Catequese sobre Eucaristia e Ecologia: Apresentamos no altar os frutos da criação e do trabalho humano para serem Corpo e Sangue de Cristo

«Creio em um só Deus, Pai todo poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis» - com este ato de fé na origem divina de tudo glorificamos o nosso Deus, origem, sustento e completa perfeição de tudo o que existe: «É nele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos» (Actos dos Apóstolos 17, 28).

Decidiu o Senhor Deus que as suas criaturas participassem do seu ser, sabedoria e bondade e assim usufruíssem da felicidade plena. Deste modo, toda a obra criadora é a casa de Adão e dos seus descendentes; sem o universo, Adão não existiria, e sem Adão, a Criação não seria muito boa (Génesis 1, 31).

Toda a criação, todo o universo são frutos do excesso do amor divino: bastaria uma fonte, uma flor, uma ave, mas Deus escolheu o caminho do excesso da criatividade e da beleza, pois queria alegrar o ser humano e enriquecê-lo com o dom da admiração, do encantamento dia após dia, toda a vida. 

E Deus não deixou nunca de estar em diálogo com o ser humano e de cuidar da criação: «Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as. […] Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam! […]  Deus veste assim a erva do campo» (Mateus 6, 26-29).

A criatividade divina inspira a nossa criatividade. 
Santo Irineu de Lyon (130-202) afirmou que Deus criou todas as maravilhas do universo e somente depois o homem, a quem presenteou com os seus dons maravilhosos. Também escreveu que a criação do ser humano é obra da Trindade Santa: foi obra das duas mãos do Pai, a Palavra e o Espírito.

A visão cristã da criação do Universo glorifica-o na sua dignidade, no seu fundamento e no seu destino: tudo foi feito pelo Pai por meio do seu Filho e para o seu Filho (Colossenses 1, 16) que é o herdeiro de todas as coisas e, por meio Dele, todas serão regeneradas para que Deus seja tudo em todos (1.ª Coríntios 15, 28).

Quando tudo estava pronto, Deus enriqueceu a sua obra com o homem e a mulher, e criou-os à sua imagem e semelhança para que a sua beleza ultrapassasse a de todas as criaturas. Tudo é obra divina, mas o ser humano é mais do que obra, inclui também a imagem divina. Somente o homem e a mulher podem contemplar plenamente toda a criação e, através dela, louvar o Seu autor.

Dotado de imagem e semelhança divinas, por meio da sua presença e do seu trabalho, o homem e a mulher colaboram com o Criador na transformação da fealdade em beleza, da confusão em ordem, refundando cada dia a obra divina.

Ecologia e Eucaristia
Tudo nos foi e é dado por Deus: o mundo, a vida, a relação com o Seu Filho, a Salvação, a Vida Eterna. 

Mas, quantas vezes, ao recebermos um dom acabamos por o destruir, em vez de o proteger, de nos servimos dele com respeito e com reverência a quem nos ofereceu e, mais ainda, a quem o criou?

Infelizmente, durante milénios, os animais e vegetais, o meio ambiente foram considerados como produtos ao serviço da vida das pessoas. E o resultado foi a deterioração da vida na Terra, por causa da nossa ação predadora, e os nossos maiores monumentos são os campos desertificados, os rios inquinados, os mares poluídos, as lixeiras que “enfeitam” cidades, vilas e campos, o ar envenenado...

Porém, o Criador oferece-nos continuamente a oportunidade de um grande ato penitencial, porque a tradição cristã não separa justiça e paz do cuidado da Criação. A exploração e o desperdício são pecado, pois destroem, fazem sofrer privações e hipotecam o futuro.

Devemos ao teólogo ortodoxo Ioannes  Zizioulas, metropolita de Pérgamo, o caminho tanto desse ato penitencial como da rejeição ao pecado da ingratidão diante da oferta divina: ele propõe a Eucaristia como verdadeiro caminho para a ecologia. Os dons apresentados ao Pai para a consagração eucarística são dons criados e não se restringem àquele pão e àquele vinho, mas levam consigo toda a criação e todo o trabalho humano. Pão e vinho são a totalidade da criação.

Deus aceita a oferenda, sobre ela envia o Espírito Santo e tudo se transfigura, torna-se Corpo e Sangue de Cristo. «Pelo mistério desta água e deste vinho sejamos participantes da divindade d’Aquele que assumiu a nossa humanidade», reza o sacerdote na apresentação das oferendas.

A cada Eucaristia a criação é santificada para que possa ser oferta agradável a Deus, oferta de ação de graças, pois não podemos oferecer a Deus o fruto de nosso consumismo, desperdício, uma criação devastada, desertificada, fruto da morte que nos habita e gera morte. O pão se torna o Senhor e o Senhor se faz Pão para a vida do mundo. Uma Eucaristia vivida no Deus Criador nos leva ao uso respeitoso e moderado da criação, faz-nos sacerdotes e guardiões da obra divina.

«Celebrando agora, Senhor, o memorial da morte e ressurreição de vosso Filho, nós Vos oferecemos o pão da vida e o cálice da salvação e Vos damos graças porque nos admitistes à vossa presença para Vos servir nestes santos mistérios.
Humildemente Vos suplicamos que, participando no Corpo e Sangue de Cristo, sejamos reunidos, pelo Espírito Santo, num só corpo», reza-se na Oração Eucarística II.

A criação é um dom de comunhão divina: um dom eucarístico. No pão e no vinho depositados no altar também incluímos os pecadores, os leprosos, os doentes, os famintos, os solitários, os estrangeiros, nosso evangelho e vivência do Evangelho. Tudo oferecemos para que tudo seja transfigurado pelo Espírito. E não oferecemos solitariamente: toda Igreja oferece connosco, a do céu e a da terra. Cada um de nós representa misticamente a totalidade da obra divina, pois Deus está em tudo e, pela comunhão, estamos em Deus.

O pecado original criou a ruptura do homem com o Pai e também a ruptura com a humanidade e a natureza. Mandando-nos celebrar a Eucaristia, o Senhor da redenção nos liberta da ruptura com Ele e transfigura e regenera a própria matéria pois «a criação espera com impaciência a revelação dos filhos de Deus» (Romanos 8, 19-20).

Comentários