Os jovens e a Igreja precisam de procurar juntos o caminho da alegria do amor


«Deixemo-nos interpelar pelo grito dos jovens hoje, em especial daqueles que estão a morrer em vida», escreve o padre Juan Bytton, jesuíta e auditor do Sínodo dos Jovens, em Religión Digital.

O Sínodo dos Bispos é uma experiência profunda de ser Igreja. No sínodo com o tema «Os jovens, a fé e o discernimento vocacional», junto com os Padres Sinodais (bispos) reúnem-se, todos os dias, 34 jovens, provenientes de todas partes do mundo, um grupo de auditores, especialistas e, pela primeira vez, sete religiosas.

As sessões do Sínodo têm duas partes: reuniões de todos os membros do Sínodo na grande sala, chamada Assembleia Geral, e os Círculos Menores, 14 no total, segundo os idiomas dos participantes. Em ambos trabalha-se com base no Instrumentum Laboris, um documento que consta de três seções: Reconhecer, interpretar e escolher. O Sínodo, tem duração de um mês, uma semana para cada parte do Instrumentum Laboris e a última para a redação do documento final.

Com mais de 300 participantes, a experiência sinodal em Roma é uma verdadeira ONU eclesial. A diversidade de pessoas e culturas faz compreensível a existência de uma grande variedade de temas e percepções sobre os jovens. Entretanto, a atitude de todos está sendo a mesma: escutar.

Foi o que pediu o Papa Francisco desde o início, na homilia de Abertura do Sínodo: “Tentaremos colocar-nos à escuta um dos outros para discernirmos juntos o que o Senhor está a pedir à sua Igreja”.

Escutar é o primeiro requisito para mudar. E sabemos que como Igreja e sociedade necessitamos de uma mudança. Que esta abertura para se escutar várias vozes venha justamente num Sínodo dedicado aos jovens não é casualidade. Na sua força e capacidade de sonhar também a Igreja encontra o alento para caminhar.

Os jovens e a Igreja necessitam de buscar esse caminho da alegria do amor, precisam de retomar a confiança e apostar na vida. Os avatares da história recente nos permitem reconhecer que é a fragilidade o primeiro ponto de encontro de ambos. Não se trata de buscar receitas, de saber quem tem a razão, ou qual preconceito prevalece. É o momento de estender pontes para caminhar por elas, e a atitude de escuta tem que ir acompanhada das atitudes de abertura e confiança. Um dos padres sinodais nas primeiras sessões afirmava: “A escuta é o primeiro passo para o perdão.” E creio que é assim. Um perdão que deve partir com toda humildade e exemplo desde a Igreja.

O título dessa reflexão nos leva ao Evangelho de Marcos 19, 17-22. Onde, um jovem rico pergunta a Jesus o que deve fazer para encontrar a plenitude da vida. Depois de revisar os mandamentos mais importantes, Jesus o olhou com amor. Vamos dando conta de que essa deve ser sempre a atitude da Igreja frente ao jovem que busca. No entanto, sabemos o final da história: o jovem se vai triste. Cremos que estamos no momento de nos perguntarmos por que se vai, por que hoje tantos jovens deixam a igreja, ou vivem de maneira indiferente sua dimensão espiritual e crente.

Talvez devamos ter em conta as palavras de Jesus que seguem o relato: “Uma coisa te falta. Vai e vende tudo o que tem, dá aos pobres, assim terá um tesouro no céu. Depois, vem e segue-Me” (v.21). Essas são as palavras que agora corresponde a escuta da Igreja para poder responder com “valentia e parresia”: O que deve renunciar? Onde estão, em sua reflexão e ação, os pobres? Confia no tesouro ganhado no Ceú? É realmente seguidora de Jesus, dinâmica, ágil e humilde? ”.

A Igreja tem necessidade de se curar. Despojar-se das suas riquezas, do que a faz cómoda, distante, autocomplacente. E o primeiro passo é reconhecer as suas fragilidades saindo da lógica da “autopreservação e autorreferencialidade”.

Deixar-nos interpelar pelo grito dos jovens hoje, em especial daqueles que estão a morrer em vida, renegam o presente e tem o futuro hipotecado.

A problemática juvenil é diversa e complexa, e o Sínodo está disposto a escutá-la. Esperamos que essa mesma atitude seja a que anime a propor caminhos de acompanhamento, apoio e formação, para que a Igreja – e os jovens nela – siga sendo fiel ao Evangelho de Jesus, capaz de fazer “nova todas as coisas” (Ap 21, 5).

Com esse Sínodo retomamos o caminho aberto pelo Concílio Vaticano II, o de uma Igreja constitutivamente sinodal. É fazer memória agradecida para ser profetas da esperança.

Como jesuíta, me toca apoiar de maneira especial na capacidade do discernimento sinodal. Disse o Papa com toda clareza no discurso inaugural: “O discernimento é o método e as vezes o objetivo que nos propomos: se funda na convicção de que Deus está a atuar na história do mundo, nos acontecimentos da vida, nas pessoas que encontro e que me falam.” É o tempo de mudança e de mudar, de “alargar horizontes, dilatar o coração e transformar aquelas estruturas que hoje nos paralisam, nos apartem e distanciam de nossos jovens” (Homilia na Missa de Abertura do Sínodo). A reforma eclesial e pastoral reiniciada pelo papa Francisco está a reforçar-se nestes dias com essa experiência. Estamos caminhando juntos, e se nos deixamos guiar pelo Espírito, nada nem ninguém poderá deter a marcha de cura e salvador que Jesus começou.

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