«Não há dor no mundo que não tenha a solidariedade de um Cireneu», um conto bíblico premiado no Chile

Simão de Cirene, o Cireneu. Todos os Evangelhos falam dele: Mateus (Mt 27, 32); Marcos (Mc 15, 21); Lucas (Lc 23, 26); João (Jo 19, 17).

Nascido em Cirene, Norte de África, este homem leva uma vida de trabalho nos campos próximos de Jerusalém. 

«Ele lavra a terra. Primeiro acaricia-a, preparando-a para a sementeira. Depois deita à terra a semente que irá tornar-se pão. E espera. A cada lua nova ele sai para contemplar o milagre da vida: nascem os brotos assim como nasceram os seus filhos Alexandre e Rufo (Mc 15, 21). Ele trata-os com idêntica ternura. Todos são sangue do seu sangue. Abraça a sua mulher como se quisesse abraçar o mundo inteiro, todo o espaço planetário, com os seus montes altos e os seus vales verdes. Para ele tudo era divino.

Mas uma tarde em que retorna contente da sua labuta de lavrador, vê-se obrigado a ajudar um condenado à morte: os soldados empurram-no, e colocam sobre os seus ombros largos a cruz que Jesus Cristo já não pode sustentar.

Simão de Cirene converte-se assim num acompanhante do Homem das Dores, de Deus, Senhor da Vida, que carrega em si a dor do mundo.

O homem que vai ser crucificado agradece-lhe do fundo da alma humilhada e do seu corpo rasgado aquele gesto solidário.

E o lavrador, no caminho ao Calvário, descobre que ajudar um homem é mais importante que arar a terra. 

Porque, assim como o crescimento do seu trigo é uma dádiva que Deus pede à terra, fecundada e alimentada por sóis e chuvas, assim a ajuda àquele martirizado só pode ser dada por outro homem, é essa a vocação recebida de Deus.

A partir de então, Simão de Cirene nunca mais conhece descanso. O homem da cruz dá-lhe, em agradecimento, o dom de ter sempre um coração solidário.

Desde aquela hora, ele anda por todos os caminhos da terra lançando sementes de esperança. Não há dor no mundo que não tenha a solidariedade de um Cireneu:
- Os que se fazem ao mar em busca de Lampedusas; os que se esquivam dos muros nas fronteiras; os que têm de abandonar a sua terra, o céu e a sua cultura; os que são rejeitados  pelo sistema que encobre ditaduras e ampara os predadores de pessoas e paisagens; os que são vistos com suspeita ou escárnio por pertencerem a minorias religiosas, sexuais, culturais... podem encontrar um Cireneu.

Desde então, Simão não tem pátria, nem religião, nem condição social, política ou cultural. Tampouco tem idade ou nome próprio: uma vez chamou-se Antonio Montesino; outra, Teresa de Calcutá. Umas vezes foi estrela de cinema; em outras, médico dos povos pobres. Foi contagiado por ébola na África e sempre ressuscita convertido no vizinho solidário, em mulher que acolhe as crianças de rua como se fossem suas. Vive em todas as fronteiras onde os comensais da grande mesa dos opulentos encurralam os que têm fome. Visita os encarcerados e acompanha os funerais dos que morrem sozinhos.

Todos os que têm olhos para ver e ouvidos para escutar podem dar testemunho deste lavrador convertido em irmão. Nos nossos países latino-americanos e caribenhos ele foi visto percorrendo ruas, entrando nas favelas, abraçando os doentes, defendendo os que a injustiça institucionalizada de nossas democracias formais persegue e condena.

Simão é jovem e velho, é mulher e homem, é sábio e ignorante, é do norte e do sul, é famoso e desconhecido. E como pensa na vida dos outros ao invés dos seus próprios interesses, até pode ter se esquecido que esse dom da solidariedade é devido a um homem que encontrou no seu caminho: foi quando voltava do campo e uns soldados colocaram a cruz do condenado à morte às suas costas.

Agustín Cabré, de Santiago do Chile, vencedor do Concurso de Páginas Neobíblicas 2016, em Agenda Latinoamericana 2016

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