Sínodo da Amazónia: «Para falar de ministérios teríamos de nos despir dos modelos que nós temos, fechados nos sacramentos»

O Sínodo da Amazónia é considerado pela irmã Guaracema Tupinambá (na foto) como «o modo da Igreja ouvir a voz dos povos da região, os povos nativos, as populações mais vulneráveis». Mas, além de isso, o mais importante é desenvolver uma metodologia que leve a escutar de verdade, a «ouvir com o coração… e ouvir os clamores do povo».

Ela é a superiora provincial das Cónegas de Santo Agostinho. Reconhece que na Amazónia a Igreja encontra uma «vida ameaçada em todos os sentidos». O domínio do «mercado que transforma tudo em mercadoria e em dinheiro, sem dar oportunidade para que aquelas populações consigam viver à sua maneira, com os seus valores, as suas culturas, as suas místicas, a sua religiosidade, com o seu modo de ser», é nos dias de hoje um dos grandes perigos que enfrenta a região, o que tem como consequência a «violação do direito à vida».

Nesse sentido, a religiosa reconhece que os povos amazónicos têm sido forçados a assumir «outra dinâmica de vida», o que faz com que «as pessoas vão transformando o seu querer, o seu viver, as suas expectativas, os seus desejos, até o ponto de dar «valor a outras coisas», pois esse é «a única maneira que encontram de conviver, de ter uma possibilidade de sobrevivência dentro dessa roda-viva do capital».

Como indígena nascida na Amazónia e que tem trabalhado pastoralmente na região ao longo de muitos anos, quando ela reflete sobre os ministérios reconhece que não se trata de levar ministérios às comunidades, e sim «de uma permuta muito respeitosa e essa troca é um processo muito lento de reflexão e de abertura de todas as partes. Torna-se necessário, segundo a religiosa, «despir-nos dos modelos que temos», aprender com experiências que tem promovido uma convivência baseadas no respeito e na vontade de aprender uns com os outros. Também de chegar a todos, especialmente às "ovelhas" que «estão à margem do rebanho, que não foram incluídas no rebanho».

A entrevista é de Luis Miguel Modino, publicada por CEB Brasil

Nasceu na Amazónia e tem trabalhado muito tempo na região. Desde essa perspectiva, o que significa o Sínodo da Amazónia?
Eu não tenho muitas expectativas em relação a isso, mas eu creio que é o modo da Igreja ouvir a voz dos povos da região, os povos nativos, as populações mais vulneráveis, fazer esse eco ressoar de um modo mais largo, ter mais abrangência desse eco. Eu penso que é muito simples.

Pensa que podem concretizar-se esses novos caminhos que a temática do Sínodo quer fazer realidade ou pode ficar numa coisa mais teórica?
Eu penso que depende muito da metodologia e das escuta que vai fazer-se. Se as escutas não forem elaboradas de outras formas, se não forem filtradas, se não forem interpretadas dentro de um padrão que é o padrão que a Igreja institucional quer ouvir, isso pode se transformar em novos caminhos, em novos horizontes para essas populações e para todas as pessoas que vivem aqui e são solidárias com essas populações. Se a gente, de facto, tiver a disposição de ouvir da maneira que é dito, do modo que se expressa e ouvir com o coração.

Mas a Igreja está preparada para escutar e acolher aquilo que o povo diz, do modo que o povo se expressa?
Eu tenho dificuldade para falar da Igreja, pois eu penso que nós temos a Igreja institucional, hierárquica e temos uma Igreja que é o Povo de Deus em marcha, a caminho, que marcha em diferentes ritmos, às vezes em diferentes rumos. Se falamos da Igreja institucional, hierárquica, eu acredito que há uma parte que está preparada e há uma parte que não quer ouvir.

Agora, a Igreja Povo de Deus a caminho que é solidária, que segue o Evangelho de Jesus Cristo, que busca os seus caminhos nos dias de hoje, aí eu creio que é uma necessidade dos tempos de hoje a Igreja, nós como Igreja, nos fazermos ouvir e escutr os clamores do povo.

E quais são esses clamores do povo na Amazónia?
Vida ameaçada em todos os sentidos. Pela sua cultura, sendo devastada, pelo mercado que transforma tudo em mercadoria e em dinheiro, sem dar oportunidade para que aquelas populações consigam viver à sua maneira, com os seus valores, as suas culturas, as suas místicas, a sua religiosidade, com o seu modo de ser.

A principal violação é a violação do direito à vida e vida em abundância, que significa cortar as suas árvores, tudo para transformar em dinheiro, envenenar os seus rios, acabar com as matas, com a terra, acabar com a possibilidade de viver num espaço que é um espaço mais largo do que uma moradia apertada numa periferia de uma grande cidade.

Infelizmente, esse pensamento também está a penetrar na vida dos povos da Amazónia, que perderam valores tradicionalmente conservados e hoje assumiram valores do mundo capitalista ocidental. O que deveria ser feito por parte da Igreja, da vida religiosa, para que o povo possa retomar esses valores tradicionais e entender que isso é semente de vida plena?
Eu não diria que o povo perdeu, acho que lhes foi tirado essas possibilidades de ter uma outra dinâmica de vida, e isso vai entrando de uma forma muito subtil e as pessoas vão transformando o seu querer, o seu viver, as suas expectativas, os seus desejos, que não são seus, que são impostos por um modelo de exploração, de arrancar todas riquezas, de transformar todos num padrão mundial de consumo.

Eu acredito que essas populações que estão a valorizar outras coisas não é nada mais do que o único modo que elas encontram de conviver, de ter uma possibilidade de sobrevivência dentro dessa roda-viva do capital.

Uma das grandes discussões que começa a surgir em torno do Sínodo é o tema dos ministérios, com um apelo para que esses ministérios sejam assumidos pelas populações locais, homens e mulheres. Pensa que pode-se chegar realmente a esse ponto?
Primeiro, teríamos de refletir, discutir sobre os conceitos de ministérios. Se nós entendemos ministério como serviço da vida, serviço para a vida, nós compreenderemos que não é no sentido de levar os ministérios ou de reinterpreta-los, mas é no sentido de compreender quais são os ministérios existentes nessas populações e como nós podemos partilhar com eles os nossos ministérios e acolher deles os ministérios que existem entre eles.

Esse ministério padrão que a Igreja tem, eu acho muito complicado a gente ter uma resposta simples para achar que a gente vai encontrar de imediato alguns caminhos. Não significa apenas ordenar pessoas ou formar pessoas, porque nós temos que discutir que formação é essa, e formação para quê.

Quando vamos a uma comunidade indígena que tem o pajé, que tem o pulaka, que tem os seus ministros de diversas formas, questionamo-nos  o que é que nós temos de levar aos nossos ministérios, aos ministérios que nós aprendemos com a Igreja ocidental.

Então, eu acredito que há uma necessidade de uma permuta muito respeitosa e essa troca é um processo muito lento de reflexão e de abertura de todas as partes. Eu acredito que é possível se fazer um diálogo e caminhar, mas não existe uma receita pronta para isso.

Nesse sentido, existem experiências de presença, sobretudo por parte da vida religiosa, no meio dos povos indígenas com base nesse respeito, a presença das irmãzinhas com os tapirapé, os missionários da consolata em Roraima. Porquê isso ainda não é uma realidade mais assumida, porquê essa presença que acompanha e que junto descobre uma nova espiritualidade, onde tem elementos indígenas e elementos cristãos, porquê essas experiências ainda não são valorizadas e muitas vezes é olhada como uma coisa exótica?
Penso que é uma questão de poder, o que está em jogo é um poder de dominar, de quantos batizados são feitos, quantos casamentos, quantos sacramentos ministrados. Essa é uma visão - em contraponto a outra, que é a visão ministerial do serviço -, em que essas pessoas que podem ser consideradas por uma parte da Igreja, tanto leigos como clérigos, como fracassos. Eu acredito que essas presenças e experiências são as grandes novidades da presença de Jesus Cristo no meio deles, que faz com que a gente se encontre de coração a coração, todos pela mesma causa, pois a causa de Jesus era dar vida e vida em abundância a todos.

Então, acredito que essa é uma outra forma ministerial, mas nós teríamos que nos despir dos modelos que nós temos, fechados nos sacramentos. Refletir o que é que é sacramento, o que é que é litúrgico. Tudo isso está em discussão, há uma discussão, eu acho que muito rica, e as experiências existem, elas estão relatadas, elas estão registadas, de experiências que dão certo de respeito às populações autóctones. Eu creio que há necessidade de uma abertura. Eu conheci Dom Aldo e Dom Aldo foi um bispo que viveu em Roraima tantos anos e que disse "nunca batizei um índio".

Junto com isso, temos outro facto, que é essa visão numérica, capitalista, da Igreja, que muitas vezes impossibilita uma maior presença em comunidades mais distantes, onde se demora muito tempo a chegar e tem de se investir muitos meios para estar lá, e que a justificação muitas vezes é que não vale a pena gastar tanto dinheiro e esforço para chegar a uma comunidade onde se “recolhem” poucos frutos. Como mudar essa mentalidade?
Eu não sei como mudar a mentalidade, o que sei é que procuramos ser o mais fiel possível, com todas as nossas infidelidades, ao Evangelho de Jesus, que é ir aonde estão as ovelhas "desgarradas", e as ovelhas "desgarradas" não são aquelas que saíram do rebanho, são aquelas que estão à margem do rebanho, que não foram incluídas no rebanho. E aí a visão numérica, capitalista, não pode contar, é contra o Evangelho, não dá para conciliar, eu não acredito que a gente possa fazer um acordo com isso.

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