«Que dizem os homens que Eu sou?» (Mt 16,13-20; Mc 8,27-30; Lc 9,18-21; Jo 6,67-71), esta foi a pergunta que deu origem ao Novo Testamento da Bíblia: Cartas, Evangelhos, Atos dos Apóstolos e Apocalipse. Assim resumiu o pastor Dimas de Almeida as três conferências que orientou no Encontro Nacional da Fraternitas, com o tema «Os primeiros 100 anos do Cristianismo»
Quatro Evangelhos
Chamamos “Evangelho” a
um género literário de escritos do Novo Testamento que
tem apenas quatro exemplares na literatura universal: os Evangelhos segundo
Mateus, Marcos, Lucas e João.
Este género de escritos apareceu depois das
Cartas de S. Paulo e propôs-se transmitir factos e palavras da vida de
Jesus de Nazaré, que as Cartas não tinham ainda referido.
Os Evangelhos transmitem-nos factos históricos (Vaticano II, constituição dogmática Dei Verbum, n.º 19), mas não à maneira da historiografia moderna; os factos e as palavras de Jesus são coloridos pela experiência das comunidades da primeira geração cristã, que vai dos anos 30 a 70.
Por detrás da autoria individual dos Evangelhos a qual vem da Tradição do séc. II e não se encontra no texto dos Evangelhos está também uma ou várias comunidades cristãs. A Constituição Dei Verbum não declara que determinado Evangelho pertence a determinado evangelista como seu autor. Afirma apenas “a origem apostólica dos quatro Evangelhos (...) segundo Mateus, Marcos, Lucas e João” (n.° 18); isto é, são-lhes atribuídos. A Tradição ligava os Evangelhos de Mateus e de João aos respectivos Apóstolos; o de Lucas a Lucas, companheiro de Paulo; o de Marcos, a um companheiro de Pedro com esse nome. Com isso, pretendia-se ligar estes escritos à sua fonte, que é Cristo, e às suas testemunhas oculares.
De facto, os Quatro Evangelhos representam o último estádio da tradição acerca das obras e das palavras de Jesus.
Os Evangelhos transmitem-nos factos históricos (Vaticano II, constituição dogmática Dei Verbum, n.º 19), mas não à maneira da historiografia moderna; os factos e as palavras de Jesus são coloridos pela experiência das comunidades da primeira geração cristã, que vai dos anos 30 a 70.
Por detrás da autoria individual dos Evangelhos a qual vem da Tradição do séc. II e não se encontra no texto dos Evangelhos está também uma ou várias comunidades cristãs. A Constituição Dei Verbum não declara que determinado Evangelho pertence a determinado evangelista como seu autor. Afirma apenas “a origem apostólica dos quatro Evangelhos (...) segundo Mateus, Marcos, Lucas e João” (n.° 18); isto é, são-lhes atribuídos. A Tradição ligava os Evangelhos de Mateus e de João aos respectivos Apóstolos; o de Lucas a Lucas, companheiro de Paulo; o de Marcos, a um companheiro de Pedro com esse nome. Com isso, pretendia-se ligar estes escritos à sua fonte, que é Cristo, e às suas testemunhas oculares.
De facto, os Quatro Evangelhos representam o último estádio da tradição acerca das obras e das palavras de Jesus.
O 1.° período é
constituído pelo próprio Jesus, de 6 a.C. a 30 d.C.. Jesus não
escreveu; apenas anunciou oralmente a mensagem, através dos caminhos da
Galileia, da Samaria e da Judeia, reunindo à sua volta um pequeno grupo de
discípulos a quem iniciou nos mistérios do Reino dos céus (Mt 13,11).
O 2.° período tem
o seu início depois da morte e ressurreição de Jesus. Depois da desilusão (Lc 24,18-21) e do medo (Jo 20,19-23), os Apóstolos, com a
força do Espírito do Pentecostes (Act 2,1-13), lançaram-se no anúncio da
mensagem do Mestre, não se preocupando muito com a escrita mas com a urgência
do anúncio do Reino. Rapidamente se formaram muitas comunidades cristãs, tanto
na Palestina como nas cidades do Império. Este 2.° período, ou primeira geração
cristã, vai dos anos 30 a 70.
O 3.° período é
constituído pela segunda geração cristã, ou seja, pelos discípulos dos
Apóstolos e de outras testemunhas oculares de Jesus. Cada um deles
tinha deixado mais marcada alguma tradição acerca de Jesus; agora, juntam-se as
diferentes “tradições” para não se perder a memória do Senhor. Este período vai
dos anos 60 a 100. É neste período que aparece a redacção definitiva dos Quatro
Evangelhos.
A tonalidade própria
de cada um desses Evangelhos, a nível literário e teológico, faz com que eles
sejam semelhantes, mas também diferentes entre si. Essa tonalidade tem origem
no estilo de cada evangelista e na intenção teológica de responder às
necessidades específicas da comunidade a quem dirige o seu Evangelho.
EVANGELHOS
SINÓPTICOS
Por seguirem o mesmo
esquema fundamental de Marcos, chamamos a Marcos, Mateus e Lucas “Evangelhos
Sinópticos”; porque, se os dispusermos em colunas paralelas e fizermos deles
uma leitura de conjunto, deparamos com semelhanças fundamentais e com
diferenças de pormenor. Diferente dos “Evangelhos Sinópticos” é o Evangelho
segundo São João, escrito entre os anos 90-100. Este Evangelho não segue o
esquema histórico-geográfico de Mt, Mc e Lc (que tem origem em Mc) e é mais
abundante em discursos de Jesus, com base nos factos da sua vida. Aparece, por
isso, como o Evangelho teológico por excelência. O ambiente onde nasceu o
Evangelho segundo São João e a sua relação com os Sinópticos continua a ser
objecto de estudo por parte dos especialistas na matéria.
PORQUÊ
QUATRO EVANGELHOS?
A Igreja aceitou
apenas os Quatro Evangelhos, escritos entre os anos 60 e 100. Porquê apenas
quatro?
Parece que desde o
princípio da Igreja houve uma certa propensão para o uso de um único Evangelho.
Isso não significa que se negasse a autoridade dos outros. Naturalmente, os
cristãos vindos do Judaísmo preferiam o Evangelho de Mateus, escrito sobretudo
para lhes falar da relação de Cristo com a Lei de Moisés (Mt 5,17-7,29). Talvez tenham utilizado este
Evangelho em discussões com os outros cristãos vindos da civilização helenista,
que sustentavam não ser necessária a observância da Lei de Moisés (AT).
Marcião é também um
caso especial a este respeito: usa o Evangelho de Lucas por lhe parecer o
Evangelho que fala do amor de Deus, presente entre os homens em Jesus Cristo;
mesmo assim, elimina algumas partes onde esse amor não lhe parece evidente ou
onde se fala do Antigo Testamento, que ele rejeitou em bloco.
O movimento gnóstico
utilizou e manipulou sobretudo o Evangelho de João (ver Jo 14,2-3; 17,16). Tassiano pretendia um compromisso
entre as duas tendências (o uso de um único Evangelho e os quatro),
harmonizando-os num só (o Diatesseron). Esta harmonização foi largamente
seguida nas igrejas siríacas do Oriente, mas praticamente rejeitada nas igrejas
ocidentais de língua grega e latina. De facto, fazendo dos Quatro Evangelhos
apenas um só, destruíam-se as quatro teologias sobre Jesus, ficando apenas uma
“História de Jesus”. Ora os Evangelhos são muito mais do que a História de
Jesus.
EVANGELHOS
APÓCRIFOS E FORMAÇÃO DO CÂNON
Muitos outros
“evangelhos” apócrifos isto é, falsos conheceram uma certa celebridade, a
partir do séc. II. Os mais conhecidos foram: “Evangelho dos Hebreus”,
“Evangelho dos Ebionitas”, “Evangelho de Pedro”, “Evangelho de Tomé” e Proto-Evangelho
de Tiago. De alguns restam apenas fragmentos e breves notícias. Eram histórias
populares mais ou menos edificantes sobre factos da vida de Jesus ou simples
colecções de algumas palavras a Ele atribuídas. A Igreja soube sempre separar o
trigo do joio, a partir de três critérios necessários para um Evangelho ser
autêntico: 1) ter uma ligação directa com o grupo dos Apóstolos; nasce daqui a
atribuição de cada um deles a um nome importante, se possível, testemunha
ocular de Jesus: Evangelho segundo Mateus, segundo Marcos, segundo Lucas e
segundo João (critério apostólico); 2) incluir palavras e factos históricos da
vida de Jesus, e não apenas um destes conteúdos (critério literário); 3) ser
utilizado na pregação e na liturgia da Igreja universal (critério litúrgico).
A partir destas
exigências, muito cedo foram excluídas da Igreja essas histórias que se
apresentavam como “evangelhos”. A luta contra os hereges, sobretudo contra
Marcião, na segunda metade do séc. II, forneceu à Igreja uma motivação mais
para encontrar e colocar ao alcance dos cristãos a colecção ou Cânon dos livros
seguramente inspirados pelo Espírito Santo.
De qualquer modo, o
Cânon só progressivamente, e a partir dos princípios já referidos, se foi
formando, entre o séc. II e IV. Assim, as igrejas de língua siríaca utilizavam,
por vezes, o Diatesseron em vez dos Quatro Evangelhos e não incluíam as Cartas
Católicas mais pequenas (2 e 3 Jo, Jd, 2 Pe), tal como o Apocalipse.
Aliás, o último livro da Bíblia foi também o último a entrar no Cânon, devido à
desconfiança da Igreja acerca deste género de literatura, que se prestava a
muitas manipulações da Palavra de Deus, como acontece ainda hoje. Neste
sentido, é a Igreja que, pelo seu sentido da fé, aceita no seu seio os livros
inspirados por Deus; mas é também a Igreja quem reconhece oficialmente, para
utilidade dos fiéis, o Cânon (norma) dos livros inspirados pelo Espírito Santo.
ACTOS
DOS APÓSTOLOS
Uns 30 ou 40 anos
depois das Cartas autênticas de Paulo, escreveu Lucas o livro dos Actos dos Apóstolos (entre
os anos 80-90). Trata-se de um escrito que, quanto ao género literário, se
encontra entre a Teologia e a História; ou melhor, o seu autor quis fazer
História e Teologia ao mesmo tempo. Veja-se a grande quantidade de discursos
(uns 24), que têm mais a ver com a eclesiologia do que com a História
propriamente dita das comunidades da segunda geração cristã. Os personagens
centrais do livro são primeiramente Pedro, ao longo dos 12 primeiros capítulos,
em perfeita continuidade com o seu papel nos Evangelhos; e Paulo, do capítulo
13 em diante. Tudo indica que esta obra pertence ao mesmo autor do terceiro
Evangelho (Lucas). Este começa e termina em Jerusalém; os Actos começam em
Jerusalém, com os Doze, e terminam em Roma com Paulo, como que a dizer que se realizou,
pelo menos parcialmente, o programa de Jesus, no meio dos pagãos (Act 28,25-28).
Deste modo se cumpre o
programa de Jesus, proposto no início do livro dos Actos: «Sereis minhas
testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do
mundo.» (Act 1,8) Esta obra
apresenta-se, pois, como um segundo volume da obra de Lucas, numa continuidade
natural dos Evangelhos e como que registando o seu cumprimento. E sendo Paulo a
personagem central da segunda parte, este livro coloca-se, naturalmente, entre
os Evangelhos e as Cartas de Paulo.
O autor dos Actos não
nos apresenta, no entanto, Paulo como um Apóstolo e com os mesmos direitos dos
Apóstolos, apesar de Paulo reivindicar este título (Gl 1,17). Para Lucas, o direito ao
“apostolado” está ligado ao grupo dos Doze e ao testemunho directo e ocular de
Jesus (Lc 1,2; Act 1,13.17.21-22). Depois da visão de
Damasco, Paulo é introduzido no grupo dos Doze pela mão de Barnabé.
Nesta perspectiva,
Paulo não é Apóstolo pela relação directa com o Ressuscitado, mas pela
legitimação que recebe das «testemunhas oculares» de Jesus (Lc 1,2). Há diferenças sensíveis entre o Paulo
que nos é apresentado pelo autor dos Actos e o Paulo que se apresenta nas suas
Cartas. Segundo os Actos, Paulo é um rabino que continua fiel à Lei de Moisés;
segundo as Cartas, Paulo é um judeu convertido que relativiza a Lei para fazer
de Cristo o Senhor da sua vida: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive
em mim” (Gl 2,20).

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