O padre António César Fernández, missionário salesiano, foi assassinado na África. Numa das suas cartas, aqui transcrita, testemunha o que o fez ser missionário

O padre António César Fernández, missionário salesiano, foi assassinado num ataque jiadista no Burquina Faso, no dia 12 de fevereiro. Tinha 72 anos. Era padre há 46. Com ele foram mortos quatro agentes alfandegários.

Segundo a congregação, o sacerdote, que trabalhava na África desde 1982 e vivia em Uagadugu, retornava de uma reunião em Lomé, capital do Togo, com outros dois religiosos, que sobreviveram ao ataque.

Numa carta às Obras Missionárias Pontifícias de Espanha por ocasião do Dia Mundial das Missões de 2013, o padre António dizia que «África é o sonho da minha vida» e convidava a rezar pelos missionários e pela evangelização no mundo. Na altura, era missionário na Costa do Marfim.

Eis a carta: 
«Quando era criança, gostava de ouvir os missionários que passavam pela escola salesiana de Pozoblanco (Córdoba). Tornei-me salesiano aos 17 anos. Eu gosto das missões. Como sacerdote na Espanha, organizámos missões nas aldeias da serra, com grupos de jovens. Depois de muita insistência, fui enviado para a África. É o sonho da minha vida: partilhar com quem tem menos. Partilho a minha vida, o meu trabalho, a minha vocação salesiana e sacerdotal.

Preocupa-me o problema da evangelização de tantas pessoas no mundo. Senti que a minha vida era na África. A congregação envio-me para o Togo com dois outros irmãos. Lá vivemos durante dois anos uma experiência única. Encontrámos uma missão a começar quase do zero. Creio que foi uma das experiências mais bonitas que vivi na minha vida. O meu sonho realizava-se.
Percebi, com o tempo, que não fui eu que dei, mas que foram as pessoas que me deram lições de humanidade, de religiosidade, de paciência, de partilhar. Aprendi muito. No início, senti-me um pouco D. Quixote e acreditava que irá redimir o mundo. Pouco a pouco, percebi que há apenas um Salvador, Jesus. E o que fazemos é colaborar com Ele, partilhar o que recebemos Dele. Ao partilhar, enriquecemos. Esta é a experiência da minha vida missionária.»

A carta refere as muitas necessidades que as missões têm: escolas, alfabetização, luta contra a doença, treinar pessoal autóctone, fazer novos trabalhos e reparar os antigos ...

«Quando vocês dão uma oferta para as missões, o que vocês estão a fazendo é beneficiar-se, enriquecer-se. Partilhar é isso. Sei que para muitos, como para mim, dar uma simples oferta sabe a pouco, vocês gostariam de dar a sua vida. Sei que muitos, jovens e idosos, desejam sinceramente viver essa experiência. Nem sempre é possível. Às vezes, vocês tem de apenas fazer uma oferta. Mas há pessoas sensíveis, que querem fazer algo pelos outros e com os outros. E essas pessoas são muitas. Provavelmente vocês estão entre elas. Parabéns! Você aí… eu aqui…, todos nós podemos responder ao chamamento do Senhor para tornar um mundo mais unido e mais reconciliado; abrir-se para horizontes mais amplos. E para estender a mão, sim para estender uma mão a tantas pessoas pobres que não têm meios, mas que podem enriquecer-nos com a sua pobreza, que nos dão lições, das quais temos muito a aprender.
Não parem de orar por nós e pela evangelização no mundo. O Senhor continua a inspirar missionários, religiosos, sacerdotes e leigos, voluntários, a partilhar a sua vida, a descobrir e viver em cada dia que é dado que quem o faz é enriquecido. Para experimentar a alegria de anunciar a todos que Deus o Pai nos quer a desejar algo com muita veemência, Sou um velho de quase setenta anos, mas com total vontade de continuar na missão. Enquanto o corpo resistir, aqui estamos!»

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