Cheguei a casa do Alberto por acaso um quarto de hora antes do combinado.
Por acaso, ele saíra, para comprar o jornal.
Por acaso, na sala onde eu me encontrava havia um televisor.
Como, por acaso, eu não tinha nada para fazer, coisa que, por acaso, raramente me acontece, abri o televisor.
Por acaso exactamente no momento em que Tó Romano contava que...
Um momento, por favor. Reparem, apenas num parágrafo, empreguei seis vezes a expressão adverbial «por acaso», o que por acaso não é nada normal.
Que vem a ser isto do acaso?
O dicionário diz que se trata de um conjunto de factos aparentemente não ligados a uma causa, a um propósito.
Há séculos, o filósofo Aristóteles, a propósito da riqueza do acaso, lembrava que ninguém sabe quantas surpresas podem acontecer durante o tempo em que se levanta a taça e a levamos à boca. Verdade. A mim, o que geralmente mais me acontece é entornar o champanhe.
Anatole France, por exemplo, dizia que «é preciso contar com o acaso. O acaso afinal, não é outra coisa senão a mão de Deus». Como o grande escritor Anatole France era ateu, ignoro que sentido ele dava a este Deus.
Outro filósofo, Pailleron, escreveu que «o acaso é Deus anónimo».
Pessoalmente, não me quero envolver nesta discussão, mas, para já, não acho bem que se estabeleça esta relação entre Deus e o acaso. Acho mesmo (acho, não, foi Ele próprio que mo disse) que Deus não gostaria de ver o seu nome ligado a certos acasos.
Vamos aprender um bocadinho. Estejam com atenção que a lição vai começar...
A palavra «acaso» vem do latim a casu, que já significava «acidental»
O «hasard» francês e o castelhano «azar» provêm do árabe az-zaHar, que significa «flor». Como é que, de flor, se chega ao acaso? Porque nos dados que ditam a sorte (o acaso...) se pintava uma flor. Ficamos agora a compreender porque a estes jogos se chama «jogos de azar». Na nossa língua, como se vê, a palavra tomou outro sentido. Sinceramente, pá, ninguém entende estas palavras...
Os acasos da vida
Estava a contar de como cheguei a casa do Alberto e me pus a ver televisão e logo, por acaso, caí naquele programa onde Tó Romano falava da sua experiência. Mas, perguntais vós, quem é o Tó Romano? Dirige uma grande agência de modelos, sabem, aquelas jovens que levam os vestidos nas «passerelles».
Mas não estava a falar de modas, nem de vestidos, nem de modelos. Estava a contar que, uma vez, andava a passear a cavalo, a melhor maneira de preencher os tempos livres. Vai por esses campos, respira o ar puro, sente uma grande paz em plena natureza, a paz que lhe é tão preciosa para compensar a agitação, a preocupação, o «stress» do seu trabalho.
Ora um dia aconteceu que ao cavalo lhe passou uma coisa pela vista, pôs-se a galopar doidamente, ele desequilibrou-se, caiu, enquanto a sua montada se perdeu ao longe. Voltou a pé. E subitamente viu-se precisamente diante do portão da CASA DO GAIATO, instituição criada pelo Padre Américo e se destina a recolher as crianças pobres, abandonadas ou as chamadas «crianças problemáticas». Entrou, falou com os responsáveis, com as crianças. E algo aconteceu nele que não sabe explicar. Perguntava-se: porquê? Porquê ao cavalo lhe deu o amok e o deixou mesmo à porta da CASA DO GAIATO? Um acaso, sem dúvida. Mas qual o significado profundo desse acaso?
Tó Romano passou a ser um amigo da casa, a colaborar com eles. Sempre disponível quando o chamam. Indisfarçável a ternura quando fala daquelas crianças, da sua luta para sobreviver com dignidade.
Aquele encontro foi um acaso? Sim, sim. Nada o fazia prever. E agora? Agora o quê? Não, não vou discutir, mas acho que, quando bem usado, o acaso pode ser um bom instrumento de trabalho, um bom tijolo para a construção da casa.
Mário Castrim, jornalista, escritor e crítico televisivo, em AUDÁCIA

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