Entrevista a Pietro Zander, o arqueólogo que conserva o túmulo de S. Pedro e a necrópole do Vaticano
O jornalista Stefano Lorenzetto, do Corriere della Sera, entrevistou Pietro Zander (na foto), o arqueólogo que conserva a necrópole do Vaticano
Tocar com a mão no coração do Cristianismo significa descer oito metros nas entranhas da terra.
O arqueólogo Pietro Zander é responsável pela necrópole, que está localizada no subsolo da Basílica do Vaticano, e, mais abaixo, pelas Grutas, onde milhares de fiéis transitam todos os dias para se ajoelhar nos túmulos dos sucessores de S. Pedro, o pescador da Galileia.
Os ossos do primeiro papa, encontrados há 65 anos, quem vigia é ele, Zander. Também dirige a conservação e restauração do património artístico no imenso canteiro de obras, inaugurado em 18 de abril de 1506 pelo Papa Júlio II.
Aqui as obras nunca são interrompidas.
Quando terminam, já está na hora de recomeçá-las. Para o Jubileu de 2000, refizemos a fachada. Entre 2006 e 2016, os 35 mil metros quadrados da planta externa. Nos últimos dois anos, as duas cúpulas menores, de 30 metros de altura. A partir de 2019, devemos pensar na Cúpula da basílica, de 14 mil toneladas de peso. Sem mencionar o interior.
A basílica ocupa 2,2 hectares de superfície, contém 10 mil metros quadrados de mosaicos, atinge 132 metros de altura. Somente o Baldaquino de Bernini mede tanto quanto um prédio de dez andares.
Vocês devem ser muitos para cuidar de tudo isso.
Não, 120 pessoas, incluindo os arquivistas que têm em custódia dois quilómetros de documentos administrativos, entre os quais os custos das allegrezze, os seis banquetes oferecidos por Michelangelo aos trabalhadores. Em 1 e 2 de novembro de 1549 foram consumidos 50 kg de vitela, 100 de gado, 30 de salsichas, 30 de queijo pecorino e 27 de massa e mais de 460 litros de vinho. Hoje os trabalhadores são 80, também encarregados da necrópole.
E que superfície ocupa esta?
Ao longo de um percurso de 70 metros foram encontrados 22 edifícios, com mil túmulos. Em direção ao obelisco, há pelo menos 350 outros edifícios sepulcrais ainda inviolados.
Porque não são trazidos à luz?
Para chegar ao túmulo de Pedro, foi suficiente abrir o chão das Grutas Vaticanas. Mas, para pesquisar mais para o leste, seria preciso cavar sob a basílica e a praça até 12 metros de profundidade.
Porquê as investigações sobre o túmulo de Pedro começaram apenas em 1941?
Já está confirmado que a antiga basílica, construída pelo imperador Constantino no século IV, se apoiava sobre o túmulo do Príncipe dos Apóstolos. Naquele lugar, Pedro foi crucificado de cabeça para baixo por ordem de Nero. Depois do incêndio de Roma no ano 64, muitos cristãos "julgados culpados de ódio contra o género humano", como relata Tácito, nos Anais «foram devorado por cães, ou foram crucificados e queimados vivos, para que servissem como tochas para iluminar a noite». Portanto, sendo essa terra banhada pelo sangue dos mártires, a cada descoberta arqueológica os papas ordenavam a interrupção das escavações e fechavam tudo como sinal de respeito.
A razão pela qual Pio XII, um homem de tradição, se desviou desse hábito piedoso escapa-me.
Ele tinha sido núncio apostólico em Berlim, então prestava muita atenção ao mundo protestante, que refutava a presença dos restos mortais de Pedro debaixo do altar papal da Confissão. Ele estava procurando a prova e a encontrou. Mas teria sido suficiente considerar que não havia nenhuma razão no mundo para que Constantino construísse uma basílica justamente aqui, entre os pântanos, em solo argiloso, naquele que Tácito em suas Histórias chama de ‘os infames lugares do Vaticano'.
Que provas há de que "a prova" é autêntica?
Várias, começando com a primeira edícula funerária construída sobre o túmulo de Pedro, encostada em um muro pintado de vermelho. Dela fala Eusébio de Cesareia, comentando a resposta dada em 200 dC pelo padre Gaio a Proclo, herege habitante em Hierápolis da Frígia, sobre a presença dos "troféus", ou seja, as sepulturas de Pedro no Vaticano e de Paulo na via Ostiense. Naquele muro vermelho havia um grafite, traçado por um cristão que fora venerar os restos mortais do apóstolo. Hoje é guardado no cofre da Fábrica de São Pedro com o número de inventário 0001.
Descoberta a chave, dir-se-ia pelo número.
É composto por seis letras gregas: ‘Pet eni’. Segundo os estudiosos, a frase completa significava ‘Petros eni’, Pedro está aqui, ou ‘enesti’, está aqui dentro, ou ‘Petros en irene’, Pedro em paz.
Constantino encerrou essa edícula, com o túmulo subjacente, num santuário de três metros de altura. Ao redor, dispostos em forma circular, outros sepulcros a uma distância de respeito, quase para sinalizar a importância do falecido.
No monumento foram erigidos os altares de Gregório Magno e Calisto II e, finalmente, em 1594, o de Clemente VIII, sobre o qual celebra Francisco.
Nunca, ao longo dos séculos, esse ponto central foi modificado. O Papa reside aqui porque é o sucessor de Pedro. O Vaticano existe porque aqui foi martirizado e está enterrado Pedro. Não é Zander que diz isso. É atestado desde o século IV por Eusébio de Cesareia, falando de multidões vindas de toda parte do mundo.
Mas a respeito dos ossos de Pedro nenhuma se chegou a nenhuma certeza.
Em 1953, a epigrafista Margherita Guarducci identificou as relíquias nos restos mortais que Constantino havia embrulhado num pano roxo tramado com fios de ouro. Em 1962, foram examinados pelo professor Venerando Correnti, presidente do Instituto de Antropologia, que os atribuiu a um homem robusto de idade madura. Os resíduos de terra tinham a mesma composição química do túmulo de São Pedro.
São muitos os peregrinos que acedem à necrópole?
Cerca de 62 mil pessoas por ano, em grupos de dez e por não mais que uma hora e meia. O número fechado tornou-se necessário porque cada indivíduo emite calor como uma lâmpada incandescente de 120 watts, fazendo com que diminua a humidade e se altere o microclima. Também cria uma degradação, levando esporos com as solas dos sapatos. Isso explica o uso da iluminação especial germicida para impedir o crescimento de microfungos e algas no sítio arqueológico. Nós tivemos que procurar os mesmos restauradores que cuidavam da tumba de Nefertari no Egito.
Os pontífices visitam a cidade dos mortos onde o seu antecessor descansa?
Na minha memória, nem mesmo Pio XII, que promoveu as escavações, alguma vez desceu. Na véspera de 1º de abril de 2013 eu recebi uma ligação do cardeal Angelo Comastri, arcipreste de São Pedro, que me informava sobre uma visita no dia seguinte de Francisco, papa eleito 17 dias antes. No começo, pensei numa brincadeira de 1º de abril. Mas também era a Segunda-feira do Anjo. Ficamos na necrópole das 16h45 às 18h00 e vi o Santo Padre ficar comovido e ouvi-o repetir em voz alta as três profissões de fé do primeiro apóstolo. Ele também se demorou no túmulo de um cristão chamado Istatilio, reconhecível pelo cristograma com o X e o P do alfabeto grego sobrepostos. A inscrição latina diz: ‘Ele se dava bem com todos e nunca causava brigas’. O Papa comentou: ‘É um belo programa de vida.’
Para os Romanos, o falecido permanecia vivo graças à memória. Nós temos o dia de 2 de novembro, eles dedicavam aos mortos nove dias de comemoração. Nós oferecemos crisântemos, eles violetas em março e rosas em maio. E no dia do aniversário faziam banquetes no túmulo do ente querido desaparecido.
Como imagina São Pedro?
Como a iconografia nos transmite. Acostumado aos esforços da pesca, tão vigoroso a ponto de poder se deslocar a pé, mesmo já idoso, de Brindisi a Roma. Mas também tão fraco a ponto de renegar Jesus por três vezes. Por isso a Igreja foi fundada sobre Pedro. Ele era um homem normal, com todas as nossas fragilidades, porém capaz de se arrepender da traição, de chorar amargamente e de escolher a via do martírio.
Para que servem os santos?
Eles são uma ponte entre nós e o Céu.




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