Padre Martins Júnior, do Funchal, reabilitado 42 anos depois

O bispo do Funchal, D. Nuno Brás, revogou a pena de suspensão a divinis do padre Martins Júnior, segundo revela uma nota emitida pela diocese:

«Diocese do Funchal - Comunicado:
No dia vinte e sete de julho de 1977, o bispo D. Francisco Santana, decretou a suspensão a divinis do Rev.do Padre Martins Júnior. Tendo em consideração que, passados estes anos as razões primeiras que levaram à aplicação e manutenção dessa pena deixaram de existir, o Bispo do Funchal, depois de ouvido o Rev.do Padre Martins Júnior e os Conselhos Episcopal e dos Consultores, decidiu revogar a referida pena de suspensão.
O Rev.do Padre Martins Júnior foi nomeado na mesma ocasião Administrador Paroquial da Ribeira Seca.
O bispo do Funchal vai visitar a Paróquia no dia 14 de julho às 17 horas.
O decreto entrou em vigor no dia 16 de junho deste mesmo ano.
Funchal, 16 de junho de 2019
Solenidade da Santíssima Trindade»

O padre Martins Júnior é natural de Machico, onde nasceu em 1938 (tem 81 anos). Foi ordenado padre a 15 de agosto de 1962, celebrando a sua primeira missa nesse mesmo 15 de agosto de 1962, na igreja Matriz de Machico, freguesia de Machico. A 22 de Junho de 1969 foi nomeado pároco da Ribeira Seca.

O padre Martins foi suspenso em 1977 na sequência de divergências com o bispo da altura, D. Francisco Santana. A intensa atividade política e postura reivindicativa, após o 25 de abril, terá levado a que entrasse em rota de colisão com o então bispo do Funchal, numa região em que a Igreja Católica e a corrente política de Alberto João Jardim sempre foram próximas. O bispo Francisco Santana já lhe tinha retirado, em 1974, a paróquia da Ribeira Seca por ter recusado entregar a chave da igreja.

Desafiando a diocese, o sacerdote continuou a celebrar missa porque “o povo assim quis”, conforme disse à agência Lusa em 2016. Ele recusou ceder o controlo da paróquia à diocese segundo exigência do bispo e, durante 42 anos, ele e a população mantiveram ativa aquela comunidade religiosa. Neste tempo, a paróquia funcionou como uma espécie de “enclave” não reconhecido oficialmente pela diocese, já que o sacerdote recusou dar o controlo da paróquia aos sucessivos bispos – depois de D. Francisco Santana, passaram pelo Palácio Episcopal D. Teodoro Faria e D. António Carrilho, sem haver qualquer alteração no estatuto de Martins Júnior. Neste tempo, foram vários o episódios de muita tensão na paróquia. A igreja chegou a estar cercada pela PSP e os paroquianos nunca aceitaram outro padre, apesar de nomeado pelo bispo. Martins Júnior foi sempre o padre, celebrou missa, fez casamentos e batizados.

No âmbito do atividade política, Martins Júnior foi presidente da Câmara Municipal de Machico pela UDP (1989) e pelo PS (1993) e deputado na Assembleia da Madeira. Foi também professor em diversas escolas madeirenses.

Em 2010, a diocese do Funchal proibiu a visita da imagem peregrina de Fátima à igreja da Ribeira Seca pelo facto de a mesma estar “indevidamente ocupada”, por um padre suspenso a divinis.

D. Nuno Brás tomou posse como 33.º Bispo da Diocese do Funchal no passado dia 17 de fevereiro de 2019, bastando-lhe, por isso, quatro meses para resolver um assunto que perdurava já há quatro décadas.

Quando tomou conta da diocese do Funchal este ano, o novo bispo declarou que ia dar atenção aos “casos particulares e pessoais” existentes na Igreja madeirense. «Hão de ser tratados particularmente e pessoalmente», disse, então, o prelado madeirense.

Em Ribeira Seca, esta decisão de D. Nuno foi motivo de comemoração.


Com agências Lusa e Ecclesia,
jornais Observador, Diário de Notícias Madeira, Expresso
e Rádio Renascença

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