«Esta palavra está perto de ti, está na tua boca e no teu coração, para que a possas pôr em prática.»

Eis o que nos diz hoje, e cada dia, o nosso Deus:
«Este mandamento que hoje te imponho não está acima das tuas forças nem fora do teu alcance. 

Não está no céu, para que precises de dizer: ‘Quem irá por nós subir ao céu, para no-lo buscar e fazer ouvir, a fim de o pormos em prática?’

Não está para além dos mares, para que precises de dizer: ‘Quem irá por nós transpor os mares, para no-lo buscar e fazer ouvir, a fim de o pormos em prática?

Esta palavra está perto de ti, está na tua boca e no teu coração, para que a possas pôr em prática.» (Livro do Deuteronómio 30, 10-14).

E para explicar isto, Jesus contou a Parábola do Bom Samaritano: Lucas 10, 25-37

Quem é o meu próximo?
É a pergunta de partida do doutor da Lei, com o sentido «quem é que faz alguma coisa por mim?»; ou, possivelmente, «quem é aquele mais perto de mim a quem posso amar?».

A resposta de Jesus opera um deslocamento de sentido: Quem destes três se fez próximo?

Ser próximo é assumir o cuidado de outra pessoa. Próximo não é quem nós amamos, é-se próximo quando amamos.

O verbo central da parábola
O verbo que brota de cada gesto do samaritano expressa-se com as palavras «encheu-se de compaixão». Que literalmente, no Evangelho de Lucas, indica o ser tomado até às entranhas, como uma mordida, um espasmo, uma revolta, qualquer coisa que se revolve por dentro, e que é depois a fonte de onde jorra a misericórdia divina.

Compaixão é experimentar dor pela dor do homem,
misericórdia é o curvar-se para tratar das feridas.

No Evangelho de Lucas, «experimentar compaixão» é um termo que indica uma ação divina com a qual Deus restitui vida a quem não a tem. E ter misericórdia é a ação humana que deriva deste “sentimento divino”.

Os três gestos do bom samaritano: ver, deter-se, tocar
Ver: viu e teve compaixão. Viu as feridas e deixou-se ferir pelas feridas daquele homem. O mundo é um imenso pranto, e «Deus navega num rio de lágrimas» (Turoldo), invisíveis a quem perdeu os olhos do coração, como o sacerdote e o levita. Para Jesus, ao contrário, olhar e amar eram a mesma coisa: Ele é o olhar amante de Deus.

Deter-se: interromper o próprio caminho, os próprios projetos, deixar que seja o outro a ditar a agenda, deter-se no interior da vida que geme e chama. Farei mundo por este mundo toda a vez que simplesmente suspendo a minha corrida para dizer «obrigado», para dizer «aqui estou».

Tocar: o samaritano faz-se próximo, derrama óleo e vinho, enfaixa as feridas do homem, carrega-o, transporta-o. Tocar é palavra dura par nós, convoca o corpo, mete-nos à prova. Não é espontâneo tocar o contagioso, o infetado, o chagado. Mas no Evangelho toda a vez que Jesus se comove, para e toca. Mostrando que amar não é um facto emotivo, mas um facto que precisa de mãos, de tato, é concreto, tangível.

O samaritano toma conta do homem ferido de maneira até exagerada. Mas precisamente neste excesso, neste dispêndio, no agir em perda e sem contabilizar, neste amor unilateral e incondicional, torna-se feliz e divina nova para a Terra.

Ermes Ronchi, padre e teólogo de Itália, em Avvenire

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