O que queremos quando rezamos «Venha a nós o vosso Reino»?

O foco da pregação de Jesus Cristo foi o Reino de Deus. Dizia: «Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está perto» (Mc 1, 15).

Para os evangelistas, os milagres sinalizam a chegada do Reino, pois cumpre-se o prometido em Isaías (cf Is 35, 5-6; 61, 1-5): «Os cegos veem, os paralíticos andam, os leprosos ficam curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres» (Mt 11, 5). 

Jesus fala do Reino em parábolas.  É como uma “semente” (cf. Mc 4, 26-32) semeada no meio do mundo e que cresce lentamente.  Assemelha-se, ainda, a um punhado de “fermento” (cf. Mt 13, 33) espalhado na massa da história para transformá-la. E isso para dizer que o Reino é a atuação salvífica de Deus no mundo por meio d'Ele.

O Reino é um “tesouro escondido”,  é a bondade de Deus oferecida a todos em Jesus (cf. Mt 13, 44) que precisamos descobrir e desenterrar logo; uma verdadeira “pedra preciosa (cf. Mt 13, 45)”, quem a encontra abandona tudo para adquiri-la. Às vezes, parece insignificante, como um pequeno “grão de mostarda” (cf. Mc 4,31), ninguém dá nada por ele, mas cresce e se torna abrigo para os pássaros, pois, embora sendo frágil hortaliça, Deus é quem cuida na fragilidade. 

O Reino é verdadeiro mistério, acessível somente a quem se dispõe a seguir Jesus: «A vós Deus entregou esse mistério que é o Reino de Deus” (Mc 4, 11).  Quem não compreende o Reino, não entende o caminho de Jesus. 

O Reino de Deus é o tema central da pregação de Jesus e consiste no governo de Deus sobre os homens. A Bíblia explica o que acontece quando Deus reina entre nós e o que acontece quando nós não queremos que Deus reine.

Pedir «Venha a nós o vosso Reino» é apelar para uma nova e completa orientação das relações humanas e uma reestruturação da sociedade conforme os valores do Evangelho. Os valores que caracterizam o senhorio de Deus e que devem manifestar-se nas relações humanas são a liberdade, a fraternidade, a paz e a justiça.

Pela oração, Jesus deseja ver o Reino a acontecer. Por isso, Ele ora em momentos históricos precisos: ao escolher os Doze (cf. Lc 6, 12); ao ensinar o Pai Nosso (cf. 11, 1); antes de curar o menino epilético (cf. Mc 9, 29). Ora, ainda, para pessoas concretas, por Pedro, por exemplo (cf. Lc 22,32); pelos seus algozes (cf. Lc 23, 34). 

Os grandes – chefes e dirigentes do povo judeu – rejeitam a mensagem do Reino, porque, segundo Jesus, Deus Pai prefere os pobres, aqueles que mais necessitam do seu amor benevolente. O Pai quer que todos sejam irmãos, por isso não suporta a violência, a guerra, a injustiça, a opressão. Os pobres são vítimas dos poderes desse mundo e isso não se harmoniza com o projeto de Deus. 

O Reino encarna-se na justiça, e os que precisam de justiça são os injustiçados.
Apropriando-se de um texto de Isaías, Jesus dirá no início do seu ministério público: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para evangelizar os pobres» (Lc 4, 18).  Os destinatários do Evangelho são, antes de tudo, os pobres. Deus dá prioridade aos marginalizados, aos indefesos, às vítimas dos poderosos, aos que estão abandonados e à margem da vida social. Eles não são melhores do que os outros e o Pai quer bem a todos, mas sua preferência recai sobre aqueles que precisam mais do seu amor e esses são os pobres, os rejeitados pela sociedade escrava do poder, da ganância, do dinheiro, das guerras.

A vinda do Reino corresponde à plena realização da Obra da Criação de Deus e da Sua Paternidade. O Reino torna-se uma realidade quando as pessoas acolhem o Filho de Deus, Jesus (cf. Cl 1,13), aceitam viver como irmãos e cuidam do Universo inteiro, como Casa que Deus preparou para elas. 

O Reino só vai realizar-se no final da história, mas é preciso começá-lo aqui e agora. Jesus não apenas anuncia a chegada do Reino, mas quer que o acolhamos e a única forma de fazê-lo é pela conversão. Depois de afirmar: “Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está perto”, acrescenta: “Convertei-vos e crede no Evangelho”(Mc 1,15). Quem se converte segue Jesus e busca o Reino que ele anunciou e tornou presente em nossa história. Ele mesmo nos exorta: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6,33), o que fazemos no espírito das bem-aventuranças, porque “deles é o Reino de Deus” (cf. Lc 6,20). 

Que significa entrar no Reino e trabalhar para que cresça e o mundo continue a ser fermentado pela ação misericordiosa de Deus? Desejar um mundo mais fraterno, mais humano, mais solidário, sem guerras e opressões e lutar por ele oferecendo esperança aos desesperançados, acolhendo os rejeitados, defendendo os fracos diante dos poderosos, fazendo justiça aos injustiçados, perdoando os culpados e oferecendo-lhes uma nova chance.

O Papa Francisco afirma: “O projeto de Jesus é instaurar o reino de Deus. À medida que Ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos. Tanto o anúncio como a experiência cristã tendem a provocar consequências sociais” (Alegria do Evangelho, n.º 180).

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