Os leitores conhecem com certeza um poeta chamado António Aleixo. Agora mesmo estou a recordar-me de uma quadra sua:
«E assim, lição por lição,
Apesar de não saber ler nem escrever, António Aleixo possuía
o extraordinário dom de jogar com as palavras, tirando desse jogo admiráveis
efeitos. Na citada quadra, o poeta veste a pele dos alunos que andam na escola
e cujo sonho é virem a ser professores. Estão agora a receber de outros (os
professores) aqueles ensinamentos que eles hão de dar a outros (os alunos), que
por sua vez, hão de transmitir a outros, quando forem professores...
Claro que, para isso, terão de trabalhar muito. Saber não
cai do céu aos trambolhões. (Estou a dizer isto àquelas pessoas que julgam ser muito fácil a vida dos
estudantes. Ainda há dias assisti a uma conversa entre dois amigos que já não
se viam há muito tempo. «Então – perguntava um – o que é que o teu rapaz faz
agora?» «O meu rapaz estuda e o teu?» «O meu, o meu já trabalha»...
É verdade, é. Para muita gente, passar horas e horas
debruçado sobre os livros, fixar toda a atenção na lição do professor para não
perder uma só palavra, gastar o serão à procura da solução de um problema ou
investigar onde melhor pode colher as noções indispensáveis não é trabalhar!
Mas é. E duro.
S. Paulo, na Segunda Epístola aos Tessalionenses, capítulo
3, versículo 10, é terrivelmente claro: «Quem não trabalha não tem direito a
comer.» O nosso povo diz o mesmo de forma mais pitoresca: «Quem não trabuca não
manduca.» Em verdade vos digo que os estudantes dignos desse nome podem
manducar à vontade porque trabucaram muito. Esses, sem o saberem, estão
cumprindo o preceito de S. Paulo.
Claro que quem trabalha precisa de descansar, de restaurar
as forças. Para isso se fizeram as férias.
A palavra «férias» vem do latim «feria» que significa feira.
Entre os romanos, era o dia em que se prescrevia a cessação do trabalho.
Talvez, digo eu, para que as pessoas estivessem livres para feirar. Hoje,
quando se diz que os alunos têm férias, isso não significa que vão às feiras. Claro
que podem ir, se quiserem, mas a palavra já tomou um significado mais amplo.
Férias são o tempo de repouso. A tarefa está cumprida, agora merecemos um
bocadinho de liberdade...
Bom. O que sucede é que um rapaz ou uma rapariga não vão
passar dois meses de papo para o ar. Depois é muito vaga a noção de descanso.
Há pessoas que, para descansarem de uma semana de trabalho intenso, vão fazer
campismo, por montes e vales, com uma pesada mochila às costas. Fiquemo-nos com
esta sugestão: descansar é mudar de actividade...
Logo, o que eu proponho é que os meus leitores programem o
seu descanso nas férias, ou seja, o seu «trabalho» nas férias.
Façam como
este menino que...
Perguntou o repórter ao arquólogo que servia de guia a quem se devia o achamento daquele tesouro: «Numa pequena aldeia de Trás-os-Montes foram descobertos novos sinais de muita antiguidade. Eram riscos figurando animais, e outros de significação ainda desconhecida, feitos nos penedos das encostas mais resguardadas, longe dos caminhos de pé-posto
E o arquólogo explicou como tudo se passara:
«Um grupo de crianças costuma passar as férias na região e,
no ano passado, programaram uma tarefa de reconhecimento das riquezas ou
singularidades da fauna, da flora e do solo do espaço em volta. Saíram dos
caminhos já trilhados, meteram-se pela serra dentro. Andaram, andaram, até que
um deles reparou naqueles riscos. Havia mais e mais, à medida que ele,
cuidadosamente, limpava as ervas do rochedo. Acompanhara, pela televisão tudo o
que se passara em Foz Côa e pensou que talvez ali houvesse algo parecido. No
dia seguinte, logo deu parte ao Centro de Arqueologia. As suas previsões foram
confirmadas. Havia ali mesmo um tesouro...»
Aqui está a minha sugestão: planifiquem as férias. Façam
como estes meninos de Trás-os-Montes. Este país está cheio de tesouros
escondidos...
Mário Castrim, jornalista, escritor e crítico televisivo,
em AUDÁCIA
em AUDÁCIA

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