O Ir. Alois, prior da comunidade ecuménica de Taizé, é um
dos convidados do Papa Francisco para o sínodo sobre os jovens, a fé e o
discernimento vocacional que decorre de 3 a 28 de outubro, no
Vaticano.
É a terceira vez que assiste a um sínodo dos bispos e participa nos
debates. A sua experiência, os seus debates e encontros com os milhares de
jovens que se retiram anualmente na colina da localidade francesa permitem-lhe
oferecer um testemunho refletido e judicioso sobre alguns dos temas em
discussão durante a assembleia.
Escuta e acolhimento
Os jovens, consultados sobre as suas expetativas antes do
sínodo apontaram unanimemente a necessidade se sentirem escutados e acolhidos
pela Igreja. As diferentes conferências episcopais que participaram nas
reflexões pré-sinodais afirmam que os jovens desejam uma Igreja «menos
institucional e mais relacional», capaz de «acolher, sem julgar,
antecipadamente», uma Igreja «amiga e próxima», uma comunidade eclesial que
seja «uma família onde se sente acolhido, escutado, protegido e integrado».
O Ir. Alois sublinha que esta dimensão fraterna não deve ser
uma opção entre os cristãos. Os irmãos da comunidade levam a sério viver
concretamente esses valores com os jovens que os visitam: «Em Taizé os jovens
descobrem um espaço onde a benevolência e a confiança são possíveis. Uma
sociedade sem perdão não pode sobreviver: sem perdão não há futuro porque
apenas reinam a suspeita e a desconfiança».
Testemunho e transmissão
Um dos principais assuntos em debate centra-se na dimensão
missionária do cristianismo, tema que a Igreja católica em todo o mundo
sublinha anualmente em outubro e que, em Portugal, estará em destaque durante
os próximos 12 meses, com o Ano Missionário.
Para o Ir. Alois, «o dizer já não chega. A missão faz-se por
contágio, e já não só pelas palavras. É preciso encorajar o contacto pessoal
que permite a escuta».
Esta recomendação ecoa o que procuram os jovens na sua busca
de sentido e na sua busca espiritual. Trezentos jovens de todo o mundo
estiveram reunidos em Roma, em março, no contexto de um “pré-sínodo dos
jovens». Nessa ocasião foi mencionado que «os jovens querem testemunhas
autênticas, homens e mulheres que deem uma imagem viva e dinâmica da sua fé e
da sua relação com Jesus, pessoas que encorajem as outras a aproximar-se,
encontrar-se e apaixonar-se por Jesus».
Vocação
Casamento, vida religiosa… Hoje a maioria dos jovens não se
reconhecem nestas propostas, que são muitas vezes consideradas como as únicas
pistas que a Igreja apresenta aos jovens para se realizarem na sua vocação. O
documento preparatório do sínodo reafirma que o conceito de vocação se
relaciona com a felicidade que Cristo dirige a cada pessoa.
O Ir. Alois partilha esta visão: «Sente-se sempre que os
jovens têm um grande desejo: a sede de um amor para sempre» que ultrapasse «as
numerosas separações a que os jovens assistem, nas famílias, mas também na
Igreja».
A resposta ao apelo vocacional de cada jovem ancora-se na escolha
renovada de seguir Cristo, qualquer que seja a forma que esse compromisso
assuma. «Cabe-nos mostrar-lhes que o “sim” é possível, mesmo nas nossas
próprias fragilidades, se eles se apoiaram constantemente no “Sim” de Deus, a
fim de que ousem guardar o gosto desse compromisso para toda a vida. A
possibilidade de regressar ao “Sim” de Deus, mesmo após os nossos fracassos, as
nossas faltas, pode fazer cair os medos do apelo [chamamento de Deus]»,
observa.
Acompanhamento e discernimento
Ajudar cada jovem a encontrar uma resposta individual à
questão da sua vocação exige um investimento particular da Igreja para
acompanhar os jovens e servir-lhes de orientação no seu caminho. Como lembra o
documento preparatório, «o acompanhamento das jovens gerações não é um dever
opcional na educação e evangelização dos jovens, mas um dever para a Igreja e
um direito para cada jovem».
O Ir. Alois destaca igualmente a necessidade de todo o “sim”
a Cristo seja acompanhado. A Igreja deve por isso encontrar formas novas de acompanhamento
de todas as etapas da vida, que não se resumem ao seminário ou à preparação
para o casamento. Finalmente, como fazer frutificar o sim à graça batismal?».
«Estamos impressionados pelos pedidos de acompanhamento,
especialmente durante os retiros em silêncio, que requerem da parte dos irmãos
uma escuta muito profunda», assinala.
Novas tecnologias
Os trabalhos preparatórios do sínodo deram um grande espaço
às novas tecnologias. Elas fazem parte da vida dos jovens e são um lugar de
nova evangelização. Todavia, elas são igualmente espaços de grande perigo para
os jovens, como sublinha o documento de trabalho: «O “ecrã” representa também
um território de solidão, de manipulação, de exploração e de violência».
Em Taizé não se encontram ecrãs nem sistemas aperfeiçoados
de som. As novas tecnologias parecem ser uma realidade longínqua do espaço, que
no entanto está repleto de jovens modernos e ligados. O Ir. Alois sublinha que
«a ausência de ecrãs permite aos jovens dar-se conta com naturalidade da beleza
da relação com os outros, dá-lhes o gosto do encontro. Isso ocorre
especialmente através dos serviços que os jovens são levados a realizar quando
vêm a Taizé: distribuição das refeições, lavagem da loiça…».
Como é que se consegue distanciar estes jovens hiperligados
das redes sociais e de outros equipamentos digitais que estão no coração das
suas vidas? O Ir. Alois explica-o antes de tudo por um desejo de simplificar o
modo de vida e por causa dos limitados recursos financeiros: «Se as novas tecnologias
estão pouco presentes, é porque propomos aos peregrinos viver o mais
simplesmente possível para que a sua contribuição financeira seja a mais
modesta possível». Simplicidade e pobreza formam o quotidiano da comunidade e
permitem aos irmãos colocar o contacto fraterno no coração das suas vidas. É
por isso com toda a naturalidade que os jovens em visita à colina adotem essa
filosofia, profundamente cristã.
Ecumenismo e unidade dos cristãos
Num tempo em que os jovens têm acesso, pelas suas leituras,
viagens e encontros a uma descoberta de pluralidades religiosos, a maioria das
pessoas de 18-29 anos em procura espiritual não se volta para a Igreja
católica. A comunidade de Taizé é ecuménica e os jovens que se congregam na
beleza das orações provêm de horizontes muito variados.
O Ir. Alois faz essa experiência todos os dias: «Os jovens
não nos colocam em primeiro lugar questões confessionais. As suas interrogações
são muito mais fundamentais e tocam na possibilidade de crer hoje. Nós damos
graças pela possibilidade que nos é dada em Taizé de orar diariamente juntos e
de viver regularmente a hospitalidade eucarística».
Como escreveu o papa Francisco: o Espírito Santo «suscita
uma grande riqueza diversificada de dons e ao mesmo tempo constrói uma unidade
que nunca é uniformidade, mas uma harmonia multiforme que atrai».
Anne Thibout, em Église catholique en France.
Tradução Rui
Jorge Martins, em snpcultura.org

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