Ano Missionário dia a dia... Com preocupações, elogios e orientações para os missionários, o Papa Bento XV, em 1919, explica o motivo porque escreveu a primeira carta missionária pontifícia
«Na verdade, é motivo de grande admiração constatar que,
depois de tantos sofrimentos associados ao anúncio da fé, depois de tantos
trabalhos e exemplos de fortaleza, são ainda muitos os que permanecem nas
trevas e nas sombras da morte.
Nesse sentido, por compaixão e dever apostólico, querendo
fazê-los participantes da redenção divina, vemos com grande alegria e
consolação que, sob a orientação do Espírito de Deus, cada dia aumentam mais,
em várias partes da cristandade, o zelo dos bons, na promoção e desenvolvimento
das missões no meio dos povos.
Para confirmar este movimento e dar-lhe um
vigoroso impulso em todo o mundo, como devemos e desejamos, nós, depois de
termos implorado insistentemente a luz e a ajuda do Senhor, enviamo-vos,
caríssimos irmãos, esta carta para que vos entusiasme, ao vosso clero e aos
povos que vos estão confiados, e vos indique de que modo podeis contribuir para
esta santa causa.
Antes de mais dirigimo-nos àqueles que, na qualidade de
bispos, vigários ou prefeitos apostólicos, presidem às sagradas missões. Desses
depende diretamente a propagação da fé e é nesses que a Igreja coloca a
esperança na sua maior expansão.
Acreditamos que neles esteja muito vivo esse
espírito de apostolado. São conhecidas as grandes dificuldades que tiveram de
superar e as árduas provações que sofreram, sobretudo nos últimos anos, não só
para não perder as posições adquiridas mas também para dilatar ainda mais o
reino de Deus. Conhecendo a sua união e a sua filial união com esta Sede
Apostólica, abrimos-lhes o coração com plena confiança, como fazem os pais com
os seus filhos.
Pensemos primeiramente que esses, como se diz, devem ser a
alma da sua missão. Por essa razão, sejam zelosos e de exemplar edificação para
com os seus sacerdotes e cooperadores, exortando-os a encorajando-os a um bem
sempre maior. Os que de qualquer modo trabalham nesta vinha do Senhor, devem
perceber, experimentar e até sentir que encontram nos superiores o verdadeiro
pai, vigilante, diligente, repleto de atenção e de caridade, que tudo e todos
abraçam afectuosamente, partilhando com eles as alegrias e dores, confirmando e
promovendo todas as boas iniciativas e, numa palavra, consideram como seus todos
aqueles que lhes pertencem.
O destino de uma Missão depende, pode dizer-se, do modo como
é dirigida: por isso, pode ser danosa a não idoneidade dos que a governam. Na
verdade, quem se consagra ao apostolado das missões, abandona a pátria, a
família e amigos; aventura-se frequentemente numa viagem grande e perigosa, disposto
a suportar qualquer sofrimento afim de ganhar mais pessoas para Cristo. Se
esses têm um superior que os assistem em todas as circunstâncias com sincera
caridade, não há dúvida que a obra será frutuosa; de outro modo, provavelmente
ficará aos poucos abatido pelas contrariedades, terminará resignando-se ao
desespero e à inactividade.
Além disso, quem preside a uma Missão deve procurar dar-lhe
o máximo incentivo e desenvolvimento. Tendo-lhe sido confiado todo o território
da sua Missão, claramente ele deverá responder pela salvação de todos os
habitantes daquela região. Por essa razão não se deve contentar em ter
conquistado para a fé, entre aquela multidão, algumas milhares de pessoas:
procure cultivar e manter aqueles que ofereceu a Jesus Cristo, de maneira que
ninguém regresse ao caminho da perdição. Não acredite ter conseguido completar
o seu dever se antes não tiver colocado todas as suas forças na cristianização
também dos restantes que não conhecem Cristo, que é a missão maior.
Por isso, para facilitar sempre mais a pregação do Evangelho,
será de grande ajuda a criação de novos centros e nova cristianização que
depois darão lugar, por sua vez, de novos vicariatos e prefeituras, quando se
julgue oportuno de subdividir essa Missão. A este propósito, elogiamos aqueles
Vicariatos Apostólicos que, assim fazendo, contribuíram para o desenvolvimento
do Reino de Deus que, mesmo quando não encontram novos cooperadores na sua própria
Ordem, agradavelmente acolhem outras famílias religiosas.
Pelo contrário, seria reprovável aqueles a quem foi confiada
a Vinha do Senhor, a considerassem como propriedade exclusiva, com inveja que
outros a assumam.
Que grande responsabilidade teria de assumir diante do
eterno juiz, sobretudo se a sua pequena comunidade cristã – como acontece frequentemente
– quase perdida no meio de uma multidão e não tendo efetivos suficientes para a
catequização, se obstinasse a não pedir ajuda a outros colaboradores!
Pelo contrário, se há necessidade, o superior da Missão (que
deve ser diligente na glória de Deus e na salvação das almas), chame
cooperadores de qualquer lado que ajudem no seu ministério, sem se importar com
a Orem ou a nacionalidade, “para que de qualquer modo seja anunciado
Cristo”(4);
chame não somente cooperadores mas também cooperadoras para
as escolas, orfanatos, lares, hospitais, convicto que todas estas obras de
caridade são um meio muito eficaz nas mãos da providência divina para a
propagação da fé.
Para além disso, o superior da Missão não restringe a sua
ação ao seu território, desconsiderando o que acontece fora: quando for exigido
pelo amor de Cristo e pela Sua glória – a única coisa que verdadeiramente
interessa – procure estar em relação com os companheiros que estão ao lado, até
porque há muitas vezes interesses comuns a uma região, que não poderão ser bem
atendidos sem um comum acordo.
É muito vantajoso para a religião que os responsáveis das
Missões, podendo, tenham periodicamente reuniões para se aconselharem e encorajarem
mutuamente.
Por fim, quem preside à Missão deve endereçar as suas
principais forças na boa formação do clero indígena, sobre os quais repousam as
maiores esperanças nas novas comunidades cristãs. O sacerdote indígena, tendo a
cultura dos seus concidadãos, a natureza, a mentalidade e as aspirações, está
superiormente preparado para fomentar a fé nos seus corações, já que mais do que
ninguém conhece os caminhos certos para os persuadir. Acontece frequentemente
que eles conseguem chegar com maior facilidade onde o missionário estrangeiro
não consegue.
No sentido de conseguir os frutos esperados, é absolutamente
necessário que o clero indígena seja convenientemente instruído e educado. Não
é suficiente uma formação rudimentar para poder ser admitido ao sacerdócio mas
esta deve ser completa e perfeita, à imagem dos sacerdotes das nações mais desenvolvidas.
Em suma, não se deve formar um clero indígena como se fossem de classe
inferior, usado para as tarefas secundárias, mas de um nível que se encontre à
altura do seu ministério para que um dia possam assumir o governo da comunidade
cristã. A Igreja é universal e, por isso, nunca é estranha a qualquer lugar: é
conveniente que em cada nação existam sacerdotes capazes de apontar aos seus
concidadãos, como mestres e guias, para a salvação eterna.
Onde exista uma quantidade suficiente de clero indígena bem
formado e digno da vocação, então aí a Igreja poderá assumir-se como bem
fundada e completa a obra do Missionário. E se essa Igreja tiver de suportar
futuramente a perseguição, não teríamos de temer que, com aqueles fundamentos e
com aquelas raízes, essa sucumbisse aos assaltos do inimigo.
Na verdade, a Sé Apostólica insistiu sempre que esta tarefa
fundamental fosse bem entendida pelos superiores da Missão e levado a cabo com
todo o esforço: são prova disso os antigos e novos colégios fundados nesta
cidade para a formação dos clérigos de nações estrangeiras, sobretudo os de
rito oriental.
Apesar disso, ainda existem - infelizmente – regiões em que,
mesmo que a fé católica esteja implantada há séculos, somente se encontra um
clero indígena decadente. Do mesmo modo, existem muito poucos que tendo
atingido um alto grau de civilização a ponto de poder apresentar homens
admiráveis em vários ramos da indústria e da ciência e ainda assim, mesmo sob a
influência do Evangelho e da Igreja, ainda não têm Bispos próprios que os
governem, nem sacerdotes com capacidade de guiar os seus concidadãos. Isto
demonstra que na educação do clero destinado às Missões se continuam a usar métodos
frágeis e deficientes.
Prevenindo tal inconveniente, queremos que a Sagrada
Congregação da Propaganda da Fé tome medidas e disposições adaptadas para as
várias regiões; que se interesse pela fundação de seminários regionais ou
inter-diocesanos; vigiem de modo particular a formação do clero nos Vicariatos
e nas diversas Missões.»
Para ler na integra a carta apostólica do Papa Bento XV:
É precedida pela Carta de Papa Francisco
Continua...

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