«Tenho a perceção de que convivi com dois santos "pescadores de homens", porque procuraram viver a sua fé no seu quotidiano e desta forma, fizeram bem à minha fé»
Santos Pescadores de Homens (os meus…)
Ao ouvir Jesus dizer a Pedro «Não temas. Daqui em diante serás
pescadores de homens», o meu pensamento centrou-se em dois santos com quem
convivi, dois missionários monfortinos: o padre holandês Jan Gerardus Leistra,
ou padre João Baptista para os portugueses, e o padre italiano Gerolamo
Bellini.
O Papa Francisco na Gaudete et Exsultate, fala da
"santidade da porta ao lado". Um conceito que resumo-o assim: a
santidade, que é dom do Espírito, está presente na vida das pessoas quando
estas, com fé, vivem a sua vida, com as suas alegrias e as suas dores,
deixando-se plasmar pelo sopro do Espírito. Foi isto que eu vi nestes dois
sacerdotes que foram meus formadores no seminário. O primeiro, no seminário
menor em Fátima e depois no Maior em Lisboa e o segundo como meu Mestre de
Noviços em Santeramo in Colle, Bari.
Não pretendo
"canonizar" ninguém pessoalmente só porque estou ligado afetivamente,
mas tenho a perceção de que convivi com dois santos porque procuraram viver a
sua fé no seu quotidiano e desta forma, fizeram bem à minha fé. Aliás, estou-lhes
profunda e eternamente agradecido. Muito do que sou, devo-o a eles.
O padre Bellini, por ser de
Bergamo, terra do Papa João XXIII, muitas vezes o citava nas suas conversas e
lembrava-me constantemente – algo que via que ele mesmo procurava ser – que
nenhum bom pastor é dono dos irmãos, mas seu servidor. Ninguém deveria ser
excluído do nosso coração. Deveríamos "contar as ovelhas uma a uma,
fazendo sentir a cada uma como única aos nossos olhos".
De facto, na convivência com
estes dois missionários, sempre me senti único. Curiosa formação que, apesar de
ser a mesma para todos, nos tratava a cada um como seres amados por Deus na
nossa individualidade. Foram capazes de me testemunharem uma Igreja fiel ao
estilo de Jesus. Como nos escreveu o teólogo Christoph Theobald: «Uma Igreja
fiel ao estilo de Jesus não deve apresentar-se como uma instituição detentora
de um sistema de dogmas para ensinar o mundo, mas como um espaço aberto, onde
os crentes na sua individualidade têm a oportunidade de encontrar o seu centro
e exercitar a liberdade de fazer emergir a presença de Deus que já vive sua
existência. Portanto, os cristãos devem buscar a manifestação de Deus, própria
de toda religião, cultura e pensamento, em vez de assumir atitudes de mera
desvalorização e condenação.»
A atitude destes
misericordiosos sacerdotes da Companhia de Maria, sempre se pautou por fazer
despertar em mim e naqueles que com eles conviveram a imagem e semelhança de
Deus que no habita desde o nosso nascimento. Portanto, mais de que um permanecer
no erro e na culpa, um recomeçar na graça e no amor de Deus, que deu a sua vida
por nós.
Santa Catarina de Sena no seu Diálogo da Divina Providência define os
sacerdotes como Administradores do Sol «Dei a estes a tarefa de administrar o
Sol…, o Corpo do meu Filho! Este Corpo é um Sol, porque é um só comigo, que sou
o verdadeiro Sol» (Diálogo 110). Não tenho dúvidas que estes dois formadores,
como verdadeiros administradores, sempre me encaminharam para Jesus Cristo
através da sua palavra e do seu exemplo.
Estes santos do quotidiano,
foram de facto, verdadeiros Pescadores de homens.

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