«O Evangelho não é uma religião e, portanto, o cristianismo, tampouco. É um projeto de vida», entrevista com José María Castillo
José María Castillo é um dos melhores teólogos da atualidade. Durante anos perseguido e condenado por defender uma teologia popular, aberta e próxima aos pobres. Agora, a chegada do Papa Francisco supôs uma reabilitação completa para Castillo.
Não somente teológica, mas sim visível: o mesmo Bergoglio recebeu, e agradeceu a Pepe Castillo por sua teologia, em uma histórica jornada, que recordamos nesta entrevista em razão da publicação de “A religião de Jesus. Comentários ao Evangelho diário Ano C”, editado por Desclée. O futuro da Igreja e das religiões também expostas, com uma ideia clara: “O Evangelho não é uma religião e, portanto, o cristianismo, tampouco. É um projeto de vida.”
Entrevistou Jesús Bastante, para Religión Digital
O que nos diz o Evangelho sobre o que está a acontecer no
mundo hoje?
Nos diz que em questões muito fundamentais da vida, este
mundo derivou para outros interesses, outro problemas e outra soluções que
estão justamente na oposição ao Evangelho. Isso me parece importante. E o que
quero adicionar é, no meu ponto de vista, o mais fundamental neste momento: a
relação entre Igreja e Evangelho.
Qual é essa relação? Que problemas temos nessa relação?
O problema essencial, na minha maneira de ver, é que a
Igreja, em grande medida e no fundamental, excluiu o Evangelho.
Porém não seria a base sobre a qual se assenta?
Efetivamente, é a base, é o eixo, o centro. Mas, sem
dúvidas, não o é. Ainda que temos a sorte do atual papa.
O Papa Francisco é um personagem singular na história do
papado: é, pelo que sabemos, um papa inteiramente original. Do meu ponto de
vista, é um homem que sem dizer, na sua intimidade profunda, é o que ele tem
marcado e como se programou. Mas o facto é que ele está a mudar o papando, pela
sua maneira de viver, na sua humanidade, sobretudo, a sua proximidade ao povo,
a sua sintonia com aqueles com quem ninguém sintoniza: as pessoas mais
desamparadas e desgraçadas deste mundo.
Esse papa está a mudar a situação: está a mudar o papado e
está a mudar também o futuro da Igreja. Isso que quero destacar.
É suficiente? Quero dizer: que não deixa de ser um homem
diante de um mastodonte, como é a instituição eclesiástica, que luta com força
e com ferocidade para não se fazer um haraquiri, para não desaparecer, no
sentido de desaparecer as hierarquias, dos vínculos de poder, essa estrutura
piramidal que deixa um pouco afogado o Povo de Deus.
Sim, isso é, porque no fundo há um perigo que é muito mais
grave: não é nenhum segredo que o papa tem grandes, vamos dizer, inimigos na
Igreja. E inimigos de muito alto nível. Não é só entre o mundo laical,
político, económico, social, intelectual..., mas sim o mais doloroso, no mundo
eclesiástico.
Na própria casa.
Sim. Inimigos que quiseram tirá-lo do meio o quanto antes,
ou que Deus o tire. E a raiz do problema está em que a Igreja, desde as suas
origens, tem sempre uma dificuldade, uma distância e as vezes uma contradição
muito forte com o Evangelho.
Não esqueçamos uma coisa muito importante: o Evangelho não é
simplesmente uma religião. Prova disso é que o protagonista do Evangelho, que é
Jesus, matou a religião. E segundo os relatos, o Evangelho, afinal de contas, é
uma teologia narrativa não exposta em teoria, nem em doutrinas, mas sim em
relatos de factos da vida.
Essa recapitulação de relatos, que cada um dos evangelistas
organizou e apresentou de uma maneira distinta, no fundo coincide numa coisa
essencial, e na qual, normalmente uma quantidade notável do mundo clerical
resiste a reconhecer.
E o que é?
Que o Evangelho não é uma religião e, portanto, o
cristianismo tampouco. É um projeto de vida. E digo que não é uma religião pelo
que já indiquei antes e não me cansarei de repetir: que nunca deveríamos
esquecer que o Evangelho é a história de um conflito. Um conflito que terminou
em morte e, isso sim que é curioso, o grande defensor e o que mais resistiu a
matar Jesus, foi, segundo os relatos da paixão, o procurador romano.
Sim, Pilatos.
O notável é que os mais empenhados em que deveria não
somente matá-lo, mas além, matá-lo em uma cruz (isso é, de uma maneira mais
cruel e mais humilhante e degradante que havia naquela cultura e naquela
sociedade) eram os dirigentes máximos da religião.
A Igreja e o cristianismo se apresentaram, vivenciaram,
organizaram e estão na sociedade como uma religião, desfiguram, deformam e
esquecem o eixo e o centro do Evangelho.
Então, como se consegue expandir a mensagem, o projeto-vida
de Jesus, a todo o mundo, sem converter-se numa religião que, ademais, está
apegada a um poder? Porque sem o Império Romano, provavelmente essa expansão
teria sido impossível. E sem determinadas ligações entre o poder e o religioso,
seguramente a mensagem de Jesus não teria chegar durante séculos para tanta
gente. Essa é uma teoria do mal menor? Ou serviu durante uma época para
expandir a mensagem, mas a instituição deveria ter-se retraído, depois, da sua
relação com o poder?
O que eu poderia averiguar lendo, estudando e refletindo
sobre isso praticamente toda minha vida, porém sobretudo nos últimos anos, é
que há um processo que se provoca já desde o começo. Serei o mais breve
possível: o primeiro é que as primeiras Igrejas se expandiram pelo Império sem
conhecer o Evangelho porque o propagador principal daquelas Igrejas foi São
Paulo. São Paulo não conheceu Jesus e, portanto, tampouco o Evangelho. O que
ele viveu na famosa experiência no caminho de Damasco quando, dizem, se caiu do
cavalo (ainda que a história não mencione nenhum cavalo), foi a experiência do
Cristo ressuscitado. Portanto: Cristo já não é deste mundo, mas sim depois
deste mundo; na plenitude de sua glória na eternidade.
Paulo e Pedro já tinham suas batalhas como sobre tinha de
ser isso.
Tiveram confrontos por esses e outros motivos. Porém o facto
é que Paulo não conheceu Jesus. Mas Dele escreveu: «O amor de Cristo nos
absorve completamente, ao pensar que um só morreu por todos e, portanto, todos
morreram. Ele morreu por todos, a fim de que, os que vivem, não vivam mais para
si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.
Por conseguinte, de agora em diante, não conhecemos ninguém
à maneira humana. Ainda que tenhamos conhecido a Cristo desse modo, agora já
não o conhecemos assim. Por isso, se alguém está em Cristo, é uma nova criação.
O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas.
Tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou consigo por meio
de Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação. Pois foi Deus quem reconciliou
o mundo consigo, em Cristo, não imputando aos homens os seus pecados, e pondo
em nós a palavra da reconciliação.
É em nome de Cristo, portanto, que exercemos as funções de
embaixadores e é Deus quem, por nosso intermédio, vos exorta. Em nome de Cristo
suplicamo-vos: reconciliai-vos com Deus.
Aquele que não havia conhecido o pecado, Deus o fez pecado
por nós, para que nos tornássemos, nele, justiça de Deus» (2 Cor 5, 14-21)
A Igreja hoje é mais Paulo ou mais Pedro? O mais nenhum dos
dois?
A Igreja não se reduz a Pedro e Paulo.
Bem, mas como sintoma: se é uma Igreja mais espiritual, uma
Igreja mais estrutura, ou tentando voltar mais às origens.
Se por Pedro entendemos a Igreja que provém do Jesus
histórico, evidentemente o Evangelho é mais de Pedro. Enquanto que as cartas
apostólicas que Paulo enviava às suas Igrejas por todo o Império, desde o
Oriente até, dizem que chegou a Espanha. As elaborava Paulo desde a sua
experiência do transcendente, do Ressuscitado. Muito condicionado também pelas
suas ideias de educação: educou-se na cultura grega, está muito marcado pelo
pensamento estóico e parece que pode afirmar-se com toda garantia que tinha
condicionantes de origem gnóstica. E tudo isso não é Jesus, é outra coisa e vai
por outros caminhos.
O notável é que os evangelhos começaram a aparecer a partir
do ano 70, uns quarenta e tantos anos depois da morte de Jesus. Quando a Igreja
já se havia organizado em comunidade e assembleias pelas grandes cidades do
Império. Essa é a primeira dificuldade.
A segunda dificuldade é que as assembleias que organizavam
as Igrejas de Paulo não tinham templos, nem tinham o que hoje chamamos igrejas,
no sentido de edifícios. Reuniam-se em casas, mas tinham de ser casas grandes e
os que dispunham de casas assim eram os ricos e poderosos. Então que a Igreja
se organizou em torno das casas das pessoas ricas, importantes e seus
consequentes interesses.
O terceiro facto – que muita gente não sabe, ou nem se deu
conta – é que nos primeiros séculos todo o Império era bilíngue: falava-se,
sobretudo, o grego, também o latim. Mas os evangelhos foram redigidos ou
copiados em grego, e o grego era conhecido pelo povo culto. Portanto, o povo de
certo nível social, cultural, com todos os aditamentos que inevitavelmente isso
carrega consigo. E os pobres , o que faziam? Pois o que sempre fizeram e seguem
fazendo: ficam à margem.
A primeira tradução completa da Bíblia da qual se tem
conhecimento, não é a do famoso patrólogo Quasten do ano 180, que já é
bastante: seria quase um século e meio depois da morte de Jesus. Segundo
Tertuliano, no século III é quando tem notícias dessa primeira tradução de toda
Bíblia ao latim. Por isso, nos dois primeiros séculos o povo não podia conhecer
o Evangelho.
Há um quarto factor muito importante: no começo do século IV
dá-se a famosa “conversão de Constantino”. A partir daquele momento, começam a
conceder privilégios à Igreja.
Não me detenho nisso. Mas convém tê-lo em conta. E no mesmo
século IV, já ao final, com o imperador Teodósio, que era originário do que
agora chamamos Espanha (parece que era Aragão), foi ele que declarou a Igreja
como religião oficial do Império.
Teodósio foi o Imperador que deu um passo mais que
Constantino, porque Constantino permitiu o cristianismo, porém Teodósio
declarou-o a única religião, e todas as demais passaram à clandestinidade. A
partir desse momento, finais do século IV, até começos do século VI, se produz
um fenómeno que foi estudado atenciosamente, muito documentado, por um dos
homens mais competentes que temos nesse assunto. Provavelmente o mais
competente em todo o mundo, um professor de Oxford que se chama Peter Brawn.
Escreveu um livro que tem um título muito curioso: “Pelo buraco de uma agulha”.
Porque é aquilo do Evangelho de que antes entre um camelo pelo buraco de uma
agulha que entre um rico no Reino de Deus.
Esse historiador demonstra como desde finais do século IV,
todo o século V e até começos do século VI, se produziu um fenómeno
surpreendente: a entrada em avalanche da gente mais rica e poderoso na Igreja.
A coisa chegou até o extremo de haver muitos casos de bispos nomeados sem
estarem sequer batizados. O caso mais conhecido é o do que foi bispo de Milão,
Santo Ambrósio. Era catecúmeno, e de catecúmeno o consagraram bispo porque
viram que era o único que podia governar uma Igreja ingovernável pelos
problemas que tinha. Isso repetiu-se na Gália e também na Hispânia Romana.
Difundiu-se.
Essa entrada massiva de gente rica e poderosa na Igreja deu
um giro completamente novo, se mantinha o Evangelho, mas não se vivia. E aqui
quero insistir numa questão que me parece capital: o Evangelho não é uma
teoria, é uma forma de viver. E está presente na medida em que se vive. Se não
é assim, teremos uma ou muitas teorias, inclusive há bastante ditos evangélicos
que converteram em ditos populares, porém uma coisa é dizê-lo e outra vive-los.
E este é o grande problema da Igreja: que temos uma instituição
bem organizada, bem administrada e bem estruturada, mas igualmente alheia e
distante do Evangelho. Ainda que haja pessoas, movimentos e grupos que o vivem,
que se esforçam em vive-lo. A mim me ocorre o tempo de Paulo VI, estando em
Roma, no domingo de Páscoa de Ressurreição, em que fui à Praça de São Pedro, à
missa do papa. Fiquei ali dez minutos. Quando vi o espetáculo, impressionante,
eu pensava: e tudo isso, que tem a ver com aquele de Jesus que nasceu em um
presépio e morreu condenado como um delinquente?
Os pontífices são possuidores de pontes, não destrutores de
comunhão e, claro, é complicado. É muito difícil o trabalho que tem pela frente
Francisco.
É uma coisa extremamente complicada, e delicada: ser bom,
mas ao mesmo tempo ser firme e coerente com todos. Harmonizar essas duas coisas
é um auténtico milagre.
Faltarão anos e anos para que isso possa ir adiante.
Porém há coisas que não quero calar e aproveito esse
momento:
Primeiro, já lhe disse, que o das famílias seria fundamental
organizá-lo porque é uma lástima; no final de contas são milhares de pessoas os
que ainda vão à missa. Poucas instituições tem tanta gente assegurada todos os
domingos.
Outra coisa importante seria admitir homens casados como
sacerdotes. Ainda mais quando se sabe com segurança que foi uma tradição que se
introduziu no século IV ou V.
E em terceiro lugar, o problema da mulher: porque não se
permite que as mulheres possam ser sacerdotes? Aqui há uma questão maior de
fundo: como com tanta frequência se confunde um fenómeno sociológico, cultural
e histórico com um facto teológico?
Naturalmente, a mulher nas culturas antigas estava
marginalizada. E ainda vivemos resquícios disso. Porém se nos convencemos de
algo, e a cada dia o vejo mais claro, é que uma sociedade que põe a mulher à
margem não pode ir a nenhuma parte. E a Igreja tem de abordar esse fenómeno o
quanto antes: a mulher tem os mesmos direitos que o homem, e também na
teologia. E mais, lendo e relendo, estudando os evangelhos, uma das coisas que
mais chamam a atenção é o cuidado requintado de proteção, de respeito e de
defesa que teve Jesus com as mulheres, sempre. Fossem judias ou de outras
origens, e tivessem a conduta que tivessem. Jesus sempre as defendeu. Pois
então vamos defende-las.
E o último que quero dizer é que eu não tenho boca, nem
palavras, nem encontro argumentos para ponderar e agradecer ao Papa Francisco o
facto de que ele mesmo telefonara para minha casa, e que organizaria para que
possamos nos ver e ter uma entrevista. Eu lhe disse:
- Olha, padre Francisco, você e eu somos dois jesuítas sem
papeis, o mesmo que Diez Alegria, só que ele se saiu por cima e eu me sai por
baixo.
E ele se ria. Depois lhe presenteei dois livros e me disse:
- Siga escrevendo. Não deixe de fazê-lo porque com isso faz
bem ao povo.
Isso me fez mais bem que todos os pregadores, diretores
espirituais, confessores, etc. que tive na minha vida.

Comentários
Enviar um comentário