Damian Vallelonga, 80 anos, é um psicólogo norte-americano
filho de imigrantes italianos que, entre outras coisas, colabora com a diocese
de Syracuse no estado de Nova Iorque.
O bispo pediu-lhe que trabalhasse com padres acusados de
abusos sexuais para avaliar do ponto de vista psicológico a fundamentação das
acusações. Ele é um especialista em casos de criminosos sexuais. Ele sabe como
tratar indivíduos que cometeram crimes de natureza sexual.
Até aqui nada de estranho, principalmente em tempos em que o
surgimento de casos de abusos cometidos por sacerdotes nos EUA obrigou muitas
dioceses a reagir. O que, no entanto, poucos sabem é que Vallelonga, além de
psicólogo, é padre. Mais especificamente, um padre que casou. Ele deixou o
ministério sacerdotal há anos, sem nunca ter sido oficialmente dispensado do
estado clerical. Ele não exerceu mais, embora, do ponto de vista institucional,
ainda seja sacerdote. Depois de ser colocado à margem justamente por causa da
escolha de viver com uma mulher, Vallelonga tornou-se novamente
"útil", um recurso que poderia abrir novas perspectivas para cerca de
cem mil padres casados em todo o mundo.
A história de Vallelonga é uma das mais significativas
contidas no livro de Enzo Romeo, editor-chefe e especialista em Vaticano do
TG2, intitulado "Lui, Dio e lei” (Ele, Deus e ela, Rubbettino). Romeo dá a
palavra aos protagonistas, padres que deixaram o ministério pelo amor de uma
mulher. São sacerdotes que, em grande parte, contestam a obrigação do celibato
afirmando o facto incontestável que é apenas uma norma introduzida pela Igreja
em um determinado momento histórico e que, portanto, o celibato não está desde
sempre ligado à essência do ministério sacerdotal.
Vallelonga era um padre estimado nos EUA. Ele estudou em
Roma, na Gregoriana, durante os anos do Vaticano II. De volta aos Estados
Unidos, ele começou a notar muitas contradições entre os impulsos de renovação
vivenciados nos anos romanos e os fechamentos da Igreja local. O golpe de graça
veio, para ele, pela Humanae Vitae, a
encíclica em que Paulo VI declara inaceitável o uso dos meios de contraceção. «Paulo
VI não levou em consideração a opinião da maioria dos especialistas que
considerava legítimos métodos artificiais de controlo de natalidade, mas
assumiu a opinião minoritária que os considerava proibidos, elaborada pelo
cardeal Wojtyla.»
Vallelonga defendia, junto com outros teólogos, uma nova
visão da sexualidade conjugal para a qual a mútua complementaridade do casal é
um valor igual à procriação e não submetido a ela. A Humanae Vitae fez com que ele vacilasse. Ele apelou para a tese
expressa pelo jesuíta Giles Milhaven, segundo a qual um comportamento é certo
ou errado não por causa da vontade ou dos ditames do legislador, mas porque
produz o bem ou causa danos a si mesmos ou aos outros. Ele disse que, de acordo
com a abordagem empírica da teologia moral, não se comete automaticamente
pecado realizando determinados atos sexuais fora do casamento ou orientando a
sexualidade conjugal além da mera procriação. "Em uma conferência - ele
relata – eu mantinha aberta a possibilidade que mesmo a masturbação não fosse
necessariamente pecaminosa".
Abram-se os céus. Ele foi advertido pela chancelaria
diocesana e convidado a modificar seu pensamento. Naquele momento, ele entendeu
que o sacerdócio não era o seu caminho. Matriculou-se em psicologia, casou, fez
outras coisas. Mas hoje, depois de anos de oposição, a Igreja decidiu
reconvocá-lo: de "padre sem batina" tornou-se um recurso. Conta
Rosario Mocciaro, presidente da Vocatio, uma associação de padres casados e
suas respectivas esposas, dentro da "A Escolha, os padres e o amor", o
programa televisivo sobre o tema conduzida pelos jornalistas investigativos
Mondani e Autieri: «Somos um recurso que hoje não tem mais nenhuma pretensão.
Como padres casados, sabemos que ainda podemos dar muito à Igreja.»
Paolo Rodari, La Repubblica. Tradução: Luisa Rabolini, Unisinos

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