Quando a recitação de uma Avé-Maria foi a revelação de uma grande atriz..., graças à bondade de um vulto do teatro


O Centro de Dia da Paróquia das Mercês (do patriarcado de Lisboa) apresentou uma peça interpretada por seis dos paroquianos de idade mais avançada. Os atores eram simultaneamente autores, isto é, cada qual relataria uma cena da sua vida que, por qualquer razão, mais tivesse ficado gravada na memória. Eu gostaria de contar aqui tudo o que eles e elas representaram, mas limito-me a contar a história vivida por uma senhora, neta de D. João da Câmara.

D. João da Câmara (1852-1908) é um dos grandes nomes do teatro português de todos os tempos. Uma peça de sua autoria podemos dizer que está na base do teatro realista moderno. Chama-se Os Velhos. Foi estreada no Teatro Nacional em 1893.

Em Os Velhos, tudo se passa numa aldeia alentejana, com a sua vida calma, o quotidiano sem sobressaltos. Mas o comboio vem aí, vêm aí as reacções à transformação que o progresso vai provocar. Quase não há história. Tudo se passa com uma linguagem simples, natural, às vezes mais ciciada do que falada e, atravessando todo o livro, uma extensa linha de ternura, de humanidade, de cumplicidade com os mais simples, os mais pobres, os mais velhos.

O próprio D. João da Câmara era a simplicidade, a humanidade, a solidariedade em pessoa.

Conta-se que, certa ocasião, D. João da Câmara e um amigo andavam, à noite, a passear por Lisboa e viram-se envolvidos numa grande confusão. Veio a polícia e lá vão os dois amigos para o xelindró. Alta madrugada, alertado para o sucedido, um general influente entra em acção e comunica com a esquadra. «Quem é aqui o D. João da Câmara?», pergunta o agente de serviço. E D. João da Câmara, numa voz tímida: «Somos nós dois...»

A neta do grande escritor vive, no teatro da paróquia das Mercês, uma cena em que entra o grande escritor.

Fazia ele parte do júri dos exames de admissão ao Conservatório do Teatro. A invasão do cinema ainda vinha longe, o teatro vivia-se intensamente, os actores e as actrizes eram autênticas estrelas.

Para se fazer uma ideia, repare-se que o Diário de Notícias trazia publicidade ao teatro na primeira página! Não admira, pois, que esses exames apresentassem grandes dificuldades, que só os muito dotados conseguiam ultrapassar.

Naquele ano apresentou-se a exame uma menina frágil, tímida, uma autêntica flor de estufa. Apesar da sua extrema simplicidade, parecia ter uma grande determinação, que, muitas vezes, não passa de ignorância da complexidade das situações. Estabelece-se entre a menina e D. João da Câmara um diálogo patético.
- Diga a fala de D. Inês...
- Não sei...
- Não faz mal. Diga a fala de D. Constância na altura em que...
- Não conheço...
- Conhece por certo alguma parte do teatro grego...
- Não senhor, não conheço...

Os outros membros do júri começam a impacientar-se. Que história vem a ser aquela? Está a brincar com eles, ou quê?

D. João não perde a calma.
- Bem, minha filha, diga-nos alguma coisa que saiba de cor...
- Eu não sei nada de cor...
- Bem, minha filha, diga a ave-maria!

Sorriste, leitor? Também eu. Sorrimos perante este espectáculo de bondade, este imenso desejo de ajudar alguém, de evitar aquele fracasso, que, por vezes, marca uma vida. Eis todo um carácter, todo um homem, toda uma alma. Eis como era o grande D. João da Câmara.

Resta-me acrescentar que aquela menina veio a ser a famosa actriz Maria Matos! Ver A grande actriz Maria Matos

Mário Castrim, jornalista, escritor e crítico televisivo,

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