Existe algo de divino na amizade?

Em todas as culturas humanas e no decorrer dos tempos, o Espírito Divino tem-Se manifestado de múltiplas formas e sob as mais diversas imagens.

Nas mais diversas tradições espirituais, as pessoas conhecem e adoram Deus como Pai, como Mãe, como Criador, como Libertador, e assim por diante. 

Entre todas as imagens por meio das quais o Amor Divino se manifesta nas nossas vidas, creio que a Amizade é uma das mais profundas e incitantes.

Na cultura vigente, valorizamos muito a família como sagrada e o amor conjugal como sacramento (isto é, como meio pelo qual Deus atua em nós e connosco). 

Todavia, parece que percebemos menos o caráter sagrado da amizade.

Há pessoas que confundem amizade com qualquer forma de coleguismo, companheirismo e bom relacionamento.

Eu aprendi...
Quando fui pela primeira vez a uma aldeia do povo bororo (ver perfil do povo bororo), desde o primeiro dia, estabeleci um bom relacionamento com um dos anciãos da aldeia. Umero era o seu nome. Gostava de ouvi-lo contar as histórias de quando ele era jovem e o seu povo ainda não tinha tantos contactos com os brancos. 

Gostava de ouvi-lo dizer como passava aos mais jovens os conhecimentos antigos. 

E tinha a impressão de que ele gostava de conversar comigo.

Um dia, combinámos encontrar-nos no dia seguinte. E ele perguntou-me:
- Onde nos encontramos? 
E eu naturalmente respondi:
- Pode ser na sua casa?
Ele olhou-me nos olhos e respondeu-me de modo muito simples:
- Quando eu e você nos tornarmos amigos, eu convido-o para a minha casa.

Para mim, nós já éramos amigos. Para ele, a amizade precisa de passar pela prova do tempo, da escolha de uma predileção que cresce lentamente.

É como diz O Principezinhode Saint Exupery: «Os homens querem comprar tudo em lojas. Como não há lojas de amigo, as pessoas não sabem mais ser amigas.»

Espiritualidade da Amizade 
De facto, na espiritualidade cristã da Idade Média, entre outros monges santos, Elredo de Rievaulx desenvolveu uma Espiritualidade da Amizade (De Spirituali Amicitia). Ele ensinava: «Irmãos temos de ser de todo a gente. Amigos, a gente pode e deve escolher e tem de escolher bem.»

[«A amizade é a glória dos ricos, a pátria dos desterrados, a riqueza dos pobres, a medicina dos enfermos, a vida dos mortos, a graça dos sãos, a força dos débeis e o prémio dos fortes. (...) E há algo que tudo supera: a perfeição consiste no amor e no conhecimento de Deus, e a amizade está junto dela como uma espécie de escada - de modo que o homem, de amigo do homem, sobe um infinito degrau e se torna amigo de Deus, conforme diz o Salvador no Evangelho: "Já não vos chamo servos, mas amigos”.»

Ou seja, não pode haver real amizade se não for em Deus e na verdade. Em suma, ou seremos amigos de Deus, para poder ser amigos dos outros, ou não seremos amigos de Deus nem de ninguém (nem de nós mesmos). Neste último caso, restar-nos-á apenas a angústia, a depressão, a solidão, as rixas e as taras mais acachapantes. Diz Elredo neste primor de tratado que é o De Spirituali Amicitia: «Está absolutamente só quem não tem amigos» (“Solus omnino est qui sine amico est”, cap. V). E poderíamos acrescentar: está sem amigos quem não procura Deus. Na sua época, em alguns ambientes cristãos, as pessoas faziam diante do altar um juramento de amizade que era tido como um rito sacramental e ao qual se devia ser fiel por toda a vida.]

Em meio das lutas da vida e a todo o caminho percorrido, agradeço a Deus os amigos e amigas que tenho e fico muito feliz de poder ver em cada um deles e delas o rosto afetuoso da Divindade. Agradeço tudo o que, no decorrer dos anos, sempre recebo deles(as). Peço a Deus a graça de poder também ser para eles e elas alguém que testemunhe o amor divino.

Marcelo Barros, monge: Amizade: rosto afetuoso de Deus

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