Não sou católico, não se pode ser perfeito, nem acredito em milagres. Mas que os há, há. Se não é milagre, expliquem-me porque é que, ano após ano, na avaliação das escolas, as católicas têm sempre uma vantagem esmagadora, ocupando invariavelmente o topo dos rankings (Nota do editor - ver «Em que lugar ficou a sua escola?». As católicas são as melhores, dirão os católicos, mas importa encontrar uma justificação, identificar os fatores que comprovem ou desmintam esta afirmação. Não sendo católico, tenho a neutralidade, o distanciamento e a legitimidade para tentar encontrar uma explicação ao nível da organização da escola, dos seus objetivos e finalidades.
Texto de José Batista*, Professor aposentado; professor na UCP;
Diretor da DREC - Direção Regional de Educação do Centro;
Consultor da UNICEF para Educação
Quando falamos de boas escolas, falamos geralmente de escolas aprendentes, reflexivas, transformadoras, eficazes e autónomas, podendo tomar as medidas adequadas à melhoria e eficácia do trabalho desenvolvido e sabendo acrescentar valor aos seus educandos, comparando indicadores de entrada e de saída. Uma boa escola pensa-se e melhora-se a si própria.
Estes são os conceitos chave, válidos em qualquer escola, pública ou privada, laica ou católica, republicana ou monárquica. Logo, excluindo a teoria do milagre, as escolas católicas não são mais eficazes por serem católicas, mas porque se organizam de modo a obterem melhores resultados. Qual é então o segredo?
Para mim, há duas razões principais que justificam a maior eficácia das escolas católicas: a) Têm, apesar de tudo, maior autonomia; b) Dão maior relevo, ou prioridade, à educação do que ao conhecimento. As escolas católicas estão mais preocupadas em formar pessoas (personalidade, carater, responsabilidade, deveres, respeito pelas regras da escola e pelas pessoas). A escola pública está mais pressionada pelos programas, pelos exames e pelos resultados escolares. Em duas palavras, a escola católica privilegia a educação, a escola pública põe maior ênfase no conhecimento.
Em matéria de autonomia, a escola pública, ao contrário da católica, não tem competências para recrutar e estabilizar os seus docentes. Vida errante e migratória de milhares de professores, cada ano de mala às costas para novas paragens, deixando para trás família, crianças desamparadas, afastamento das pessoas mais amadas. Pais professores errantes ou deslocados não têm a disponibilidade mental e afetiva para se dedicarem de alma e coração à escola e aos filhos dos outros, quando separados à força dos próprios filhos.
As mudanças permanentes não permitem nem um conhecimento continuado e prolongado do percurso escolar dos alunos, nem a criação de laços, nem uma articulação estável com os colegas de trabalho. A dedicação à escola e aos alunos é volátil. A organização de equipas profissionais para a ação e para a aprendizagem profissional ficam comprometidas.
O ideário das escolas católicas está virado para as pessoas, para os valores e as virtudes cristãs, para a prática do bem. Têm referências e exemplos concretos, sendo a figura de Cristo incontornável como exemplo de virtude. O ideário da escola pública, laica e republicana salienta os valores da democracia, da cidadania, da igualdade, da ética republicana, mas não passam de valores enunciados, sem nenhum programa que os leve à prática. Nos programas da escola são palavras omissas ou vazias.
É por isso que as crianças e jovens educados nas escolas católicas são mais disciplinados, mais cumpridores dos seus deveres, faz parte do seu código deontológico, e por isso se transformam em melhores alunos com melhores resultados.
Algumas tentativas para introduzir na escola pública programas dirigidos aos valores da democracia, da cidadania, da solidariedade e da igualdade, esbarraram na dificuldade em conciliar princípios e valores opostos veiculados pelas diversas tendências partidárias. Na prática, a escola pública, laica e republicana foi ficando órfã de valores e princípios transformadores das crianças e dos jovens.
O Perfil dos alunos à saída da Escolaridade Obrigatória, referenciado nos despachos 54 e 55/2018, põe o dedo na ferida e mostra de facto o que faz falta na escola pública. Não conheço resultados sobre a sua aplicação nas escolas. Mas parece-me que esbarra com duas dificuldades: a) a educação, com os princípios e valores para que aponta, não sai nos exames; b) não está inscrita na matriz fundadora da escola pública, muito mais preocupada em dar a matéria e sem espaço para operacionalizar as linhas orientadoras deste Perfil. Em boa verdade, não faz parte da cultura pedagógica dos professores da escola pública.
Conclusões: a) começar pela educação compensa, conscientiza as pessoas das suas responsabilidades e dos seus deveres, gerando uma disciplina de ação e de trabalho para a construção dos saberes que conduzem ao sucesso; b) ao manter a escola pública refém do centralismo burocrático, impedindo-a de recrutar, estabilizar e formar os seus professores em contexto de trabalho, e de lhe dar a iniciativa e a responsabilidade da organização para o sucesso, o estado impede a escola pública de competir com a escola católica; c) ao impedir o livre acesso dos católicos à escola católica, o estado reduz a escola católica a uma elite socioeconomicamente privilegiada, o mesmo que fez Salazar no seu tempo com o liceu. Ou seja, não é por acaso que as católicas estão no topo dos rankings. É o estado que as coloca no quadro honra.
*na sua página de Facebook

Comentários
Enviar um comentário