Papa Francisco e rabino Abraham Skorka prefaciam a “Bíblia da amizade”, comentada por um total de 50 judeus e cristãos

PREFÁCIO do Papa Francisco à Bíblia da Amizade:
A Bíblia da Amizade é um projeto atraente, mas muito desafiador. Estou bem consciente de que temos para trás dezanove séculos de anti-judaísmo cristão e que algumas décadas de diálogo são muito pouco em comparação.

Contudo nos últimos tempos muitas coisas mudaram e outras ainda estão a mudar. É preciso trabalhar com mais intensidade para pedir perdão e para reparar os danos causados pela incompreensão. Os valores, as tradições, as grandes ideias que identificam o Judaísmo e o Cristianismo devem ser postas ao serviço da humanidade, sem jamais esquecer a sacralidade e a autenticidade da amizade.

A Bíblia faz-nos entender a inviolabilidade destes valores, uma premissa necessária para o diálogo construtivo.

Contudo a melhor maneira de dialogar não é apenas falar e discutir, mas fazer projetos realizando-os junto com todos aqueles que têm boa vontade e respeito mútuo na amizade. Há uma rica complementaridade que nos permite ler juntos os textos da Bíblia hebraica, ajudando-nos reciprocamente a desentranhar as riquezas da Palavra de Deus. O objetivo comum será o de sermos testemunhas do amor do Pai em todo o mundo. Para o judeu como para o cristão, não há dúvida de que o amor a Deus e ao próximo resume todos os mandamentos. Portanto judeus e cristãos devem sentir-se como irmãos e irmãs, unidos pelo mesmo Deus e por um rico património espiritual comum, sobre o qual se basear e continuar a construir o futuro.

É de vital importância, para os cristãos, descobrir e promover o conhecimento da tradição judaica para poderem compreender autenticamente a si mesmos. Até o estudo da Torá é parte deste compromisso fundamental. Por isso quero confiar o vosso caminho de pesquisa às palavras da invocação que cada fiel judeu recita diariamente ao fim da oração do amidah: "Que sejam abertas as portas da Torá, da sabedoria, da inteligência e do conhecimento, as portas do alimento e do sustento, as portas da vida, da graça, do amor e da misericórdia e do agrado diante de Ti."

Desejo que se continue no caminho com perseverança e invoco a bênção de Deus sobre todos.


PREFÁCIO do rabino Abraham Skorka à Bíblia da Amizade

Embora a Bíblia seja considerada como um texto sagrado por três das principais religiões na história da humanidade, a sua interpretação foi causa de discórdias, de debates e, por fim, de rancores e ódios que levaram a todo o tipo de perseguições e assassinatos.

Durante a Idade Média foram organizado debates entre judeus e cristãos, como os famosos debates  de Paris (1240), de Barcelona (1263), de Ávila (1375) e de Tortosa (1414), durante os quais a Palavra de Deus nas mãos dos homens gerou mais rancor do que compreensão. A arrogância e a cegueira intelectual e espiritual fizeram crer a muitos que a verdade interpretativa, única e absoluta, estava nas suas próprias mãos e que deveriam impô-la aos outros.  Os citados debates eram, como se deduz do vocabulário com que ficaram registados na História, conflitos entre argumentos intelectuais dos quais tinha sido expulso o Deus vivo, que era substituído – no melhor dos casos – por um Deus como conceito, cuja essência se supunha fosse conhecida profundamente pelos polemistas. A imagem que a Bíblia nos revela sobre Deus é diametralmente oposta.

Há muitos versículos da Bíblia hebraica nos quais aparece a expressão "Deus vivo", como caraterística essencial do Ser supremo no qual o homem deposita a sua fé (Dt 5, 22; 1 Sm 17, 26.36; Jr 23, 36). Mas, em Jeremias (10, 10), o profeta descreve Deus dizendo: "O Senhor Deus é verdade, Ele é Deus vivo", de onde se deduz que o Deus da verdade se revela na própria dinâmica da existência. 

A divindade, na qual os pagãos depositam a sua fé, é um ente estático, que age de maneira mecânica, indiferente às vicissitudes de cada ser humano. O Deus da Bíblia pode mudar a sua disposição de acordo com o comportamento humano, não age como um programa de computador, Ele dialoga com os homens porque é sensível ao seu comportamento e às suas vicissitudes. 

O homem nunca pode se arrogar o saber sobre a percepção de Deus sobre os homens e as suas circunstâncias, porque Deus não é estático, mas muda de acordo com o diálogo que se vai desenvolvendo com os seres humanos, com as suas reações e as suas atitudes, como se deduz da história do profeta Ḥananyah (Ananias) ben Azur em Jr 27-28. Yirmyahu (Jeremias), que tinha recebido a ordem de Deus para proclamar uma determinada mensagem, fica desconcertado com a mensagem de outro profeta que proclama a antítese da sua. Somente depois de voltar a consultar Deus, ele replica a Ḥananyah dizendo que a sua mensagem é falsa: Deus pode ter mudado de opinião. É um Ser dinâmico, e nenhum ser humano, ainda que seja profeta, é senhor do conhecimento íntimo da vontade divina. Foi por isso que Yirmyahu voltou a consultar a palavra de Deus1.

O diálogo entre o homem e Deus, através do qual o primeiro entrevê um reflexo de seu Criador, pode ser "pleno". Assim foi quando o povo, que se encontrava junto ao Monte Sinai, diante da proposta de Deus para aceitar um pacto com as normas éticas que iria revelar, respondeu: "Tudo o que o Senhor disse, faremos e ouviremos" (Ex 24, 7). O contrário acontece quando Deus adverte o povo de Israel, "Esconderei o meu rosto [do povo de Israel] naquele dia, por todo o mal que ele fez, voltando-se para outros deuses" (Dt 31, 18).

Através deste diálogo entre o celeste e o terrestre foi revelado ao homem no texto bíblico o que Deus espera da conduta dos indivíduos, mas a verdade última do seu operar em relação às suas criaturas e o sentido da existência das mesmas é um mistério desconhecido por todos os homens. O livro de Yov, ou Job, e várias passagens bíblicas são claros a respeito2.  A presença do Criador deve ser procurada pelo homem dia após dia, momento a momento. É muito mais do que um conceito ou uma ideia.

O desenvolvimento do conhecimento humano revelou os limites do pensamento filosófico que aspira a incluir Deus como a última das ideias a serem compreendidas. Martin Buber desenvolveu uma crítica bem fundamentada de tais estruturas intelectuais, que expõe nos ensaios reunidos no livro ‘Eclipse de Deus’3 . Ele explica que uma ideia nada mais é do que a imagem de uma imagem. Quando a mente elabora uma ideia, segundo Buber, cria uma imagem que, em última instância, é material. Ao confinar Deus nos limites de uma criação intelectual estamos, portanto, transgredindo subtilmente o mandamento do Decálogo que nos proíbe de fazer qualquer imagem, inspirada em coisas materiais, que represente Deus. A Sua presença, portanto, deve ser buscada na própria existência: nas mensagens subtis que a natureza nos oferece (Sl 19) e na busca de si mesmos e do próximo.

O Papa Francisco desenvolveu na sua vida esta visão, no seu diálogo particular e específico com Deus e com o povo. Do seu ponto de vista, fundado na fé em Cristo, ele entende que a interpretação dos textos bíblicos por parte dos estudiosos judeus, em vez de levar à contraposição, serve para esclarecer e compreender com mais profundidade os próprios textos.

O parágrafo de Nostra Aetate no qual se esclarece que Deus mantém o seu pacto com o povo judeu, que nunca foi abolido, foi sem dúvida para Bergoglio a base teológica para procurar no diálogo com os judeus uma complementaridade que lhe permite alcançar uma visão íntegra da sua própria fé, como ele mesmo escreve na sua Exortação apostólica Evangelii gaudium: "Deus continua a operar no povo da Antiga Aliança e faz nascer tesouros de sabedoria que brotam de seu encontro com a Palavra divina. Por isso também a Igreja se enriquece quando acolhe os valores do judaísmo. Embora algumas crenças cristãs sejam inaceitáveis ​​para o judaísmo, e a Igreja não possa renunciar a anunciar Jesus como Senhor e Messias, há uma rica complementaridade que nos permite lermos juntos os textos da Bíblia hebraica e ajudarmo-nos  reciprocamente a desentranhar as riquezas da Palavra, bem como a compartilhar muitas convicções éticas e a preocupação comum em prol da justiça e do desenvolvimento dos povos" (249).

A teologia de Francisco é fortemente pragmática. A religiosidade, na sua visão, que partilho, não pode ser confinada essencialmente às academias, à meditação e à elevação espiritual. Estas servem para a formação do "combustível" com o qual deve ser iluminada a vida do simples indivíduo na sua luta diária para viver com dignidade.

Isto se deduz do quadro bíblico que se repete de geração em geração, quando Deus confia uma missão específica a cada um dos profetas. Estes eram indivíduos com um alto grau de espiritualidade, e Deus poderia dizer-se satisfeito com a sua mera presença no seio da humanidade; mas o ideal bíblico é que toda a sociedade tenha um nível de espiritualidade elevado. O imperativo está no plural: "Sereis santos" (Lv 19, 2).

O primum vivere deinde philosophari (NdT: locução latina que significa "primeiro viver, depois filosofar") é a antítese da proposta bíblica, porque esta traz um ensinamento sobre o saber viver com dignidade. Estuda-se a Bíblia para saber como agir na vida. O ato reflexivo encontra-se ligado indissoluvelmente à ação e à própria existência. O estudo da Bíblia está unido ao compromisso que o seu leitor assume com as ações que realiza, com os ‘miṣwot’ (mandamentos), os preceitos.

Os debates, como os que ocorreram no passado, surgem quando a ação é dissociada do ensinamento que leva ao diálogo e ao respeito mútuo.

Deve ter sido um diálogo fortemente empático o que pavimentou o caminho para chegar a este tempo, em que se imprime uma Bíblia da Amizade. Um diálogo que permitiu a cada uma das partes compartilhar um reflexo de si mesma na outra.

As incompreensões surgem geralmente devido às barreiras que uns erguem para não verem a condição humana do outro. Yehudah Amiḥay, um poeta judeu geração que fundou o Estado de Israel, nasceu numa família praticante, teve uma educação religiosa, mas a Shoah e a guerra de Independência provocaram uma reviravolta na sua vida. Ao analisar as suas poesias, sinto a sua desesperada interpelação ao Deus no qual, lhe fora ensinado, que devia depositar a sua fé.

Ele deixou a observância, mas não os valores propostos na Bíblia; por isso, ao ler a sua poesia ‘Jerusalém’, descobrimos o sentido profundo daquilo que acabamos de escrever acerca das as barreiras que uns erguem para não verem a condição humana do outro.

O poeta escreveu4:
No terraço,
na cidade velha,
está pendurada a roupa lavada
à última luz do dia.
O véu branco de uma minha inimiga,
o lenço de um meu inimigo
que ele usou para enxugar o suor da testa.
E no céu da cidade velha
voa uma pipa
mas no fim da linha há uma criança
que eu não vejo por causa do muro.
Nós agitámos muitas bandeiras
eles agitaram muitas bandeiras
para que pensássemos que estavam felizes
para que  pensassem que estávamos felizes.

É isso que Jerusalém representa para ele: para além do seu nome e da sua história de santidade e de espiritualidade, o desafio atual é que a história tenha uma continuidade no presente. Que os seus habitantes descubram uns nos outros a condição humana que compartilham. Talvez – e esta seria a questão central que ensombrava Amiḥay – seja a dramática dissociação entre a Jerusalém celeste e a terrestre, entre a cidade que deve convocar todos os povos à paz (vejam-se os profetas Yeshayahu/Isaías, Mikhah/Miqueias, Zekharyah/Zacarias) e a realidade de discórdias do presente.

A Bíblia deve ser lida para inspirar seus leitores a delinear o próprio presente e a projetar o futuro. As exegeses que nos ligam às gerações passadas permitem uma sua compreensão profunda, mas ao mesmo tempo são testemunhos de leituras dos tempos passados. A nova exegese, juntamente com a académica, deve apresentar a visão existencial do presente e dar modelos projetivos para o futuro.

O rabino Abraham Yoshua Heschel, no seu livro O homem não está só, cunhou uma frase muito significativa, que sintetiza magistralmente o acima exposto: "A Bíblia não é uma teologia do homem, mas uma antropologia de Deus"5. É o Santuário indestrutível cujos preceitos são, conforme expresso nas orações diárias, "a nossa vida e a duração das nossas vidas".

É o texto que Deus recomendou a Yehoshua (Josué 1.8) que mantivesse em mente e meditasse dia e noite; preceito que o povo judeu interpretou que se deveria estender a todos os seus membros e por todos os tempos (veja-se  a exegese do rabino David Kimḥi ad locum). Um dos sábios da Mishnah afirma: "Procura nela e procura-a de novo [a Torah], porque tudo se encontra nela" (Avot 5,24).

Nos tempos da grande revolta contra Roma, durante o reinado de Adriano, foi proibido aos mestres ensinar a Torah. Os opressores pretendiam destruir a identidade judaica proibindo a sua transmissão e formação. O rabino Ḥananyah ben Teradion desafiava o opressor ensinando a Torah em público. Os romanos prenderam-no, puseram-no sobre uma pira, envolveram o seu corpo com o rolo da Torah com o qual ele ensinava. E acenderam o fogo. No momento de maior dor, os seus alunos perguntaram-lhe: "Mestre, o que vês?" O rabino respondeu-lhes: "Vejo os pergaminhos que ardem e as letras que saltam voando no ar" (Avodah Zarah 18a). Muitos rolos da Torah tiveram o mesmo destino durante os quase dois milénios seguintes, como outros escritos sagrados: as letras subiram, voando ao céu, junto com os gritos dos que foram imolados com elas, mas chegaram às nossas mãos. Esta Bíblia da Amizade pretende recolhê-las e plasmá-las num texto que possa ser lido e analisado num diálogo franco, em que cada um se esforce para entender o outro.

Desde os dias da história quando foi construída a Torre de Babel, a arrogância humana prevaleceu sobre aquela humildade que Deus esperava como atitude das suas criaturas, como explicado magistralmente por Umberto Shemuel Cassuto6. Foram, a incompreensão da língua do outro e a arrogância de considerar que a própria língua é a única apropriada, algumas das causas que levaram ao fracasso daquele projeto nefasto. A antítese desta história encontra-se, segundo Cassuto, em Sofonias (3, 9-11), onde lemos: "Então transformarei a língua dos povos numa língua clara, na qual todos gritem o Nome do Senhor, para servi-lo, um ao lado do outro". É um versículo que resume a essência deste Prefácio à Bíblia da Amizade, e que esperamos que saiba inspirar o estabelecimento de uma linguagem de entendimento universal que sirva, por sua vez, como um dos alicerces na construção de uma realidade melhor.

NOTAS:
1 Martin Buber desenvolveu magistralmente este conceito no seu ensaio «Nevyie sheqer», em Darko shel Miqra, Instituto Bialik, Jerusalém 1978, 119-122.

2 Cf. Jr 12,1-5 (ver em particular a exegese de Davi Kimhi do v. 5, Ab 2: 1-4.3).

3 M. Buber, L’eclissi di Dio. Considerazioni sul rapporto tra religione e filosofia, Edizioni di Comunità, Milano 1983. (Edição em português: M. Buber, Eclipse de Deus. Considerações sobre a relação entre religião e filosofia. VERUS EDITORA, 2007, ndt).

4 Tradução italiana do hebraico tirada do artigo de F. Bianchi, "“Un porto sulla riva dell’eternità”. Gerusalemme nella poesia di Yehuda Amichai",[Um porto  na orla da eternidade.Jerusalém na poesia deYehuda Amichai]. Orientalia Parthenopea 11 (2011) 91-112, aqui 94.

5 A.J. Heschel, L’uomo non è solo. Una filosofia della religione, Rusconi, Milano 1987. (Abraham Yoshua Heschel – O homem não está só. Uma filosofia da religião. São Paulo. Paulinas. 1974 ndt).

6 U. S. Cassuto, A Commentary on the Book of Genesis. From Noah to Abraham. (Um Comentário sobre o Livro do Génesis. De Noé a Abraão), Magnes Press, Jerusalem 1959, 154-158.

Tradução de Orlando Almeida. 
Textos, na íntegra, dos Prefácios do Papa Francisco e do rabino Abraham Skorka, e a lista dos colaboradores, aqui:

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