Também hoje há «comunidades surda-mudas que escutam pouco o Evangelho e o comunicam mal» - comentário ao Evangelho do 23.º Domingo Comum
«A medicina é importante, mas o que mais consola um doente é a proximidade do amigo que, livremente, decide participar de sua dor» (Frei Luiz Sebastião, ofm).
A cura de um surdo-mudo na região pagã de Sídon está narrada por S. Marcos com uma intenção claramente pedagógica:
É um doente muito especial.
Não ouve
nem fala.
Vive encerrado em si mesmo, sem comunicar com ninguém.
Não sabe que Jesus está a passar próximo dele.
São outros os que o levam até ao Profeta.
Também a actuação de Jesus é especial:
Não impõe as Suas mãos sobre ele como lhe pediram,
mas leva-o para um lugar afastado das pessoas.
Ali trabalha intensamente, primeiro os seus ouvidos
e depois a sua língua.
Quer que o doente sinta o seu contacto de cura.
Apenas um encontro profundo com Jesus poderá curá-lo de uma surdez tão tenaz.
Ao que parece, não é suficiente todo aquele esforço:
A surdez resiste.
Então Jesus apela ao Pai, fonte de toda a salvação: olhando o céu, suspira e grita ao doente uma só palavra:
Effetá,
que quer dizer, «Abre-te».
Esta é a única palavra que pronuncia Jesus em todo o relato.
Não está dirigida aos ouvidos do surdo, mas ao seu coração.
Sem dúvida, Marcos quer que esta palavra de Jesus ressoe com força nas comunidades cristãs que irão ler o seu relato.
Conhece bem o fácil que é viver surdo à Palavra de Deus.
Também hoje há cristãos que não se abrem à Boa Nova de Jesus
nem falam a ninguém da sua fé.
Comunidades surda-mudas que escutam pouco o Evangelho e o comunicam mal.
Talvez um dos pecados mais graves dos cristãos de hoje seja esta surdez.
Não paramos para escutar o Evangelho de Jesus.
Não vivemos com o coração aberto para acolher as suas palavras. Por isso não sabemos escutar com paciência e compaixão a tantos que sofrem sem receber o carinho nem a atenção de ninguém.
Às vezes poderia dizer-se que a Igreja, nascida de Jesus para anunciar a Sua Boa Nova, vai fazendo o seu próprio caminho, esquecendo, com frequência, da vida concreta das preocupações, medos, trabalhos e esperanças das pessoas.
Se não escutamos bem as Palavras de Jesus, não colocamos palavras de esperança na vida dos que sofrem.
Há algo paradoxal em alguns discursos da Igreja. Dizem-se grandes verdades, mas não tocam o coração das pessoas. Algo disto está a suceder nestes tempos de crise. A sociedade não está à espera de «doutrina religiosa» dos especialistas, mas escuta com atenção uma palavra clarividente, inspirada no Evangelho de Jesus quando é pronunciada por uma Igreja sensível ao sofrimento das vítimas, e que sabe sair instintivamente em defesa convidado todos a estar próximo de quem mais ajuda necessita para viver com dignidade.

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