Phyllis Zagano e Bernard Pottier, sj, têm feito investigação
sobre o diaconado feminino e pertenceram à Comissão que o Papa Francisco nomeou
para estudar o assunto. Vieram a Portugal lançar um livro e deram uma
entrevista ao Ponto SJ.*
Phyliss Zagano é investigadora, na Universidade de Hofstra
em Nova Iorque, e tem dedicado parte da sua investigação à história do
diaconado feminino na tradição da Igreja. O P. Bernard Pottier, sj é membro
docente no Institut d’Études Théologiques, em Bruxelas, membro da Comissão
Teológica Internacional e colabora com uma paróquia portuguesa na capital
belga. Ambos pertencem à Comissão Pontifícia para o Diaconado Feminino nomeada
pelo Papa Francisco.
Estiveram em Portugal para o lançamento do livro: “Mulheres
diáconos Passado – Presente – Futuro” de que Phyliss Zagano é uma das autoras.
Lançado pela primeira vez em 2011, o livro foi agora traduzido para português.
O PONTO SJ falou com eles, procurando compreender as raízes
deste ministério na história da Igreja e quais as formas que poderia assumir no
futuro. Ambos acreditam que restaurar o diaconado feminino será uma questão de
tempo, mas discordam quanto aos possíveis caminhos para lá chegar. Do que não
têm dúvidas é do enriquecimento que isso traria à Igreja e de como seria um
importante sinal dado ao mundo. Contudo, fazem questão de distinguir a questão
da ordenação diaconal da questão da ordenação sacerdotal das mulheres,
defendendo que são realidades distintas.
Para além do que cada um investigou, como é que a vossa
experiência pessoal de Igreja, o vosso contacto com diferentes comunidades
cristãs e realidades eclesiais concretas em diferentes partes do mundo
influenciou o vosso modo de pensar sobre a questão do diaconado feminino?
Bernard Pottier (BP) – A minha experiência no que toca ao
diaconado feminino parte do meu trabalho com religiosas portuguesas em
Bruxelas. Trabalho que tenho tido ao longo de vinte anos. Essa experiência
diz-me que as irmãs podem conduzir a comunidade portuguesa tão bem como eu. Ao
contrário, eu não tenho muito tempo, apenas o tempo para celebrar as missas de
sábado e domingo. Então, elas podiam liderar a paróquia. É verdade que as mulheres trabalham na Igreja
como leigas e religiosas, mas não como pessoas do clero, como pessoas
ordenadas. Mas a minha experiência é de que fazia muito pouco e elas faziam
muito mais do que eu. E foi essa experiência pessoal que me levou a pensar na
possibilidade do diaconado feminino. .
Phyllis Zagano (PZ) – O que eu tenho observado é que existe
uma fome profunda, um enorme interesse neste assunto. O Povo de Deus procura,
liderança seria uma palavra errada, mas ministérios exercidos por mulheres. O
que, na prática, já acontece. No trabalho que é feito com diferentes
comunidades, com reflexões baseadas no livro que viemos apresentar a Portugal,
percebe-se que as pessoas se questionam sobre o diaconado feminino, querem
saber mais sobre este assunto e ficam zangadas com o facto de a Igreja ter
abandonado esta tradição. Há um guião em inglês e um em francês que podem
orientar essas reflexões.
Durante dois anos e meio a Santa Sé pediu-me para não falar
sobre este assunto [enquanto decorria o trabalho da comissão]. Só agora pude
voltar a falar… Mas, há menos de um mês, estive em Los Angels e levaram-me ao
Arena, como se fosse uma estrela de rock, e onde estavam mais de quatro mil
pessoas que gritavam e gesticulavam entusiasticamente “sim, sim”. Numa
conferência mais pequena, com 700 pessoas, quando o moderador introduziu o tema
“Diaconado feminino, sim ou não?” Toda a assistência gritou: SIM!”. Por isso,
no que toca a reação por parte do Povo de Deus a reação é muito, muito
positiva.
Nas cinco viagens que fiz a Roma passei, no total, quatro
meses e meio na Casa de Santa Marta, uma vez fiquei lá dois meses, e, ao
jantar, encontrei-me com vários cardeais e bispos. Nenhum se opôs às minhas
ideias, nenhum se incomodou com assunto. Excepto dois bispos africanos, um da
África do Sul e outro de um país da África Central, que me disseram “nós não
queremos as suas ideias americanas.” Respondi-lhes: Ninguém está a tentar impor
nada a ninguém. Se a Santa Sé, o Papa disserem outra vez sim ao diaconado
feminino, se for restaurada a tradição, cada conferência episcopal, cada bispo
poderá tomar a sua decisão.
E um dos bispos disse-me “está a tentar enfiar-me as suas
ideias americanas pela goela abaixo”. Não, não estou – respondi-lhe. De maneira
nenhuma.
Outros bispos que estavam bastante preocupados eram os
bispos do Sudoeste Asiático: Laos e Cambodja. Estive com cinco bispos de uma
zona muito pobre que estavam em Roma para a visita Ad Limina que me disseram:
”Somos tão pobres. Nós nem sequer temos homens formados para serem diáconos,
quanto mais mulheres. Não temos pessoas formadas em Laos e no Cambodja.“
O resto do mundo, absolutamente. O bispo de São Paulo
mostrou-me no seu telemóvel imagens de uma visita a uma favela. Perguntei-lhe
quantos padres há em São Paulo? Quatrocentos, respondeu ele, continuando a
mostrar-me as imagens da sua ida à favela. E quantas pessoas? Cinco milhões. “Se preciso de mulheres
diáconos?… ” Um bispo Francês, com fama
de ser bastante conservador, depois de conversarmos perguntou-me: “Pode vir
comigo esta tarde quando regressar a casa? Preciso da sua ajuda!”.
Não se trata de liderança, nem de poder, mas de ministérios,
de haver quem acompanhe o Povo de Deus. Essa é a questão. E cada bispo, cada
cardeal, o arcebispo do Quebéc, o cardeal Gérald Cyprien Lacroix, os cardeais
da América do Sul, os bispos da Austrália e Nova Zelândia vão percebendo isso.
É sobre o ministério. O ministério da Igreja para a Igreja. Quando uma mulher é
ordenada, quando um homem é ordenado seja um padre ou um diácono, fica ligado
ao bispo, representa-o e essa ligação permite-lhe levar a bênção ao Povo de
Deus. É essa a questão. Ter uma mulher unida ao bispo e a toda a Igreja, esse é
o ponto essencial da discussão. Porque era assim que costumava ser, foi assim
que aconteceu no passado. Eu estive com o Patriarca Maronita de Damasco que me
disse- “Mulheres diáconos? Nada de especial! Na Síria um padre não conseguiria
visitar todos os lugares, todas as vilas e para acompanhar as mulheres doentes,
um homem não pode entrar em casa de mulheres doentes, não pode ungi-las.”
Ou seja, para algumas comunidades é uma questão óbvia?
PZ – Sim, claro!
Como olham para o papel das mulheres na Igreja hoje em dia?
PZ – Depende, é uma questão cultural. Há culturas que
aceitam a mulher e outras não. Nisso o cristianismo não se distingue do resto
do mundo. Queres acrescentar alguma coisa? (virando-se para Bernard)
BP – Sim, também me parece uma questão cultural. As mulheres
têm um envolvimento cada vez maior nas diferentes áreas da sociedade, e esse
movimento também tem que ser seguido na Igreja. Mas, utilizando materiais como
o guia de que a Phill falou, quero sublinhar a importância de que as pessoas
percebam o que é realmente o diaconado feminino. Porque muitas pessoas, com uma
mentalidade mais hierárquica pensam que por um lado ele não é necessário e, por
outro, que ele nunca existiu. E isso simplesmente não é verdade. Podemos
discutir se as mulheres eram instituídas através de uma bênção ou de uma
verdadeira ordenação, mas é impossível negar que tenha havido diaconisas. E
este guia ajuda a compreender toda a dimensão histórica.
Quais são as bases históricas que permitem afirmar que o
diaconado feminino faz parte da tradição da Igreja?
PZ – O estudo de Gary Macy publicado no livro “Mulheres
diáconos Passado – Presente – Futuro” não deixa dúvidas de que as mulheres eram
ordenadas. Um professor do século XVII, chamado Jean Morin, examinou todas os
ritos litúrgicos e descobriu que as mulheres recebiam a ordenação sacramental
de acordo com os critérios do Concílio de Trento. Eram ordenadas durante um
acto litúrgico, ao mesmo tempo que homens diáconos, o bispo impunha-lhes as
mãos, fazia a evocação do espírito Santo (epiclese), colocava-lhes a estola,
entregava-lhes o cálice para que comungassem, e muito importante, designava-as
como diáconos. Se não fossem diáconos, ter-lhes-ia chamado outra coisa. E a
questão diácono–diaconisa é só uma questão de linguagem. Sírio de Alexandria
usava a expressão mulheres diácono. John Colins, especialista australiano na
palavra diakonia, fez essa descoberta há pouco tempo e ficou muito
entusiasmado. Porque eu digo sempre mulher diácono e quando ele descobriu isso
quis-me logo contar. Na escritura, na Carta de São Paulo aos Romanos [cf Rm 16,
1] Febe é designada como diácono. [nota
da redação: Não é assim em todas as traduções, mas Phyllis Zagano
considera essa a melhor tradução]
BP – Ao estudar a patrística encontra-se muitas vezes a
expressão diaconisas, mas a realidade que expressam as duas palavras é a mesma.
João Crisóstomo, Gregório de Nisa, os Concílios de Niceia e a Calcedónia usam a
expressão diaconisa. Há uma predominância desta expressão. É um facto
histórico, o que isso possa significar é outra questão.
Um professor do Século XVII, chamado Jean Morin, que
examinou todas os ritos litúrgicos descobriu que as mulheres recebiam a
ordenação sacramental de acordo com os critérios do Concílio de Trento.
Para sermos mais precisos, que evidências existem da existência
de mulheres diáconos?
BP – Há evidência dessa existência até ao século XII.
PZ – Há evidências litúrgicas, epigráficas, inscrições
tumulares, evidências literárias, registos de que não–cristãos se referiam a
membros da comunidade cristã como mulheres diáconos. Há evidências por todo o
lado.
BP – Há mais de 60 túmulos com a inscrição diaconisa
PZ – Ou diak a abreviatura de diácono, no Ocidente e no
Oriente.
BP – Moira Scimmi, uma especialista italiana tem um estudo
muito profundo sobre isto.
PZ- Há vários autores, muitos estudos e há mais coisas a
serem descobertas que reforçam esta evidências.
Numa altura em que o debate da igualdade de género atravessa
toda a sociedade, haveria aqui um passo em frente no que respeita à
representação das mulheres dentro da hierarquia da Igreja?
PZ – Está-me a fazer várias perguntas ao mesmo tempo: se é
um avanço, o que significa para a Igreja e o que significa para a hierarquia.
Pelo diaconado é-se chamado à proclamação da Palavra, à liturgia e à caridade.
A maioria das pessoas foca-se na liturgia. Mas se pensamos na liturgia como o
mais representativo da ação diaconal, já temos várias mulheres a fazer esse
serviço. Já há mulheres envolvidas no trabalho da Palavra, mas não podem
pregar, há mulheres envolvidas na caridade, mas não têm autoridade clerical.
E autoridade clerical é importante também por questões
jurídicas. Por exemplo, no que respeita à possibilidade de alguém receber de um
bispo a delegação para gerir um processo de nulidade matrimonial. Só um clérigo
pode assinar esses processos. Ora, o Motu proprio do Papa Francisco sobre os
processos de nulidade matrimonial exige apenas um juiz para julgar os
processos. Assim, todas as mulheres ficam excluídas de poderem contribuir para
esses juízos, porque não podem assinar.
Um bispo irlandês perguntou-me se devia contratar uma mulher
como única canonista da sua diocese. Perguntei-lhe se ele era canonista e
disse-me que não. Então disse-lhe que não a contratasse, porque uma vez que ela
não podia assinar os documentos, quando ela lhos entregasse para ele assinar
ele não saberia o que estaria a assinar. E isto para mim é envolvimento na
caridade: que uma mulher diácono, especialista em Direito Canónico, possa estar
envolvida em processos como estes. Ou, então, sendo chanceleres das dioceses.
Há muitas mulheres chanceleres nos EUA, mas não podem assinar os documentos.
Muitas pessoas, com uma mentalidade mais hierárquica pensam
que por um lado que o diaconado feminino não é necessário e, por outro, que ele
nunca existiu. E isso simplesmente não é verdade.
Fala-se mais da liturgia, e a liturgia é Importante: Se uma
mulher servisse como diácono na Basílica de São Pedro no Vaticano transportando
o Evangeliário, proclamando o Evangelho, usando estola, pregando… bem, pregando
não porque está lá o Papa, mas pelo menos proclamando o Evangelho, o que é que
isso diria ao mundo sobre o valor da mulher, o seu estatuto? O mundo inteiro
não vê a mulher como igual.
Não somos o mesmo e não queremos ser o mesmo. Mas há
mulheres a morrer no Nepal porque são exiladas devido a menstruação, em África
morrem devido à mutilação genital feminina. A violência doméstica sobre as
mulheres afeta todo o mundo: se não fazem bem o jantar, se o arroz está frio.
Isto é ridículo. Se a Santa Sé e se o Santo Padre querem dizer que as mulheres
são criadas à imagem de Deus, então têm que dizê-lo.
O argumento sobre a ordenação é falso. Porque o único
argumento seria dizer que as mulheres não são criadas à imagem de Cristo. E
esse argumento foi-me dado por alguém com responsabilidades na Igreja. Foi isto
que me foi dito. Mas o Catecismo de Baltimore (um documento Americano) diz no
número 48: “todos são criados à imagem e semelhança de Deus”. É isto! (bate com
punho na mesa) É isto que a Igreja tem que dizer. E se uma mulher estiver
paramentada na Basílica de São Pedro, não apenas os 1,2 biliões de católicos,
não apenas os 2 biliões de cristãos, mas todo o mundo compreende que o que a
Igreja diz sobre a mulher é verdade. Não tem a ver com estatuto, liderança,
poder ou dinheiro. Nada disso! Precisamos de dizer que as mulheres são iguais
enquanto seres humanos. É a isso que temos de voltar, é essa a tradição que
temos de recuperar. Insisto, não é uma questão de poder é uma questão de
ministérios. E o ministério de toda a Igreja pode ser oferecido a todo o mundo
simplesmente colocando ali uma mulher paramentada com uma estola. É tudo o que
temos de fazer. (pausa)
Desculpem… exaltei-me um pouco. (Risos)
Há especificidades que distingam os homens diáconos das
mulheres diáconos? O que nos podem dizer
sobre isso.
PZ –Posso dizer muita coisa, ficaríamos aqui dois dias… As mulheres diáconos ungiam outras mulheres,
os homens diáconos não o faziam. Sobretudo quando havia bispos e padres
presentes.
BP – Havia coisas que as mulheres diáconos faziam que os
homens diáconos não faziam.
Mas a unção feita por mulheres talvez não acontecesse, ainda
que se restaurasse o diaconado feminino…
PZ –Não sabemos isso. Deixe-me dizer-lhe uma coisa. Nos EUA,
em alguns hospitais as mulheres que fazem serviço de capelania e que acompanham
as mulheres que se aproximam da morte… os padres, como ministros, caem ali da
para-quedas. Em alguns casos, o padre unge, garantindo a dimensão sacramental,
mas a mulher também unge. Há duas pessoas a ungir nos hospitais. Não contamos
isto aos bispos…. Mas é muito importante para as mulheres.
Tive um encontro com o Cardeal DiNardo, de Houston, no
Texas, e perguntei-lhe: Eminência, se tivesse que me ungir, onde me tocaria?
Sou uma mulher que estou sozinha num quarto de hospital. E ele disse: aqui, na
mão. E eu respondi (elevando o tom de voz): “Afaste-se de mim. Não me toque aí.
Quem é o senhor? Um homem estranho que entra no meu quarto e toca na minha
mão?”
Ele ficou muito atrapalhado. “O que está a dizer?”. E eu
expliquei-lhe: “Ou entra no meu quarto com uma mulher ou manda uma mulher para
me ungir. Não entra no meu quarto, sozinho!” O cardeal corou e disse-me “Eu
nunca tinha pensado nisso!”.
Isto é muito importante. É um contacto muito íntimo. Claro
que ele depois disse: “Ok, eu unjo-a na testa”. E eu respondi: “Não, eu quero a
unção nas minhas mãos!”. Não é uma questão simples…
Eu acho que isto é uma função jurídica, esta questão da
remissão dos pecados. Acho que houve três ritos para a unção, e nem todos eles
incluem a remissão dos pecados. Por isso, porque é que não se pode ter uma
mulher diácono a fazer a unção?
BP – Creio que a questão é se as mulheres diácono também
poderão estar no altar para a Eucaristia. Para mim, é muito óbvio que os homens
sempre estiveram no altar na celebração da Eucaristia, mas em relação às
mulheres, isso não é claro. Talvez tenha sido admitido por alguns padres e
bispos, mas não há provas. Creio eu.
PZ: O que acontece muito é que vemos imagens de mulheres com
uma estola e com a Bíblia na mão em frescos ou imagens antigas, e há quem diga
“Ah, eu vi uma mulher padre”…não é bem assim. Primeiro, não era uma mulher
padre. Porque as mulheres diácono usavam as estolas como os padres. O que pode
ter acontecido é que tenha havido diáconos – homens ou mulheres – a presidir à
Eucaristia. Essa possibilidade não me levanta problemas. Mas tenho problemas em
que se usem essas imagens para defender que existiram mulheres sacerdotes. Esse
é o meu argumento. Há uma semana o Gary Macey [um dos autores do livro]
disse-me, na Califórnia, que não há ritos de ordenação que confirmem que houve
mulheres ordenadas sacerdotes. Eu também nunca encontrei evidências.
A questão não é se houve mulheres presbíteros. É se houve
mulheres diáconos que celebraram a Eucaristia. E isso eu admito. E sabemos
dessa possibilidade porque até ao século XVI houve lutas e discussões sobre se
os diáconos podiam ou não celebrar a Eucaristia.
Porque devemos distinguir a ordenação diaconal da ordenação
sacerdotal?
PZ – No início da Igreja, tínhamos um bispo e depois, ao
mesmo nível tínhamos padres e diáconos. Ou seja, tanto o padre como o diácono
trabalhavam e respondiam ao bispo. Depois – o Bernard culpa o Gregório VII por
isso (risos) – tivemos uma alteração no rumo da história, e quando o diaconado
passou a ser um degrau para o sacerdócio, o diácono ficou abaixo do padre. Ou
seja, depois disto, nenhuma mulher foi ordenada diácono, porque não podia seguir
o caminho do sacerdócio…e portanto as mulheres diácono passaram a ficar nos
mosteiros e os homens diáconos ficaram subordinados ao sacerdócio. O diaconado
foi transformado num degrau para a ordenação sacerdotal.
BP- Resumidamente, o que aconteceu foi que uma vez que houve
uma alteração no diaconado masculino, houve imediatamente uma alteração no
diaconado feminino. Quando o diaconado passou a ser apenas um passo para chegar
ao sacerdócio, a ordenação de mulheres desapareceu, porque elas nunca poderiam
ser ordenadas sacerdotes. Essa foi a reforma Gregoriana, do século XI-XII.
Quando o diaconado perde consistência por si próprio, deixa de haver ordenações
de diáconos permanentes e, consequentemente, de mulheres.
PZ – Mas a diferença entre sacerdócio e diaconado fica
também clara no cânone 1009, parágrafo 3 do Direito canónico que foi alterado
pelo Papa Bento XVI em 2009: “Aqueles que são constituídos na ordem do
episcopado ou do presbiterado recebem a missão e a faculdade de agir na pessoa
de Cristo Cabeça; os diáconos, ao contrário, sejam habilitados para servir o
povo de Deus na diaconia da liturgia, da palavra e da caridade”. O Catecismo da
Igreja Católica de 1983 diz, também, claramente que o sacerdócio e o diaconado
são coisas diferentes. Eu escrevi um artigo sobre isso no National Catholic
Report. It’s not about women priests (A questão não é a ordenação sacerdotal
das mulheres)
A distinção feita no Código de Direito Canónico é muito
importante e clarificadora, não sei se seria a intenção de Ratzinger, mas ele é
muito honesto nos seus argumentos teológicos.
Isto não é sobre hierarquia, sobre poder, Isto é sobre Jesus
Cristo. É disso que estamos a falar! Como é que explicamos Jesus Cristo ao
mundo, como vivemos como Cristãos, como é que nós somos cristãos se não
defendemos que mulheres e homens, não são o mesmo mas são iguais em dignidade?
Quais seriam os principais desafios para a Igreja se o
diaconado feminino voltasse a ser uma realidade?
Bom, teríamos coisas positivas e negativas. Uma mulher diácono
tem que usar a estola de forma diferente, por exemplo. Bom, mas creio que o
grande desafio é educacional. É explicar que o diaconado não implica o
sacerdócio. Que são coisas diferentes.
BP – Acho que a mudança mais significativa seria o facto de
passarmos a ter mulheres dentro da hierarquia da Igreja. Elas passariam a fazer
parte das decisões, da autoridade da Igreja. Para mim, isto obriga a uma enorme
mudança de mentalidades. Quando os homens estão a refletir entre eles, têm
sempre a mesma perspetiva. O mesmo acontece dentro de grupos só de mulheres.
Mas quando homens e mulheres trabalham juntos, seja nas suas profissões, em
casa ou na Igreja, a diferença é muito grande. Os homens mudam e as mulheres
mudam. Homens e mulheres passam a tomar melhores decisões, e isso provoca uma
diferença real no mundo. Homens e mulheres trabalham melhores juntos, nas suas
diferenças. Isto é uma questão antropológica. E hoje é possível mudar essa
mentalidade e permitir esse trabalho conjunto.
Por exemplo, olhemos para os casos dos abusos sexuais dentro
da Igreja. Talvez não tivessem acontecido, ou não tivessem tomado esta
proporção, se as mulheres tivessem lá dentro, a olhar para o que estava a
acontecer…
PZ – Havia uma religiosa, numa paróquia de New Jersey, que
estava responsável por tomar conta dos serviços relacionados com o Altar, e que
não tinha que trabalhar ao domingo. Mas todos os domingos ela estava lá, na
sacristia, e não permitia que os acólitos estivessem sozinhos com o sacerdote
que vinha celebrar, porque ela nunca sabia quem seria esse sacerdote. Não o
conhecia. Se ela fosse diácono, estaria lá de qualquer forma. O Santo Padre
defende também o que o Bernard acabou de dizer, a importância dos olhares
diferentes dentro da Igreja – logo, de homens e mulheres. Mas vamos lá ver uma
coisa. Isto não é sobre hierarquia, sobre poder, Isto é sobre Jesus Cristo. É
disso que estamos a falar! Como é que explicamos Jesus Cristo ao mundo, como
vivemos como Cristãos, como é que nós somos cristãos se não defendemos que mulheres
e homens, não são o mesmo mas são iguais em dignidade? Como? Essa para mim é a
grande questão!
Mas quando homens e mulheres trabalham juntos, seja nas suas
profissões, em casa ou na Igreja, a diferença é muito grande. Os homens mudam e
as mulheres mudam. Homens e mulheres passam a tomar melhores decisões, e isso
provoca uma diferença real no mundo
Ou seja para dizermos quem é Deus precisamos de homens e
mulheres…
Exactamente! Há uns 30 anos, eu disse ao Cardeal Ratzinger,
em público, que o Deus da Filosofia não é homem nem mulher, mas que o Deus da
Teologia são ambos. E ele concordou comigo! Temos de ensinar que as mulheres
também são imagem de Cristo! É este o ponto, as mulheres podem representar
Cristo. O argumento da autoridade, de Cristo cabeça para mim é diferente do
argumento da mulher como podendo representar a imagem de Cristo, a sua pessoa.
De qualquer forma, a Igreja diz que não podemos ter mulheres sacerdotes e eu
não vou discutir isso, não é essa a minha questão. Além disso, não acredito que
vão existir mulheres sacerdotes na Igreja Católica. Acho que é uma discussão
que não podemos ter.
Qual o impacto que teve o reconhecimento de Maria Madalena
como apóstolo?
O Papa Francisco é simplesmente incrível. É o homem mais
simpático… é um homem perfeitamente normal, que poderia estar aqui sentado
connosco e pedir um copo de água! (risos)
E ele vê uma lacuna na Igreja, nessa falta de reconhecimento
das mulheres. Talvez por isso juntou Maria Madalena ao cânone como apóstola.
Temos também uma frase dele na contracapa do nosso livro muito significativa:
“Convidar uma mulher para falar sobre as feridas da Igreja é convidar a própria
Igreja para falar de si mesma, das suas feridas. E creio que este seja o passo
que devemos dar com muita força”. Ele fala muita articuladamente desta
necessidade do olhar das mulheres e dos homens na Igreja. Se Maria Madalena é
um apóstolo, então poderíamos dizer que as mulheres poderiam ser padres?
Talvez! Mas acho que não era esse o objetivo dele. Aliás, ele já disse que não
podem ser. E o cardeal Luís Ladaria, Prefeito da Congregação para a Doutrina da
Fé, publicou um documento, em junho do ano passado, contra essa possibilidade.
Mas o que também não é historicamente sustentável é encarar o diaconado
feminino como uma ordem menor, como o antigo sub-diaconado.
Mas acho que o Santo Padre sabe o que está a fazer.
BP – Como reação aos documentos Inter Insignioris (da
Congregação para a Doutrina da Fé, 1976) e Ordinatio Sacerdotalis (de João
Paulo II, 1994), em que se afirma a impossibilidade da ordenação sacerdotal das
mulheres, os bispos alemães e americanos perguntaram ao Santo Padre se poderiam
ser ordenadas mulheres diáconos. A resposta foi “as mulheres não podem ser
ordenadas sacerdotes”. Portanto, parece-nos claro que a questão está em aberto.
Se se quisesse fechar a questão isso teria sido dito claramente. .
É possível dizer que
o diaconado feminino é uma questão de tempo?
BP – Provavelmente, sim! Para mim sim. É uma questão de
tempo. Possivelmente o primeiro passo não será a ordenação mas o reconhecimento
do ministério.
PZ – Não, eu discordo disso. Isso mataria a questão. Se
disser como Kasper, “ah, sim podemos chamar-lhes diaconisas, podem
paramentar-se como tal, mas não podem ser ordenadas”, seria o fim.
BP – Não tenho a
certeza disso…
PZ – Garanto. Não terás nenhuma mulher na Igreja se fizeres
isso. Ou dizes sim, ou não dizes nada. Mas se optares por esse meio-termo, as
mulheres não vão aceitar.
BP – Mas sabes que há
muitas mulheres que também dizem que não querem saber de uma ordenação
diaconal. Ou podem ser sacerdotes, ou mais vale não serem nada. Portanto é a
mesma argumentação.
PZ – Sim, eu sei.
O ponto, então, não será esclarecer as diferenças entre o
diaconado e o sacerdócio?
BP: Eu acho que nós temos mesmo que refletir sobre e
melhorar a compreensão da a função dos
diáconos permanentes. Quando aprofundarmos o sentido do diaconado permanente
exercido pelos homens, o sentido do seu ministério, será mais fácil a
possibilidade da ordenação diaconal das mulheres.
PZ – Sim, é verdade.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do
Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.

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