Desde o movimento de Jesus e em toda a história do
Cristianismo, as mulheres têm atuado nas Igrejas marcando um diferencial frente
ao mundo androcêntrico, mesmo quando as barreiras lhes foram praticamente
intransponíveis.
Os escritos do Novo Testamento mostram que Jesus subverteu o
patriarcalismo da sociedade e da religião do seu tempo, ao solidarizar-se com
as mulheres e incluí-las no seu projeto, de modo vital, em condição de
igualdade e reciprocidade. Mulheres enfermas, encurvadas e excluídas, na
proximidade dele, tocadas e libertadas por ele, puderam levantar a cabeça,
recuperar a sua palavra e dignidade, louvar a Deus. Não faltaram as que se
tornaram suas discípulas e até se fizeram sustentáculo da sua missão dedicada
ao Reino de Deus. Isso aparece no evangelho de Lucas (7,36-50; 8,1-3;
13,10-17), que também realça o profetismo da Mãe de Jesus no seu canto Magnificat (1,46-56).
Essa práxis de Jesus continuou na caminhada dos discípulos e
das discípulas dele. Por isso, o Cristianismo não fazia diferenciação entre
senhores e escravos, dominadores e dominados. Então, na Igreja primitiva abriu-se
espaço para a atuação das mulheres, sem nenhuma inferiorização em relação aos
homens.
A comunidade do discípulo amado, a do Evangelho de João,
tinha alta consideração para com as mulheres, vistas como paradigma do discipulado
e do seguimento de Jesus. O encontro de Jesus com a samaritana (João 4) é um
encontro de iguais, que derruba todas as barreiras sociais, sexistas, culturais,
raciais, étnicas e religiosas. A mulher é sujeito atuante. Ela supera o velho
projeto da estrutura judaica esvaziada de profetismo, hierarquizada numa
pirâmide patriarcalista, legalista e excludente, e parte para o novo projeto
inaugurado por Jesus.
Como testemunham os evangelhos, a práxis de Jesus liberta do
jugo os pobres e oprimidos e torna possível a plena dignidade das mulheres. Assim,
a mulher foi aceite na Igreja dos primórdios como discípula, apóstola, diácona,
fundadora e dirigente de comunidade, e no exercício dos diversos ministérios. A
sociedade machista e fortemente militarizada do império romano ia sendo
subvertida, de baixo para cima, por um modo de relações sociais fraternas e
igualitárias.
Enfurecidas, as autoridades do império perseguiam e
martirizavam a muitos membros das comunidades cristãs, mas não se abalava a
convicção bem formulada pelo apóstolo Paulo: “Não há mais diferença entre judeu
e grego, entre escravo e homem livre, entre homem e mulher, pois todos vocês
são um só em Jesus Cristo” (Gl 3,28).
É ainda Paulo quem reconhece o mérito de muitas cristãs
proeminentes que, inclusive, eram suas companheiras de missão. Podemos ver isso
na sua carta aos romanos (16,1-16). Entre as pessoas às quais ele saúda
agradecido, é um pouco maior o número de mulheres: Prisca, Febe, Trifena,
Trifosa, Júnia, Pérside, Maria, Júlia. Na saudação a Priscila e Áquila, casal
cooperador de Cristo a ponto de arriscar a cabeça pela vida do apóstolo dos
gentios, ela é nomeada antes do marido. Uma especial saudação é dirigida a
Febe, diácona em Cencréia e portadora dessa carta, com recomendação de Paulo
para que a comunidade de Roma a receba “no Senhor”. Júnia, a quem Paulo chama apóstola
e notável entre os irmãos, é saudada também como sua companheira de prisão,
juntamente com Andrónico. Cerca de três séculos depois, o Pai da Igreja São
João Crisóstomo afirmaria a respeito de Júnia: “Quão grande era a devoção dessa
mulher que recebeu o privilégio de ser chamada apóstola!”
Infelizmente, o processo de patriarcalização começou cedo na
Igreja Cristã. A própria redação dos textos do Novo Testamento recebeu
influência das tendências androcêntricas, isto é, centradas na pretensão de
supremacia do sexo masculino. Isso explica, por exemplo, porque a liderança de
Maria de Magdala entre os apóstolos foi silenciada, e porque a memória dela foi
passada para a posteridade como “a pecadora arrependida”.
Passados os três primeiros séculos, no Cristianismo havia
todo um clima desfavorável à mulher. Muitas energias eram gastas no combate às
heresias, sendo que diversos movimentos considerados heréticos tinham liderança
de mulheres. Além disso, nem sempre a Igreja Cristã foi suficientemente forte na
sua longa luta contra o falso ascetismo, as correntes gnósticas
espiritualizantes e o maniqueísmo, que desprezavam a sexualidade, o matrimônio
e as realidades terrenas. A mulher foi sendo vista como impura, sedutora,
perigosa.
A Igreja solidificou a sua estrutura de cristandade e
império cristão. Com os ministérios clericalizados e concentrados nas mãos dos
homens da hierarquia, estabeleceu-se a diferenciação dos batizados entre clérigos
e leigos. As pessoas do laicado, submetidas às do clero, excluídas do exercício
ministerial e do acesso às instâncias consideradas sagradas, foram deixadas na
passividade. Mais marginalizadas foram as mulheres, que sempre sustentaram no
seus ombros a vida da Igreja.
O segundo milénio do Cristianismo assistiu a divisões e
cismas e à emergência de uma crescente pluralidade de Igrejas. Mesmo em Igrejas
que buscaram voltar às fontes e recuperar o sacerdócio de todos os crentes, a
mulher continuou geralmente discriminada, estigmatizada como fonte de pecado e
necessitada da tutela autoritária dos homens. Porém, nunca faltaram cristãs ativas
que ultrapassaram barreiras.
Nos séculos XVI e XVII, corajosas e santas mulheres
lançaram-se em iniciativas revolucionárias dentro da vida religiosa consagrada.
Teresa de Ávila, que viveu e irradiou a profundidade da sabedoria e da mística
cristã, fez a reforma do Carmelo. Em 1970, o Papa Paulo VI a declararia doutora
da Igreja, ao lado de Agostinho e Tomás de Aquino.
Outras, com a sua inteligência e carisma entenderam que,
para servir às pessoas mais pobres e excluídas, era importante romper com a
obrigação da clausura e do hábito religioso, morar com as suas casas no meio do
povo e não em conventos, seguir uma regra mais flexível para se adaptarem às
necessidades da missão junto aos mais necessitados. Podemos lembrar Ângela de
Merici, Mary Ward, Joana Francisca de Chantal, Luísa de Marillac, entre outras.
Porém, homens da hierarquia católica frearam a sua originalidade e as obrigaram
a voltar aos padrões da vida religiosa tradicional.
São muitas as mulheres cristãs que fizeram história
valendo-se do processo das revoluções modernas. Já no século XX, Edith Stein,
que como freira carmelita chamou-se Teresa Benedita da Cruz, fazia conferências
feministas chamando cada mulher a ser “acima de tudo, dona de si e do próprio
corpo para que sua personalidade esteja sempre pronta a servir em cada
necessidade”.
A humanidade enriqueceu-se da práxis transformadora de
muitas mulheres, também através de movimentos e organizações, como a Ação
Católica. Teólogas destacadas passaram a atuar, acompanhando o movimento
feminista na esfera social e contribuindo para a humanização das relações
sociais em suas Igrejas.
Na América Latina, inúmeras mulheres, leigas e de vida
consagrada, arriscando sua vida pelo Evangelho, dedicam-se à promoção humana de
forma integral. Lembramos Rigoberta Menchú Tum, da etnia maia-quiché, na
Guatemala, que em 1992 recebeu o Prêmio Nobel da Paz pela sua luta em defesa
dos Direitos Humanos. Lembramos também a brasileira Zilda Arns Neumann, médica
pediatra e sanitarista, irmã do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns. Ela fundou a
Pastoral da Criança em 1983, a partir do trabalho que desenvolvia junto aos
boias-frias do Paraná.
Na Igreja Católica é evidente a positiva contribuição
feminina na pastoral de conjunto, os organismos de coordenação e articulação,
no ensino de teologia e noutras frentes. Mas o acesso de mulheres aos
ministérios ordenados continua negado. Já noutras Igrejas são aceites mulheres
presbíteras e até mesmo bispas, como é o caso da Igreja Anglicana.
Muitas questões desafiantes permanecem e elas têm de ser
tratadas com maior profundidade, como propõe o Papa Francisco. Com seu programa
de reforma na Igreja Católica, ele se tem pautado na igual dignidade de
mulheres e de homens para tomar iniciativas favoráveis a “uma presença feminina
mais incisiva na Igreja” (Evangelii
Gaudium 103-104).
No Cristianismo continuamos a fazer história. E é preciso
dar novos passos para alcançarmos justiça e fraternidade nas relações de género.
É tarefa de mulheres e homens unidos e em comunhão.
Maria Cecília Domeci, em Agenda Latinoamericana 2018
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