar conta que todas as perguntas que me foram rondando a cabeça, tudo tinha um sentido, uma explicação e então pude dar nomes ao vivido.

Pude entender a minha história pessoal e enquadrá-la no âmbito sócio-político, e assim entender que parte da minha história pessoal formava parte de um grande entremeado que lança na prostituição milhões de mulheres em todo o mundo. 

Quando comecei a estudar sobre o tráfico de pessoas, conheci o Protocolo de Palermo, e dei-me conta de que eu tinha sido vítima de tráfico. Primeiro porque dei esse “consentimento” sendo menor de idade e, segundo, ainda que não tivesse sido menor de idade, estava numa condição de vulnerabilidade.

Disse uma vez que os prostíbulos são campos de concentração.
Sim, depois de escutar Sonia Sánchez, que disse que a prostituição “é um campo de concentração a céu aberto”, comecei a refletir sobre isso, a fazer conexões e então comecei a pensar que também o era a prostituição dentro dos prostíbulos, que era o que eu conhecia.

Passei por mais de 40 prostíbulos durante os cinco anos que fui explorada na Espanha. E ter os sentidos postos em sobreviver as 24 horas do dia; estar exposta a ver pornografia (filmes) as 24 horas do dia e como forma de tortura, recebendo uma mensagem muito clara de “para isso estás e serves”; ter que fazer fila para tudo, para mudar os lençóis, para comer, para entrar nos quartos com os “clientes”. Também a desconexão total com a sexualidade, com o desejo, simplesmente um ato mecânico, em que o cliente quer dominar. Ser em função do que os outros te demandam porque primeiro perdes a identidade, te transformas numa mulher utilizável, descartável; num corpo em que se quebra a tua humanidade...

Quando pensou pela primeira vez em sair, escapar?
A primeira vez foi a três semanas de chegar a Espanha, quando me dei conta de que o proxeneta que me havia comprado não cumpria com a sua parte, porque me havia dito que, depois de pagar a dívida que havia acumulado pelo passaporte e a viagem, os lucros iriam ser repartidos metade para cada. Porém, depois de pagar a dívida, esses 50% que teriam de me dar, eram-me descontados para o alojamento, as roupas da cama. 

Haviam-me dito primeiro que era para ganhar muito dinheiro e sair logo em dois anos, e se não cumpria era porque não me esforçava o suficiente. 

Também há um sistema de multas por não cumprir os horários, por não estar às cinco em ponto nas salas quando se abria a porta (e nos colocávamos em fila diante dos clientes). Por demorar mais nos quartos, por mastigar chicletes, por responder mal a um “cliente”, porque o proxeneta vai perder a clientela e porque esse (o prostituinte) lhe dirá a outros que ali tem garotas complicadas. 

Então, dei-me conta de como ficava sem nada. O que me restava era sobreviver e seguir agarrada à droga e ao álcool. Nos viciamos nisso para poder resistir e sobreviver. 

E às três semanas quando me dou conta disso tudo, porque estava ainda bastante lúcida, decidi escapar no dia em que tive o passaporte em mãos (tinham-mo retirado no primeiro dia. Me disseram que tinham um cofre para guardarem porque as garotas poderiam me roubar). Porém só me devolveram o passaporte um dia que o proxeneta recebeu um telefonema de um policia a avisã-lo de que nessa noite haveria uma rusga policial: nessa noite, todas tínhamos os passaportes em mãos e as que pareciam menores de idade nem estavam lá. 

O que fiz, na altura, foi pedir a um “chulo” que me levasse a outro prostíbulo. E as pessoas diziam: «Se tu estavas tão mal, porque foste para um prostíbulo?» Eu respondo, primeiro, fica claro que não queria voltar à Roménia e, segundo, estava num país totalmente desconhecido, não falava o idioma. Desconhecia os meus direitos. E ainda pensava que era possível que eu ganhasse dinheiro para solucionar minha vida. E acabei noutro prostíbulo. E dali em outro e outro porque trabalhavam em rede e a cada 21 dias renovam para ter garotas novas, para ter mercadoria sempre variada e nova. E o sistema era o mesmo: explorar. 

Estive cinco anos. Demorei cinco anos porque resistia a sair sem levar nada. Tinha dor de sair disso sem levar nada e me prometia um ano mais, outro ano mais, até chegar a cinco. Auto-engano.

Como saiu?   
Saí. Um dia me sentei em uma cadeira e pensei que não queria que ninguém mais me tocasse. E me aguentei por duas semanas. Me faziam muitas pressões porque acumulava dívidas com o clube. Até que me deixaram ir, porque, apesar de todas essas insistências, não dava mais de mim e isso já não lhes importava: depois de cinco anos, haviam feito um monte de dinheiro. Além disso, estavam a entrar três novas de 18 aninhos recém cumpridos, com as mesmas ilusões.

As garotas são também em geral estrangeiras...
Sim. Uma 90 % são de países de origem das redes de tráfico.

Qual é o seu sonho de agora?
Tenho muitos, graças ao universo não perdi a capacidade de sonhar nem de perder as esperanças. O meu sonho é que esta sociedade possa abrir os olhos e pensar sobre qual modelo de Estado, de sociedade queremos. Se supõe que se lutamos para que nossos direitos como mulheres estejam assegurados, é ingénuo pensar que legalizando a prostituição podem garantir-nos isso, porque o mesmo ato em sim é discriminatório para todas as mulheres porque as põe à disposição dos homens em lugares físicos onde as mulheres que estão ali são convertidas em corpos utilizáveis e descartáveis.

Como vive hoje?
Eu assumo o meu ativismo através do sítio http://feminicidio.net e quando falo, faço-o em nome de uma organização... não estou sozinha, somos uma equipa multidisciplinar. 

O primeiro que fazemos é ir contra os feminicídios no Estado Espanhol, os do sistema prostituidor. Desde o ano 2010, temos documentados 42 casos. Seguramente haverão mais. 

A grande maioria dessas 42 mulheres assassinadas provinha de países de origens das redes de tráfico (no Leste Europeu: Roménia e Ucrânia; na América Latina: Brasil e República Dominicana; na Ásia: China; na África: Nigéria), todos eles pontos onde as mulheres fomos convertidas em matéria-prima para sermos exploradas.

Dentro da organização coordeno um projeto de sensibilização, formação e prevenção da prostituição, tráfico e violência sexual.

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