Em quê se tornaram as nossas Eucaristias? Qual era o sonho de Jesus Cristo?

Cada domingo, cada vez que participamos na Eucaristia ou rezamos diante do Sacrário, cada vez que nos amamos a nós mesmos e amamos o próximo como filhos de Deus e à Criação inteira como obra das Suas mãos, é Dia de Corpo de Deus, é festa de Deus feito carne e sangue humano, é a festa cristã da humanidade de Deus que habita no mundo por Ele criado.

As mil e uma riquezas do tesouro da Eucaristia
Orar diante do Corpo de Cristo e em Corpo de Cristo que é a Igreja e a Humanidade por Ele amada, é uma atitude que revela mil riquezas que é preciso realçar:
- o Corpo de Deus é, por Cristo, a humanidade completa;
- é uma festa cristã, mas que quer ser universal, a festa de todos os que desejam vincular-se entre si, partilhando o pão, bebendo juntos o vinho da vida, em alegria e esperança, dispostos a colocar as suas vidas a serviço da vida.
- é a festa do Corpo de Jesus e de todos os corpos: do trigo e do pão, da água e do vinho, dos frutos da terra e do trabalho e comunhão de todos os seres.
- é a festa da Criação, o grande organismo vivente, com as suas galáxias, corpo sagrado, porque habitado pela presença divina.

Celebremos...
Celebremos o nosso corpo, tão maravilhoso!
Cuidemos do nosso corpo, tão vulnerável!
Cuidemos do corpo, sem torturá-lo com as nossas obsessões, sem submetê-lo à escravidão das nossas modas e medos!
Respeitemos como sagrado os corpos dos outros, sem explorá-los!
Sintamos como nosso o corpo do faminto, do violentado, do refugiado, da mulher violada, maltratada, assassinada... da Natureza em perigo de extinção.
É nosso corpo; é o Corpo de Jesus; é o Corpo de Deus.

Corpo é meio de comunicação... para a comunhão
Deus revela-Se encarnando-Se, assumindo um Corpo que sente, que vibra, que tem prazer e que sofre, uma carne que treme, vulnerável ao frio e ao calor, à fome e à sede. Corpo que comunga com a nossa mortalidade, padecendo dor, agonia e morte, sendo sepultado entre as trevas da terra como toda criatura. Corpo vivificado pelo Espírito, que volta à Vida e envia os seus irmãos, os seus seguidores, a proclamar em alta voz o seu compromisso em favor da vida.

Jesus fez o Universo para habitarmos nele e fez do universo o seu corpo e se faz pão e vinho para nós.

Corpo é meio de comunicação, criando um “corpo” mais completo (comunhão) com todos.

É imperioso recuperar o lugar e o sentido da Eucaristia 
É nesse sentido que a Eucaristia se revela como centro da vivência cristã. A transformação das relações humanas se dá através do partir o pão e do passar o cálice de vinho: como o pão é um, comer desse pão nos faz todos um. Ao dizer “tomai e comei, isto é meu corpo; tomai e bebei, é o meu sangue”, Jesus não só vem ao nosso encontro como alimento, mas partilha-Se totalmente. A Eucaristia faz de todos nós Corpo de Cristo. Daí o interesse da primitiva Igreja em que, na Eucaristia, todos comungassem do mesmo pão partido, com a finalidade de fazer visível essa unidade de todos.

Assim fizeram seus(suas) seguidores(as): após a Ressurreição, Jesus foi “reconhecido ao partir o pão”; foi reconhecido não porque estava no templo ou ensinava na sinagoga, mas porque partia o pão nas casas.  Por isso, no primeiro dia da semana, reuniam-se todos nas casas, oravam juntos, recordavam a mensagem de Jesus, comiam o pão, bebiam o vinho e a Vida ressuscitava. A isso chamavam, ‘ceia do Senhor” ou “fração do pão”.  Tudo era muito simples e despojado.

Segundo os relatos dos Evangelhos, durante a sua vida pública, Jesus transitou por muitas refeições, propôs a grande mesa da inclusão e, para culminar, organizou com os seus amigos mais próximos uma ceia de despedida e de esperança. Ali, ao partir o pão e passar o cálice, pediu que se recordasse dele toda as vezes que comessem ou bebessem juntos, reavivando a esperança de construir o mundo que todos esperavam. Eles se transfigurariam e o mundo se transformaria em Comunhão cada vez que este gesto fosse repetido.

Para isso, é preciso recuperar o lugar e o sentido da Eucaristia, para que não seja um rito puramente cultual.

Para muitos cristãos, a Eucaristia não é mais que uma obrigação e um peso que, se pudessem, tirariam de cima deles.

A Eucaristia acabou por se converter numa cerimónia rotineira, que demonstra a falta absoluta de convicção e compromisso. A Eucaristia era, para as primeiras comunidades cristãs, o ato mais subversivo que podemos imaginar. Os cristãos que a celebravam se sentiam comprometidos a viver o que o sacramento significava. Eram conscientes de que recordavam o que Jesus tinha sido durante sua vida e se comprometiam a viver como Ele viveu.

Séculos depois, a simples refeição foi-se complicando:
- a casa converteu-se em templo;
- a refeição tornou-se “sacrifício”;
- a mesa fez-se altar;
- o convite passou a obrigação;
- o rito intimo agora é pompa;
- a partilha, por causa das regras, agora é exclusão...

A festa de “Corpus Christi” pode ser ocasião privilegiada para voltarmos ao mais simples e pleno, para além dos cânones, rubricas e indumentárias que não tem nada que ver com Jesus. Basta reunir-nos num lugar qualquer, para recordar Jesus, partilhar a Sua palavra, tomar o pão e o vinho, ressuscitar a esperança e alimentar o sonho do Reino. Esta é a Missa verdadeira, a verdadeira missão.


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