Com a força das mulheres, a Igreja pode superar o clericalismo


Em entrevista a Nicolas Senèze, de La Croix International, a historiadora Lucetta Scaraffia, membro do Comité Italiano de Bioética e professora da Universidade de Roma La Sapienza, acredita que o clericalismo – que começou com o surgimento do celibato sacerdotal – está agora sob o desafio da secularização, que acabou com a autoridade social dos sacerdotes.

Qual é a compreensão do Papa Francisco sobre o ‘clericalismo’?
O clericalismo refere-se aos poderes e autoridade de padres sobre os fiéis e ao estado de sujeição dos fiéis em relação aos padres.
Mais do que qualquer outra coisa, envolve uma atmosfera em que os fiéis estão ligados à obediência e respeito pelos padres. Historicamente, o celibato desempenhou um papel muito significativo no desenvolvimento deste respeito.
De facto, há um aspeto misterioso nisso, pois significa dar prestígio a homens que parecem existir fora das alegrias e dificuldades da vida familiar.
Para se dedicar ao estudo e à oração, estes homens se colocam à distância dos problemas mundanos que os afastariam de Deus.

Como é que o celibato separa os homens dos padres?
Houve debates intensos sobre o celibato sacerdotal no início do século VII. Naquela época, os conselhos de bispos concluíram que poderia ser perigoso impor isso. porque poucos homens eram capazes de vivê-lo.
No entanto, além de razões baseadas no medo da sexualidade, também havia razões económicas para a imposição do celibato. Sacerdotes com famílias enfrentam a tentação de querer passar a propriedade da Igreja para os seus filhos. Dessa forma, torna-se difícil distinguir a propriedade da Igreja da dos sacerdotes, levando ao risco de dissipar os bens da Igreja.
Assim, a fim de preservar a independência da Igreja, a Reforma Gregoriana impôs o celibato aos padres. No entanto, isso nem sempre foi bem sucedido e nas áreas rurais muitos padres continuaram a ter famílias. Quando foram denunciados, os bispos, muitos dos quais raramente visitavam as suas dioceses, às vezes se contentavam em aceitar dinheiro como preço do seu silêncio. Isso aconteceu muitas vezes na Alemanha e explica por que desde o início Lutero protestou fortemente contra esse tipo de corrupção.
Foi preciso esperar do Concílio de Trento uma genuína política de “tolerância zero” a ser imposta neste campo, resultando em visitas mais frequentes de bispos às suas dioceses.
A partir de então o estado clerical definiu-se pela sua diferença em relação a outros fiéis.
Essa foi a chave para a clericalização da sociedade católica.
Era como se, em troca do celibato, o clero tivesse ganho autoridade sobre os fiéis.

Quais foram as causas para este modelo implodir?
A secularização da sociedade desafiava a autoridade do clero. Quando a Igreja se tornou marginalizada, os padres continuaram a exercer autoridade sobre os que a frequentavam – que eram principalmente mulheres durante o século XIX. A secularização acompanhou, assim, a feminização da Igreja.
De facto, era mais fácil impor essa autoridade às mulheres, que tinham menos instrução
e já estavam mais acostumadas a viver em famílias sob a autoridade dos homens. Ainda hoje encontramos mulheres que ajudam padres e aceitam posições de inferioridade em relação aos sacerdotes. Estas são muitas vezes mulheres idosas, uma vez que as mulheres jovens já não aceitam isso. Marcel Gauchet acredita que o declínio do patriarcado levará ao declínio da Igreja, porque na sua opinião, ela é baseada no patriarcado.
O abuso sexual ilustra a fraqueza do clero. Pessoas vulneráveis, incluindo mulheres e crianças, em primeiro lugar, são as únicas sobre as quais é possível exercer autoridade e abusos.

A Igreja pode superar o clericalismo?
Sim, mas apenas se todas as questões forem discutidas com leigos e com mulheres em particular, incluindo questões sexuais. A Igreja nunca quis enfrentar a revolução sexual, exceto num nível teológico – nunca nos níveis histórico ou existencial. Lamento que a teologia do corpo muitas vezes ignore a realidade humana, especialmente a sexualidade das mulheres.

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