«Quem vai matar, ou matou o Calvário, do Padre Américo?» - opinião do advogado e canonista Dr. José Nuno Pereira Pinto

O nº 1949 de O Gaiato, de 24 de Novembro de 2018, em Da Nossa Vida (Padre Júlio) lê-se e com o título O Nosso Calvário: “Está tudo vazio… Quando é que eles voltam?...” E segue-se o relato, quiçá dramático, prosseguindo: “Foi em nome de os retirar dos “perigos” (…), que foi cometido este acto contranatura e contra a vontade de todos, doentes e seus familiares, sem falar nos tutores que por eles se responsabilizam, que nos retiraram, até ao momento em que escrevo, 25 dos nossos doentes”.
Entenda-se, operação levada a cabo pela Segurança Social.
Esta entidade é uma poderosa instituição, quer pela sua orgânica e poderes que lhe são confiados, quer pelos poderosos fundos financeiros, em que se suporta. É um estado, dentro do próprio Estado.
Os advogados, que passaram ou passam pelos Tribunais de Família, conhecem essas senhoras drªs. da segurança social (!), pelos seus relatórios, pedidos pelos Tribunais de Família.
Muitos são de uma inquietante perversidade, pela incapacidade de análise de situações familiares, pela sobrevalorização de factores irrelevantes, pelo desconhecimento, tantas vezes, da mais elementar compreensão do que são as dificuldades do dia a dia, de tantos agregados familiares, a que havia de providenciar-se, no sentido da melhoria das suas condições de vida, o que, em geral, não acontece!!
E, precisamente, suportado em relatório de uma senhora drª. da segurança social (!), um senhor juiz decretou que cinco filhos fossem retirados a sua mãe — aqui, sim, um atentado contranatura — pois de mais um famigerado relatório constava que a cozinha, quarto de banho e demais instalações familiares não eram condignas para nele viverem.
Uma decisão destas apenas se entende, na natureza dessa omnipotente, neo-espartana segurança social, de um Estado, neste sector, totalitário, a quem interessa uma tal movimentação económica social.
É que, aquilo que o Estado devia fazer era conceder, de imediato, a essa família, uma habitação condigna. E não o fez! Porquê? Porque essas crianças iriam acrescer a muitas outras e, por via de tal, mais senhores drs. técnicos e senhoras drªs. da Segurança Social (!) seriam contratados…
Recordo uma notícia referindo que umas instalações da segurança social estavam prontas a receber 26 utentes jovens, entregues ao Estado, para sua reintegração —muitos dos quais sairão de lá, piores do que entraram!... — e que já haviam sido contratados 27 funcionários — os tais!… Repete-se, para 26 utentes! E os funcionários já recebiam seus vencimentos…”, por nada terem que fazer, pois não havia utentes!
O que importa é a tal movimentação económica-financeira!
O caso da Mãe e filhos acima referido, que indignou multidões, acabou com uma muito tardia entrega dos filhos à mãe, mas também com a condenação do Estado Português, pelo Tribunal dos Direitos Humanos Europeu, a pagar 15.000,00 € aos ultrajados Mãe e filhos.
Apenas, com este antelóquio, o leitor pode entender o que, de seguida, vou dizer.
Para quem assumir e perceber a teleologia que preside ao comportamento deste segundo Estado, que é a Segurança Social, logo concluirá da incapacidade desta para entender, por isso a rejeitar a pedagogia do Padre Américo e o espírito e especificidade do Calvário, movido, por essência, pela caridade evangélica!
Há, pois, razões profundas de carácter ideológico. Assim se compreende que, quando António Guterres nomeou Maria de Belém Roseira, para Ministra da Saúde, dois dias depois, o Grande Oriente Lusitano veio a terreno questionar se, com essa nomeação, se pretendia substituir a solidariedade, nos hospitais, pela caridadezinha cristã (sic).
E ainda se compreende a razão pela qual, no governo de Passos Coelho, saísse um decreto lei que determina, face ao tal desenvolvimento económico social que as épocas de crise geram (!), se uniformizassem os estatutos, quanto à orgânica e fins, de todas as IPSS, de forma a, por idênticos estatutos, convergissem para os mesmos objectivos.
E, como a omnipotente Segurança Social tem fundos fabulosos, para tudo e todos há subsídios! Até para as Misericórdias. Algumas já não Santas Casas…
Ora, a obra do Padre Américo sempre — que eu saiba — recusou-se a qualquer subsídio estatal — deste segundo estado. Logo, à partida, era uma questão de tempo, para dar o golpe.
Mas a Igreja ou entendeu os caminhos que as instituições levavam — mesmo as suas — e o preço que viria a pagar, por receberem — ou não entenderam, ou foi-lhe indiferente, ou aceitou.
Ora, o público, notório e profundamente lamentável é que a Igreja, os Bispos perceberam. E foram coniventes!
Agora, a magna questão: quem, afinal, quer matar ou matou O Calvário?
Não é, não foi o Estado, como dois colunistas, em Voz Portucalense de 12 de Dezembro 2018 dizem, acusando a Segurança Social.
Ironicamente, os ditos colunistas, ou não leram e, se leram, não relevaram, foi o que, na Voz Portucalense de 21 de Novembro de 2018, se escreveu.
A pág. 11: “O Cardeal Patriarca foi questionado sobre problemas ligados à Casa do Gaiato ou outras obras do Padre Américo, admitindo um “desentendimento”, entre a proposta original e a visão do Estado, em particular a Segurança Social”.
E, logo a seguir, o presidente da C.E.P. refere que a proposta do Padre Américo “contava muito com a participação dos próprios”, dos jovens, das crianças, dos doentes. “É uma metodologia que teve grandes méritos”, mas que não é hoje “a maneira de responder a essas necessidades”, acrescentou.
Estas palavras do Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, proferidas, no fim das sessões da mesma, não podem entender-se como uma posição meramente pessoal — e que o fosse! — mas sim dos bispos portugueses. É irredutível esta hermenêutica, quer se queira, quer não.
E resulta linear a posição daqueles, inexorável, como juízo de valor, de uma obra sublime: “desentendimento” entre a proposta original (do Padre Américo) e a visão do Estado, em particular da Segurança Social.
Em verdade, a omnipotente Segurança Social dita implacavelmente as suas regras. O que importa é controlo estatal, subjugando quem e o que não está em conformidade com o modelo social das IPSS, que também o são as Misericórdias, à troca do contributo estatal!
Não há lugar, neste esquema, para a caridade cristã, evangélica, de amor pelo próximo! Nem para o acolhimento de crianças, porque agora, tudo cabe à omnipotência da Segurança Social e dos relatórios das tais srªs. drªs.
Em breve, as Casas do Gaiato serão um deserto, a clamar em vão!
E o Calvário “contava muito com a comparticipação dos próprios…”. Mas, agora, tudo se passa a movimentar, pelos corredores sombrios de lares, com cuidadores (as), psicólogos, srª.s drªs da Seg. Social, mensalidades dos utentes, os que mais podem mais dão, em favor dos que menos tem… e… o contributo da Seg. Social, por cada utente… e quanto mais assalariados, mais ou menos mercenários — as excepções são raras — mais emprego… menos descompressão social… Este o grande objectivo!
Para quê, pois, uma instituição como a do Padre Américo, que se norteava por uma outra pedagogia, aliás defendida, em trabalhos científicos, assente na caridade cristã?!
Mas não era, afinal, esta a perspectiva dos Srs. Bispos??!
Por isso, é que o Sr. Patriarca proclamou: “É uma metodologia que teve grandes méritos (teve, passado irreversível) — “Mas que não é hoje — (ou seja, no presente) — “a maneira de responder a essas necessidades”(!!!).
E eis como estas palavras do porta voz, Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, — mataram a Obra do Padre Américo, mataram O Calvário!
Como é possível que alguém que tenha lido estas palavras, não as tenha entendido e vem à liça dizer lugares comuns, e não tenha coragem de denunciar o óbvio, que resulta destas mortais palavras do Senhor Patriarca de Lisboa?
Porquê o silêncio dos cristãos, perante a agonia e morte da Obra do Padre Américo, pela mão dos Bispos de Portugal? Por ter sido pelas mãos deles? E silencia-se?

José Nuno Pereira Pinto
(Professor, Advogado, Canonista)

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