«Quanto custa uma missa?» Corrigir "o mal estabelecido" é um dever de consciência

Enquanto esperava (escreve Jairo del Agua, no seu blogue em Periodistadigital.com) ouvi este diálogo numa paróquia de Madrid:
- Quanto custa uma missa agora? Há já um tempo que eu não encomendo nenhuma.
- Subiram para 8 euros – respondeu a pessoa encarregada do livro de intenções.
- Ah bem! Tenho 100 euros para as almas. Para quantas missas me dá?
- Para 12 missas e sobram 4 euros.
A sacristã tinha usado a calculadora sem mostrar a mínima alteração. Estava a fazer a coisa certa: ajudar aquela velhinha a livrar-se do seu dinheiro por uma "miserável e errada devoção mercantilista"...


Confesso que me senti constrangido, envergonhado, confundido. Tanto pela velha tradição de querer empurrar a "insuficiente" Misericórdia divina, como por tentar "comprá-la" com dinheiro. 

Perguntei a mim mesmo: Esta é a minha Igreja? Vendem-se Missas aqui?
Um vigário certamente me responderia:
- Não! Aqui não vendemos nada! Não se trata de um pagamento, mas de um "estipêndio".
- Ah, isso é outra coisa! Bem, vejamos o que significa estipêndio segundo a RAE [Real Academia Espanhola]: «Pagamento ou remuneração que se dá a alguém por algum serviço.» [NdT: em Português, segundo o dicionário da Porto Editora, significa «retribuição por serviços prestados; remuneração; paga»] Pois bem, ainda continua a ser um pagamento!
- Não, homem, há outras acepções! O dicionário [da RAE] também diz: «Taxa pecuniária, fixada pela autoridade eclesiástica, que os fiéis dão ao sacerdote para que reze a missa por certa intenção".
- Entendo. O estipêndio não é um pagamento, é uma taxa. E o que é uma taxa? Voltamos ao dicionário e lemos: «Ação e efeito do taxar.» Pois eu continuo a não concordar, Sr. Vigário. Desde quando se podem ‘taxar’ as coisas sagradas ?
- Homem, continua a procurar!
- Sim, aqui diz: Taxa = «Tributo que se impõe ao gozo de certos serviços ou ao exercício de certas atividades.» Agora sim, está claro! Para que o vigário mencione o nome dos meus falecidos na missa, tenho de pagar um tributo. Hum! Estanho, não?

Alguma explicação para tal tributo 
O meu imaginário vigário interlocutor ficou vermelho como um tomate e permaneceu em silêncio. Mas eu insisto, esperando que o meu bom senso encontre alguma explicação para tal tributo.
- Ouça, Sr. Vigário, e o pagamento desse tributo é obrigatório ou voluntário, moral ou imoral?
Nos meus tempos de juventude, ensinaram-me que "a compra ou venda deliberada de coisas espirituais, como sacramentos e sacramentais, ou temporais inseparavelmente ligados às espirituais, como benefícios eclesiásticos" constituem um gravíssimo pecado que se chama "simonia" por ter sido Simão, o Mago, o primeiro a tentar fazê-lo (At 8,18). E um tributo não deixa de ser um pagamento.
- Sabes o que te digo, cabeça-dura? Que és um leigo ignorante! Que confundes as coisas e a recta intenção da Igreja. Que já Lutero dizia algo parecido e olha como terminou. Que nós vigários também precisamos  dos bens materiais para nos mantermos. Que é uma esmola e não um tributo. Que...
- Não fique com raiva Sr. Vigário! É muito bom refletir para identificar os nossos erros e corrigi-los.
Além disso quero saber a "resposta oficial" à pergunta da minha amiga Petri: O "pagamento" de uma Missa me dá direito de exigir que digam o nome do  meu falecido marido ou não?
E à de Juanito, o coxo: Então eu ficarei no purgatório "in secula seculorum" porque não tenho quem ‘me pague’  Missas quando eu morrer? Mesmo depois de mortos, os ricos têm mais sorte...!
- Tá, tá, tá... Vai para o inferno!
O meu imaginado vigário – bastante mais real do que se possa pensar – ficou sem palavras.  Agora parece que o errado sou eu por me escandalizar com um verdadeiro escândalo!

Pois bem, vou continuar sem dar um centavo quando for pedir uma Missa! Claro que também continuarei a raspar a minha conta bancária para dar à Igreja a contribuição que me parecer prudente e generosa, sem contraprestações de longas orações, sem "gregorianas"(1) ou "rezadas"(2). Simplesmente porque sim, a Igreja – a minha Igreja – é deste mundo e tem necessidades materiais que devem ser cobertas pelos seus fiéis.
Mas de modo algum aceitarei que se continue a escandalizar e a praticar o que é contrário ao mais mínimo sentido cristão! Não com a minha colaboração!
Coisas assim são as que precisam de reforma urgente, de purificação imediata. É por aí que se deve começar. Seria tão fácil!

São temas que não afetam o Dogma nem a Moral (exceto quando a contrariam como neste caso) e que geralmente costumam ficar encobertas pela rotina, que algumas confundem com tradição.

Quando falo em voltar ao Evangelho, falo – para "começar a andar" (Jo 5,8) – de extirpar essas aderências cancerígenas que temos enraizadas nos símbolos e costumes da nossa Igreja.
Que persistência e teimosia – por exemplo – a dos nossos prelados em se mostrar com "sinais oficiais" de poder e supremacia medievais!
Ou o exemplo contrário: com que rapidez aderiram tantos clérigos à minha vulgar gravata leiga e apagaram a sua "presença" na sociedade!
E como estão a tardar todos a desprender-se e a desprender-nos das "tradições de lama"!
Pobres católicos, tão rígidos, exigentes e intolerantes em algumas coisas, e tão frouxos e inconsistentes em outras!  Nós... os melhores, os verdadeiros, os eleitos... Como precisamos passar por uma conversão e renovação urgente! "Mea culpa, me culpa, mea maxima culpa" ...

Cartaz que aparece na paróquia de um padre amigo:
A Eucaristia é «fonte e centro de toda a vida cristã».
É o compêndio da nossa fé, ação de graças, adoração e louvor ao Pai. É o banquete do Senhor e expressão da unidade de toda a Igreja que segue o seu mandato: «Fazei isto em memória de mim.»
Na santa Missa partilhamos o Pão e a Palavra,
dispondo-nos a seguir o caminho do Evangelho.
E isto não pode ser comprado nem vendido.
Por isso, NESTA PARÓQUIA, 
não se recebe dinheiro pela celebração da santa Missa.
Celebra-se sempre tendo presente as intenções de quem o solicita e de todos os fiéis.
Quem reconhece o dever cristão de cooperar com as despesas da paróquia, entrega a sua oferenda
na forma que melhor lhe convenha.

O Papa Francisco, na missa da manhãna Casa Santa Marta, em 9 de novembro de 2018, fez uma advertência sobre as "tabelas de preços" nos templos, ao considerar que se corre o risco de pagar os sacramentos ao invés de fazer uma oferta que passe despercebida.

Ao refletir sobre a passagem do Evangelho de São João na qual Jesus expulsa os mercadores do templo, o papa observou que na mente desses vendedores "está o ídolo de dinheiro e os ídolos são sempre de ouro. E os ídolos escravizam".

"Isso nos chama a atenção e nos faz pensar em como tratamos os nossos templos, nossas igrejas. Se realmente são casa de Deus, casa de oração, de encontro com o Senhor, se os padres favorecem isso ou se se parecem com mercados" – disse ele.

"Às vezes tenho visto – não aqui em Roma, mas em outros lugares – uma lista de preços. "Mas, como? Os sacramentos são pagos? Não, é uma oferenda. Mas se querem dar uma oferenda – que devem dar – que a ponham na cesta das oferendas, escondidos,  que ninguém veja quanto dão" – declarou.


"Também hoje há este perigo. ‘Mas devemos manter a Igreja’. Sim, sim, é verdade. Que os fiéis a mantenham, mas na cesta das oferendas, não com uma lista de preços" –  advertiu.

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