Ciganos na Europa: Encontro de agentes pastorais católicos realçou minoria que permanece «desprezada e discriminada»
Mais de 100 responsáveis e agentes pastorais que trabalham
com as comunidades ciganas, em cerca de 20 países da Europa, reuniram-se de 5 a
7 de abril, em Trogir, Croácia, no encontro do Comité Católico Internacional
para os Ciganos sob o tema ‘A missão em retorno: fonte de mudança’.
Francisco Monteiro, Diretor Executivo da ONPC (Obra Nacional
da Pastoral dos Ciganos) em Portugal, em entrevista à Agência ECCLESIA,
destacou que este encontro foi uma oportunidade de “partilhar experiências” e
“afinar estratégias” para responder da melhor forma às necessidades de um setor
que “não é nada fácil”, porque tem estado sempre “nas margens da Europa” e das
suas políticas.
Atualmente, dos cerca de 10 a 12 milhões de pessoas
provenientes dos vários grupos de etnia cigana ou roma na Europa, cerca de 80 %
vivem em risco de pobreza, devido a dificuldades de integração social, por
exemplo de acesso à habitação, à educação e ao emprego, problema que para Francisco Monteiro é
transversal aos vários países e que, no caso do trabalho da Igreja Católica,
implica “lidar com a dicotomia entre uma minoria desprezada e discriminada” e
uma “visão muito cínica dos poderes públicos, que primeiro dizem que fazem, mas
depois não fazem”.
“A exclusão dos ciganos nas várias áreas começa na
habitação. Pessoas que vivem em barracas, que não têm água, que são
sistematicamente escorraçadas do sítio onde estão” apontou Francisco Monteiro “que alertou para
o facto de se estar a perpetuar todo este ciclo”. E acrescenta: “Se as crianças
não podem ir à escola, se não há escolarização, não há educação, e sem educação
não há emprego."
Francisco Monteiro lamenta a falta de um maior envolvimento de todas as
entidades responsáveis, “que não intervêm e não colocam em ordem quem devia ter
mais respeito pelas pessoas que são mais pobres e estão mais abandonadas”.
Afirma que recentemente a ONPC enviou à Secretaria de Estado
da Cidadania e da Igualdade, um relatório sobre a comunidade cigana e toda a
problemática da habitação, “sobre os ciganos que vivem em barracas em
Portugal”, que permitiu constatar a persistência de “uma panorâmica muito
negativa”. E espera que este documento contribua para o desenvolvimento de
soluções que tragam mais possibilidades de integração social das populações ciganas
no país.
“Pensar só não chega, o que é preciso é fazer e ter
resultados e é nisto que nós batalhamos sistematicamente”, sublinhou Francisco Monteiro, que
tem consciência de que esta mensagem de ação, de proatividade, também deve ser
dirigida aos próprios líderes das comunidades ciganas, que também têm
responsabilidades em todo este processo “para que os ciganos sejam eles
próprios atores e proporcionadores do seu desenvolvimento, da sua inserção e
inclusão”.
«A Igreja está convosco»
Foi com estas palavras de apoio ao serviço que as pastorais dos ciganos prestam aos ciganos que o Cardeal Peter Turkson, Prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, se dirigiu, em nome do Papa Francisco e do seu Dicastério, aos participantes no encontro anual do CCIT (Comité Católico Internacional para os Ciganos) que decorreu em Trogir, Croácia de 5 a 7 de abril. "A Igreja está convosco e agradece o trabalho que fazeis na missão e no serviço que prestais à população cigana", afirmou o Cardeal Turkson que acrescentou: "apesar de todos os esforços conjuntos entre as diferentes instituições eclesiais e sociais, que têm sido realizados para favorecer a inserção das populações ciganas na sociedade e garantir a sua plena participação nos direitos e nos deveres, ainda falta muito que fazer".
O Cardeal descreveu depois os sofrimentos, a pobreza, a discriminação, os abusos de que os ciganos continuam a ser vítimas em vários países e citou as palavras do Papa Francisco ao pedir "um compromisso comum para enfrentar este desafio ... para a construção de uma sociedade renovada e orientada para a liberdade , a justiça e a paz".
O Cardeal Turkson prosseguiu dizendo aos presentes que quando eles estão próximos dos ciganos, "lhes levam a esperança e a razão para serem eles os protagonistas do seu desenvolvimento humano integral, do crescimento na fé e da formação ética e espiritual".
O Cardeal exortou a que quem trabalha nas pastorais dos ciganos se comprometa a sensibilizar "as comunidades paroquiais para que estas respondam ao convite do Papa Francisco a acolher, proteger, promover e integrar" os ciganos e a cooperar com outras instituições eclesiais com o fim de "aproveitar todos os recursos, espirituais e materiais que a Igreja põe à disposição para a promoção do desenvolvimento integral dos pobres e para resolver mais facilmente as causas estruturais da pobreza (A Alegria do Evangelho 188), pelo que beneficia as populações ciganas".
O encontro do CCIT de 2019, subordinado ao tema "A missão em retorno: fonte de mudança" , teve quatro momentos dominantes:
- a mensagem do Cardeal Peter Turkson,
- a intervenção do conhecido teólogo checo Tomas Halik, subordinada ao tema A Evangelização como o lugar do encontro dos peregrinos: a Igreja deveria ser “uma comunidade de peregrinos”; o encontro deve ser recíproco “e não encontro de proprietários com os famintos”.
- a descrição da situação dos ciganos na Croácia e da pastoral dos ciganos promovida pela Conferência Episcopal da Croácia
- e a preparação de questões a abordar na reunião prevista do CCIT com o Papa Francisco em 2020, "na área da pastoral, em relação à Igreja ou à sociedade, em ligação com a nossa missão junto e com os ciganos."

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