Os tiros, os gritos, o sangue, os mortos. Cinquenta ao todo
no bar homossexual que se transformou num cemitério. Um dia depois do massacre
de Orlando, em 2016, poucos bispos dos EUA expressaram as condolências, menos
ainda foram aqueles que fizeram referência explícita para a comunidade LGBT
(lésbica, gay, bissexual e transexual), atingida à morte pelo ISIS.
Aquele silêncio ensurdecedor tirou do padre James Martin,
57 anos, jesuíta, um dos mais apreciados de ‘América’, as últimas dúvidas sobre
o facto de que, entre a Igreja e a galáxia homossexual exista um abismo. Nós
aqui e eles ali.
Disso surgiu a urgência de encurtar as distâncias e
incentivar o diálogo, de "Costruire un ponte” (Construir uma ponte,
Marcianum press, 114 páginas, 15 euros), para usar o título do último livro de
Padre Martin. Uma ponte de mão dupla (da hierarquia católica para os
homossexuais: destes últimos para o papa, os bispos, os sacerdotes e os
diáconos) que repousa sobre três pilares essenciais: respeito, compaixão e
sensibilidade, exigidos tanto por uma parte como pela outra. No fundo, nada
além do que o Catecismo exige dos fiéis em relação aos homossexuais, não
obstante o juízo negativo da Igreja sobre a condição homossexual e,
principalmente, sobre as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo (número
2358).
O livro do jesuíta – que não contesta a doutrina da Igreja
sobre a homossexualidade, nem endossa o casamento homoafetivo – foi apreciado,
entre outros, pelo prefeito do Dicastério do Vaticano para os Leigos, a Família
e Vida, o cardeal Kevin Farrell, e por alguns bispos norte-americanos como o
redentorista Joseph Tobin, que no ano passado quis encontrar na catedral de
Newark (a diocese do cardeal) alguns crentes homossexuais. Ao mesmo tempo, também
surgiram críticas de setores eclesiais mais conservadores. A mais contundente
foi do arcebispo da Filadélfia, Charles Chaput, que em julho passado, perto do
lançamento da primeira edição do livro, criticou a abordagem de Martin à
galáxia LGBT, considerada demasiado condescendente: "Jesus não veio para
nos confirmar em nossos pecados e comportamento destrutivo, sejam quais forem,
mas para nos redimir”.
Na Itália o prefácio de 'Construir uma ponte' ficou a cargo
do arcebispo de Bolonha, Matteo Zuppi. Quanto aos ensinamentos do Catecismo
sobre gays e lésbicas, o prelado escreve: «Não foram seguidos por uma prática
pastoral adequada que não se limite apenas à aplicação fria das indicações
doutrinárias, mas torne estas últimas um itinerário de acompanhamento». É o que
tenta traçar no seu livro o padre Martin, nomeado pelo Papa Francisco consultor
do Dicastério vaticano da comunicação.
Entrevista de Giovanni Panettiere, publicada por
Quotidiano.net, ao padre Martin para acerca da intrincada relação entre fé cristã
e homossexualidade.
Construir uma ponte entre a Igreja e a comunidade LGBT:
porquê para o senhor essa é uma prioridade pastoral?
Homossexuais, bissexuais e trans são o grupo mais
marginalizado na Igreja hoje. Muitos deles foram insultados ou excluídos por
padres e outros agentes pastorais. Eu acredito que nós cristãos temos uma
responsabilidade especial de fazer com que essas pessoas se sintam acolhidas.
Elas são batizadas assim como o papa, seu bispo ou eu mesmo. Eles devem se
sentir bem-vindos na sua comunidade eclesial.
Muitos católicos não pretendem acolher aqueles que vivem
essa condição, porque pensam que a Igreja está a legitimar o pecado: é possível
entendê-los?
O problema com essa maneira de pensar é que as pessoas LGBT
são reduzidas a questões de moral sexual, quando suas vidas são muito mais
complexas. Não são apenas seres sexuais.
O que responde àqueles que rejeitam a homossexualidade em
nome da Bíblia?
É importante não ignorar aquelas passagens específicas
presentes no texto, mas devem ser enquadradas no seu contexto histórico, assim
como é feito para os outros versículos. Por exemplo, muitos justificam as
restrições contra a homossexualidade no ‘Levítico’ e, em seguida, ignoram as
outras proibições e outras permissões do mesmo livro, como manter escravos ou
comer carne de porco. Da mesma forma para as 'Epístolas de Paulo' devemos
lembrar que a maneira de entender a homossexualidade no século i depois de
Cristo é diferente daquela de hoje.
O Catecismo considera a homossexualidade
"objetivamente desordenada". Pensa que esse princípio da fé fira os
homossexuais?
Muitas pessoas LGBT, se não mais, me dizem que tais
palavras são profundamente dolorosas para eles. Certa vez, a mãe de um
homossexual me disse: ‘As pessoas percebem o que uma linguagem semelhante pode
acarretar para um garoto de quatorze anos homossexual? Pode destruí-lo’. A
Igreja não deveria ouvir aquela mãe?.
No seu livro, o senhor pede a gays, lésbicas, bissexuais e transgéneros
católicos para respeitar, ter compaixão e serem sensíveis com os bispos, padres
e diáconos: não lhe parece que isso seja um compromisso enorme para qualquer um
que tenha sofrido ou continue a sofrer formas de marginalização em sua própria
experiência de vida cristã?
Sei que pode ser difícil para os crentes LGBT, porque até
agora eles têm sido muito magoados pela Igreja-instituição. No entanto, para o
diálogo, essa atitude é importante. Primeiro, porque essa é a maneira cristã de
abordar outras pessoas; segundo, as pessoas estão mais abertas à conversa, se
forem tratadas com respeito. Finalmente, é a forma mais prática para trabalhar
com padres e bispos que, em minha experiência, tive oportunidade de constatar
que respondem mais facilmente a quem dialoga com respeito do que com aqueles que
apresentam protestos enraivecidos.
Vários crentes homossexuais dizem que, para eles, com o
Papa Francisco, no final das contas, nada mudou ...
Eu não concordo totalmente. Foi ele quem disse ‘se uma
pessoa é homossexual e procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para
julgá-la?’. Além disso, durante a sua viagem aos Estados Unidos, ele recebeu o seu
amigo Yayo Grassi e seu parceiro. Ele também se reuniu com Juan Carlos Cruz, um
homossexual vítima de abusos no Chile, e reconheceu que Deus ‘o fez assim’. Não
só isso, foi o primeiro papa a usar a palavra ‘gay’. Com ele, o tom e atitude
da Igreja sobre o assunto mudaram.
Bergoglio é a mesmo que confirmou a recusa de acesso ao
seminário para aqueles com "tendências homossexuais profundamente
arraigadas". O que você pensa sobre isso?
Nos EUA, bispos e superiores religiosos interpretam essa
proibição de maneira diferente. Há quem afirme que nenhum homossexual deveria
ser ordenado sacerdote; há quem limite a proibição aos homossexuais para quem a
sua condição sexual é central; e, finalmente, há aqueles que não admitem no
seminário apenas os homossexuais incapazes de permanecer celibatários. Eu
conheço algumas centenas, senão milhares de padres homossexuais, bons e
preparados, que vivem serenamente o celibato.
Na sua opinião como deveria se posicionar a Igreja em
relação às famílias arco-íris, ou seja, para aqueles casais do mesmo sexo que
têm filhos?
Como todas as famílias, os párocos também devem fazer com
que se sintam bem-vindas na Igreja que, afinal, é o lar delas. Especialmente
quando há crianças envolvidas, devemos ser acolhedores. Podemos ter problemas
com o casamento homossexual, mas nunca devemos punir os pequenos ou mantê-los
longe dos sacramentos. Se excluíssemos todas as famílias que não estão 'em
ordem' aos olhos da Igreja, então deveríamos expulsar muitas outras, não apenas
aquelas arco-íris. Jesus chama todos à sua mesa e nós somos chamados a fazer o
mesmo.

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