Por um novo modelo de presbíteros para as comunidades - entrevista a autor de várias obras nesta temática


O P.e António José de Almeida, da diocese de Apucarana, Paraná (Brasil), é um abalizado conhecedor de muitas experiências pastorais, sobretudo no aspeto ministerial. Autor de várias obras nesta área - ver www.estantevirtual.com.br/livros/antonio-jose-de-almeida, deu esta entrevista no contexto do Sínodo para a Amazónia, publicada poIHU.


Nas comunidades paulinas, não consta que faltassem pessoas que serviam a comunidade nas suas diferentes necessidades e, logicamente, era impossível que uma comunidade não pudesse celebrar a Eucaristia. Será que nós perdemos um pouco o Norte?
Você destaca uma questão fundamental, no sentido em que as Igrejas do Novo Testamento são o parâmetro das Igrejas de todos os tempos e lugares. Naquelas Igrejas, além do apóstolo fundador e da referência aos Doze, havia diferentes ministérios e, naturalmente, os ministros e ministras necessários para sua vida e missão. Embora seja muito difícil responder à pergunta "quem presidia a Eucaristia nas comunidades do Novo Testamento?", é óbvio que a fração do pão era celebrada pela comunidade e que alguém a presidia.

Há um estudo clássico de Legrand, teólogo francês discípulo de Congar, segundo o qual "quem presidia a comunidade presidia a Eucaristia da comunidade". Por outras palavras, as comunidades do Novo Testamento não eram um conjunto amorfo, anárquico ou acéfalo, e sim um corpo carismaticamente e ministerialmente articulado. Alguém, em nome da comunidade e do apóstolo fundador, exercia o ministério da unidade daquela Igreja: em si mesma, com as outras Igrejas e com os apóstolos. Este ministro da unidade presidia a Eucaristia. Não havia comunidade sem o seu "presidente"; não havia comunidade sem a Eucaristia. Foi assim na Igreja antiga e durante a Idade Média. Historicamente, o fenómeno de comunidades sem Eucaristia começou nos que eram, no passado, chamados de "territórios de missão". O facto atual de milhares de comunidades sem a celebração da Eucaristia é absolutamente anómalo. Perdemos a consciência da ligação entre Eucaristia e Igreja, no sentido que "a Eucaristia faz a Igreja"; e entre Igreja e Eucaristia, “a Igreja faz a Eucaristia". O direito da legislação, é preciso dizê-lo com toda a clareza, se sobrepós ao direito da graça!

Há anos que escreve e trabalha sobre uma renovação dos ministérios na Igreja. O que mais o preocupa na situação atual? Porque vê como necessária e urgente uma mudança?
O que mais me preocupa na situação atual não é nem a diminuição das vocações nem a falta de presbíteros para presidirem as comunidades e, portanto, presidirem a celebração da Eucaristia nas comunidades (mesmo que eu tenha escrito e falado mais disso nos últimos anos).
São três as situações que me parecem muito preocupantes:
Primeira: uma indevida "sacerdotalização" do ministério presbiteral, no sentido em que a concentração deste ministério no culto tem aumentado, desequilibrando a unidade das três funções: Palavra - Liturgia - Caridade; que o ministério presbiteral tenha também uma dimensão “sacerdotal”, correto; que, porém, esta dimensão se sobreponha e prevaleça sobre as dimensões profética e pastoral, é uma distorção;

Segunda: o "clericalismo" que ainda persiste na relação presbíteros-comunidade e se manifesta especialmente na concentração do poder, no precário funcionamento de estruturas da participação das comunidades no processo de tomada de decisões e no escasso protagonismo dos leigos na missão da Igreja e sua atuação na sociedade; as invectivas do Papa Francisco contra o clericalismo são absolutamente pertinentes e necessárias;

Terceira: uma profunda "incomunicabilidade" entre a mensagem da Igreja (representada concretamente pelo clero) e as buscas e respostas existenciais das pessoas, mais visível entre os jovens e entre as pessoas e grupos sociais mais autónomos na sociedade: o processo de secularização e a pós-modernidade avançam, enquanto o processo de renovação da Igreja é extremamente lento; o clero, então...

Esses desafios – em grande parte comuns com a Igreja na Europa – são, digamos, de tipo qualitativo. Claro que há também o desafio da insuficiência numérica dos presbíteros.

Só no Brasil haveria 70 000 comunidades sem a Eucaristia dominical; mas o que hoje aparece como carência não poderia acabar sendo uma oportunidade para a Igreja?
Vamos por partes. A diminuição das vocações e, consequentemente, a falta de párocos em certas áreas da Igreja, especialmente em alguns países da Europa, é mais evidente do que em muitos países da América Latina. O problema em alguns dos nossos países é, até certo ponto, historicamente crónico. Nunca tivemos, com raras exceções, clero suficiente para uma evangelização profunda e coerente. A hegemonia católica no Continente, de certa forma, escondia essa realidade.

Em alguns países, nos últimos anos, tem-se observado até certo aumento de vocações e ordenações. No entanto, a proporção entre padres-população católica, padres-população total continua a ser inadequada. O problema é mais crítico na região amazónica, nas periferias das grandes cidades e nas áreas de recente colonização, onde as distâncias são enormes e a população extremamente dispersa. Na Amazónia, pode acontecer de uma comunidade ficar sem celebração da Eucaristia por 1 ou 2 anos.

A consciência desse desafio, no horizonte de um projeto consistente de evangelização, pode, sim, ser uma oportunidade para a Igreja, com a condição de que, em resposta a este desafio, não se repita ou se reforce um modelo inadequado de presbíteros. Não queremos simplesmente mais sacerdotes, queremos um modelo de presbíteros identificado com as pessoas no seu mundo pessoal, social e cultural, inserido (realmente, membro por completo) na sua comunidade, participando ativamente na vida e missão dela, bom homem, bom cristão. Mais padres, sim, mas que tipo de padre? Da comunidade a serviço da comunidade!

A disciplina relacionada ao ministério presbiteral foi mudando ao longo da história da Igreja. Que consequências podemos tirar disso?
Há algo no ministério presbiteral que poderíamos chamar de estrutural e inúmeros elementos e condições que poderíamos chamar de conjunturais. É relativamente fácil descrever o conjuntural e muito difícil definir o estrutural. Por paradoxal que isso possa parecer. De qualquer forma, ao longo da história, nos deparamos com figuras muito diferentes de padres.

Se compararmos o presbítero-epískopo da Primeira Carta a Timóteo – esposo de uma só mulher, capaz de ensinar, que saiba governar a própria casa e cujos filhos lhe obedeçam e respeitem (cf. 1Tm 3,2-5) – e os sacerdotes da II Concílio de Latrão (1139) – proibidos do modo mais absoluto de viver com as esposas (can. 3) – é claro que as duas figuras sociais e a disciplina subjacente são muito diferentes.

Isso, naturalmente, envolve inúmeras questões históricas, teológicas, pastorais e canónicas. O mínimo que se pode dizer é que tanto a disciplina quanto a interpretação teológica mudam. A principal consequência é óbvia: se muda, é porque, dentro de certos limites (colocados pelos dados estruturais da fé), pode mudar e, não só pode, mas muitas vezes deve mudar. Às vezes, muda devido à adaptação à cultura. Outras vezes é necessário mudar por obediência ao Evangelho! O exemplo que me ocorreu antes tem a ver com a questão do matrimónio, que, no entanto, é apenas (mas muito importante!) uma questão entre muitas outras. Se não me engano, diz Küng (mas também poderia ser Rahner): para manter (o estrutural), devemos mudar (o histórico, cultural, disciplinar...). O ser humano é histórico; a Igreja é uma realidade histórica.

Que novas características o Vaticano II introduz em relação aos ministérios leigos?
O Concílio não usa esta expressão nem a expressão que se impôs na teologia, durante e depois da chamada "teologia dos ministérios", nas décadas de 1970 e 1980: "ministérios não ordenados". Os ministérios não ordenados não foram objeto de uma discussão ex professo no Concílio como o foram os ministérios dos bispos, dos presbíteros e dos diáconos, os quais, além do que está na Constituição Lumen Gentium (21-29), mereceram três decretos específicos (Christus Dominus, Presbyterorum Ordinis e Optatam totius).

Os ministérios não ordenados no Vaticano II remetem na verdade à totalidade da eclesiologia conciliar e, especificamente, à chamada eclesiologia da totalidade, segundo a qual todos e cada um dos membros da Igreja, em virtude do batismo, da confirmação e da eucaristia, são vistos, primeiro, na sua dignidade cristã e eclesial; segundo, no seu valor carismático; e, terceiro, na sua participação ativa na vida e missão da Igreja, na Igreja e no mundo.

No meu entender, destes três elementos, em relação aos ministérios não ordenados, o segundo é o decisivo. Por outras palavras, os cristãos e as cristãs são dotados de uma pluralidade inesgotável de carismas (ver 1 Cor 12, em particular), nas modalidades concretas que estes assumem em cada época, lugar e contexto eclesial e sociocultural. Alguns destes carismas podem assumir e, de facto, assumem a forma de um serviço preciso ou, mais estritamente, de um ministério.

Neste sentido, além dos ministérios ordenados, a Igreja, para a sua vida e missão, é dotada de diferentes carismas, alguns dos quais podem se tornar ministérios. A constituição Lumen Gentium abre esta perspetiva nos parágrafos 4, 7, 12, 18 e 32; assim como o decreto Unitatis redintegratio, no parágrafo 2; r o decreto Apostolicam actuositatem, nos parágrafos 2 e 3. O Vaticano II, portanto, ainda que não fale especificamente de ministérios não ordenados, levou alguns teólogos, depois do Concílio e por causa do Concílio, a afirmar que a estrutura social da Igreja, mais do que conformada pela hierarquia, por um lado, e leigos, por outro, é "comunidade" estruturada por “carismas e vários ministérios”: ordenados (bispo, sacerdotes, diáconos) e não ordenados.

Em muitos países latino-americanos, especialmente no Brasil, nos anos conciliares e pós-conciliares, assistimos, de acordo com a feliz expressão do biblista Carlos Mesters, a uma "explosão de ministérios"! Interpreto este fenómeno assim: a nova consciência eclesial-eclesiológica oferecida pelo Vaticano II, projetos evangelizador-pastorais de grande envergadura e respiro, as respetivas necessidades das comunidades e a escassez de clero criaram as condições para esta explosão de novos ministérios entre nós.

Mas não vamos idealizar. A primavera foi nos anos 1960-70. A ‘mudança climática’ das três décadas seguintes – no caso, um inverno eclesial –afetou-nos também e não pouco!

Se se colocassem em marcha os mistérios não ordenados, verdadeiramente inseridos nas comunidades e acompanhados por uma formação contínua, não seria isto uma fonte, uma mina, um manancial de novas vocações ao presbiterado em um processo natural de integração nas comunidades?
Não tenho dúvidas! A existência de ministérios não ordenados numa comunidade é um "sinal", uma "condição" e um "argumento" em vista e em favor do próximo passo, que é chegar a que uma comunidade madura ou idónea (communitas probata) possa ter os seus ministros ordenados próprios e, assim, atingir a sua plenitude eclesial com a celebração da Eucaristia pela comunidade com os seus próprios ministros ordenados (no caso, presbíteros).

Por favor, compreendam-me bem: não queremos presbíteros apenas para presidir a Eucaristia; queremos presbíteros que assumam e cumpram plenamente o seu ministério – nos âmbitos da Palavra, do Culto e da Caridade – o que inclui também a presidência da Eucaristia. O bispo Fritz Lobinger, emérito da diocese de Aliwal, na África do Sul, diz: "Primeiro passo: tornar-se uma comunidade com ministérios próprios. Muito antes de poder pensar em ter uma Equipa de Ministros Ordenados (presbíteros), a comunidade precisa aprender a compreender-se a si mesma como uma comunidade com os seus próprios ministérios".

Mas atenção! Quando falamos de ministérios não ordenados, não estamos a pensar só em alguns ministérios litúrgicos ou em meros ministérios chamados de suplência, mas, sim, em ministérios com os quais uma comunidade viva e ativa normalmente deve contar e efetivamente conta para a sua vida e missão. Exemplos. Na área da Palavra: catequistas, animadores de Círculos Bíblicos, animadores de grupos de reflexão, responsáveis por cursos de teologia para leigos, pregadores em encontros, retiros, missionários populares e outros. Na área da Liturgia ou do culto: rececionistas, comentaristas, leitores, salmistas, grupos de canto, acólitos, animadores da Celebração da Palavra, coordenadores de equipes de liturgia e equipes de celebração, responsáveis pela preparação de pais e mães para o batismo das crianças, jovens e adultos, animadores de novenas, ministros de bênçãos, ministros de funerais, etc. Na área da caridade: responsáveis das pastorais sociais (pastoral das crianças, pastoral da saúde, promoção humana, pastoral política, pastoral da sobriedade, pastoral dos migrantes, pastoral carcerária...), grupos da Cáritas, terceira idade, animadores de grupos de jovens, etc.

Numa comunidade rica em ministérios não ordenados, não deveria faltar um ministro ordenado presbítero (ou de preferência uma pequena equipa) que respondesse pelo ministério da unidade, presidindo esta comunidade e, consequentemente, também a celebração da Eucaristia. Em geral, as comunidades já têm seu animador global; não se vê porque este ou eventualmente outros (como propõe Lobinger, uma pequena equipa), com a escolha da comunidade e a aprovação do bispo, não possa ser ordenado presbítero. Na Igreja antiga, essa era a praxis habitual, aliás, a regra.

Está a haver uma perigosa dissociação entre a Palavra, os Sacramentos e a Vida (partilhada e fraterna) nas comunidades? Em que sentido? Como mudar esta situação?
É um tremendo desafio. O Concílio ajudou-nos a redescobrir a Palavra e possibilitou-nos uma liturgia renovada. Crescemos nessas duas áreas. O Concílio impulsionou o serviço, a caridade, a fraternidade, tanto na Igreja quanto na vida social, económica e política. Na prática das nossas Igrejas locais, paróquias e também comunidades, no entanto, as três coisas nem sempre estão ligadas estreitamente como deveriam.

Há ambientes muito sacramentalistas, um fenómeno bastante comum entre os "padres novos" (uso a expressão como categoria de análise, não simplesmente como uma classificação cronológica). Existem comunidades onde a Palavra é partilhada, mas falta a celebração da Eucaristia. As expressões comunitárias e/ou institucionais do serviço e da caridade são intensamente vividas em certos sectores, mas em outras são algo fraco, frágil ou, inversamente, às vezes visto como "política" ou pior ainda, como "comunismo". Aliás, a militância social do Papa Francisco também é etiquetada de “comunismo”...

Há um pouco de tudo, menos aquela intercompenetração ideal, não só teórica, mas existencial, vivida, sentida entre Palavra, Culto e Caridade. Sob o aspeto mais qualitativo, o pós-moderno coloca-nos perante desafios ainda maiores: cresce o materialismo, o intimismo, o consumismo, o individualismo. A cultura tem mudado muito e continua a mudar muito rápido. Se não estivermos de pé e vigilantes – e são poucos os que sentem essa necessidade – o Evangelho acaba engolido pela cultura dominante. Tempos difíceis!

As Igrejas locais abrigam muita diversidade. Como isso deveria se refletir nos ministérios? Poderia isso pôr em perigo a universalidade da Igreja?
As Igrejas locais são muito diferentes umas das outras. Normal e bom! Estudei as experiências de inúmeras Igrejas locais da América Latina no que diz respeito aos ministérios. Descobri que cada vez que uma Igreja local tem consciência da sua plena eclesialidade, da sua fisionomia própria e desenvolve um projeto evangelizador de fôlego, como regra geral vai promover pequenas comunidades (ou CEB) onde irão surgir (eu queria dizer "necessariamente") novos ministérios, de acordo com as necessidades e carismas próprios de cada Igreja local ou de cada comunidade menor inserida na Igreja local.

Isso é uma riqueza para a Igreja universal ou, numa expressão melhor, para a comunhão universal das Igrejas. Não é um perigo, absolutamente, mas, sim, uma riqueza. Uma riqueza na Igreja local, uma riqueza para a Igreja universal. O que Paulo escreve à Igreja de Éfeso parece-me que possa ser aplicado perfeitamente à comunhão da Igreja local e entre as Igrejas locais: "... solícitos em guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só Corpo e um só Espírito, assim como é uma só a esperança à qual fostes chamados. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, acima de todos, no meio de todos e em todos. No entanto, a cada um de nós foi dada a graça conforme a medida do dom de Cristo..." (Ef 4, 3-7ss). A uniformidade é morte. A diversidade na comunhão é vida.

É um facto que o tema dos ministérios interessa e preocupa em todas as Igrejas cristãs, não apenas na Católica Romana. Seria uma oportunidade no caminho ecuménico trabalharmos juntos nesta questão?
Sabemos que o tema dos ministérios é um dos pontos mais delicados e difíceis nas relações ecuménicas. Mesmo assim, o Conselho Mundial de Igrejas conseguiu, em 1982, um acordo decisivo, o documento “Batismo, Eucaristia e Ministério” (também conhecido como “BEM” ou “Documento de Lima”), que continua a ser uma importante referência. Não é uma exclusividade da Igreja católica a diminuição das vocações e dos pastores. Tenho a impressão de que apenas as Igrejas pentecostais e especialmente as neopentecostais não enfrentem esse problema. Acho que podemos e de facto estamos a aprender uns com os outros.

Você tem trabalhado em estreita colaboração com o bispo Fritz Lobinger e conhece bem a proposta dele dos dois tipos de presbíteros – ‘diocesanos’ e ‘comunitários’ – que coexistem e colaboram. Você acha que isso é uma oportunidade para a Igreja de hoje? Em que sentido?
Lobinger é uma testemunha de primeira ordem das relações entre comunidade e ministérios. Na verdade, ele dedicou toda a sua vida na África do Sul ao desenvolvimento de comunidades eclesiais e seus respetivos ministérios. Entre os muitos elementos da sua rica experiência pastoral e da sua reflexão teológica, ele faz uma distinção entre dois tipos de presbíteros em uma diocese.

Chama presbíteros "diocesanos" àqueles padres que não desempenham um ministério paroquial, mas supraparoquial, assessorando paróquias e unidades pastorais na formação de comunidades, contribuindo para a formação de ministros e ministras, acompanhando as comunidades e os seus ministros, oferecendo-lhes formação continuada. Seriam mais presbíteros "itinerantes", ao contrário dos eventuais futuros "presbíteros de comunidade" ou "presbíteros comunitários", com a sua caminhada local, a sua família, a sua profissão civil, que continuariam a residir na sua comunidade e servindo como padres a esta mesma comunidade. Presbíteros "diocesanos" e presbíteros "comunitários" ajudar-se-iam mutuamente, exercendo funções distintas ao serviço das comunidades. De acordo com Lobinger, essa não deveria ser uma divisão de trabalho temporária, mas permanente nas Igrejas locais. Utópico? Não me parece; parece-me muito realista.

Que riscos pode haver tanto no empenho de pessoas casadas como no das mulheres nos novos ministérios, se não se deixa claro que o ministro existe em favor da comunidade, e se se continua a pensar na vocação ao diaconato ou às novas formas de presbiterado como um chamamento individual, desconectado da comunidade e ligado ao exercício do poder?
Ministérios e comunidade devem ser pensados em conexão. Não há o menor sentido comunidade sem ministérios e ministérios ou ministros sem comunidade. São como os dois lados da mesma moeda ou, na metáfora paulina, diferentes órgãos de um corpo, de um mesmo corpo!

Mas atenção: o fim, a meta, o foco é a comunidade! Esta relação estrutural entre ministros e comunidade na Igreja antiga era tão clara que, diante da prática nova/inovadora de ordenar presbíteros independentemente da necessidade do seu serviço a uma comunidade, o Concílio de Calcedónia em 451 decretou que "ninguém deve ser ordenado sacerdote, ou diácono, ou estabelecido em qualquer função eclesiástica, em modo absoluto ["ab-soluto", aqui, significa solto de, sem relação a, sem relação com]. Quem é ordenado, ao contrário, deve ser designado para uma igreja da cidade ou de uma povoação, ou para a capela de um mártir, ou para um mosteiro. O Santo Sínodo comanda que uma ordenação absoluta seja nula e que o ordenado não possa exercitar o ministério em nenhum lugar, "para vergonha de quem o tiver ordenado" (can. 6).

Ministério não é um prémio, uma honra, uma condecoração, um título de reconhecimento pelos serviços prestados. Ministério é um serviço específico para uma comunidade específica, para responder a necessidades específicas. A vocação pode ser pensada como um chamamento pessoal, mas sempre para o serviço a uma comunidade, para uma necessidade concreta. Muitos na Igreja antiga foram chamados pelas suas comunidades a assumirem uma função – por exemplo, como bispos – porque aquela Igreja o necessitava – ou os necessitava – não porque sentissem um chamamento interior para aquilo. Às vezes eles eram até forçados a aceitarem o cargo; na história dos ministérios, a este respeito, fala-se de ordenações "invitus" (em latim), que quer dizer "contra a sua vontade".

A partir dessa perspetiva comunitária, seria o caso de abandonar as soluções geralmente sugeridas, como a dos viri probati, e situar-nos num novo paradigma eclesiológico, com insistência nas “comunidades provadas” e mais inclusivo com as mulheres? Como se poderia traduzir isso na prática?
A ideia de ordenar viri probati não é má, mas é insuficiente, precisamente porque falta a perspetiva da comunidade. Daí a ideia de ordenar alguém presbítero (de preferência uma pequena equipa de presbíteros) inserido numa comunidade, escolhido pela comunidade, para exercer o seu ministério naquela comunidade. Não apenas por razões eclesiológicas, mas também por razões estritamente pastorais.

Pensamos que seja uma oportunidade de enfrentar também institucionalmente os problemas do clericalismo, do autoritarismo e do isolamento demasiado presentes no clero atual. Do nosso ponto de vista, não se trata apenas de dar uma resposta ao déficit de presbíteros, e, sim, de buscar um novo modelo de presbíteros. Esta proposta não pode ser encarada como um recurso provisório para a escassez de clero.

Cito Lobinger (depois de falar sobre comunidades com seus próprios ministros e sobre uma pequena equipe de presbíteros em cada comunidade): "Temos de evitar soluções temporárias de emergência em relação ao ministério nas comunidades cristãs. Temos de procurar soluções permanentes, de preferência". E fundamenta: "É o modelo original dado pela Bíblia."

Mas, se já é difícil encontrar candidatos ao presbiterado, não será mais difícil ou quase impossível encontrá-los em número suficiente para formar equipas?
No modelo atual, sem dúvida; é o que temos vivido por muitas décadas. Para o modelo que propomos para o futuro, não. Nas nossas “comunidades maduras” (é claro que não são todas!) encontramos muita gente consciente, ativa, comprometida com a vida e a missão da Igreja naquela comunidade concreta.

Há um bom número de pessoas que já estão a realizar nelas verdadeiros ministérios; não o fazem individualmente, mas em equipa, em pequenos grupos, pequenas comunidades. É claro que não se pensa em ordenar indiscriminadamente, qualquer um, e sim homens – até agora a porta para ordenar mulheres está fechada (Papa Francisco) – solteiros ou casados que sejam pessoas normais - não só psicologicamente - bons cristãos, sinceramente entregues à comunidade e à sua missão, com uma formação teológica e pastoral adequadas ao ambiente em que vão atuar, em comunhão com a Igreja local e com a Igreja universal.

Há dois documentos eclesiais, dos quais fala no seu livro Novos ministérios. A necessidade de um salto à frente (Paulinas, 2013): Christifideles laici, que se seguiu ao Sínodo dos leigos (1987) e o documento De Ecclesiae Mysterio (1997), (ambos do pontificado de João Paulo II), que representaram um freio e um obstáculo no desenvolvimento de novos ministérios. O que diria sobre esses documentos? O que está por trás deles em termos de atitudes? Existem documentos antigos, de muito mais importância eclesial do que os dois mencionados aqui, que iriam em outra linha e que não podemos deixar de ter em mente... Poderia citar alguns?
Concordo que eles foram um obstáculo e, no final, um freio, especialmente porque os dois estão idealmente e institucionalmente conectados. Christifideles laici assumiu como paradigma a "teologia do laicado" desenvolvida no pré-Concílio, recusou-se a embarcar no modelo "comunidade/carismas e ministérios", que se propunha a superar aquela teologia (relevante e significativa e fecunda em outros contextos) e era protagonizada por nomes como Congar (a partir de 1971), Parent, Bruno Forte, Severino Dianich e outros.

De Ecclesiae Mysterio cumpre o que pedia Christifideles laici nos parágrafos 21-23. Publicado dez anos depois de Christifideles laici e no jubileu de prata de Ministeria quaedam (1972), teve o efeito de uma bomba, já que o espaço dos leigos e leigas que desempenham certos ministérios na Igreja foi restringido ao máximo. Este documento, assinado pelos Prefeitos de sete Congregações vaticanas, restringe-se, sem dúvida, aos chamados "ministérios de suplência", mas sem perceber duas coisas:

a) teologicamente: se um leigo (ou leiga) pode suprir um ministro ordenado em certas ocasiões, por causa da falta ou impossibilidade do ministro ordenado competente, é porque está, de um ponto de vista teológico, fundamentalmente habilitado pelos sacramentos da iniciação a fazê-lo em qualquer circunstância;

b) historicamente, porque trabalha com a hipótese, improvável, pelo menos a curto e médio prazo, de que a atual situação de déficit de padres vá passar (quer dizer, que seja transitória).

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil faz uma consideração que eu acho muito oportuna a este respeito: "Se estas funções, embora próprias e típicas do ministério ordenado, podem, em certas circunstâncias, ser assumidas por leigos e leigas, porque não se pode pensar numa reorganização ousada dos ministérios eclesiais, criando verdadeiros e próprios "ofícios" a serem conferidos a leigos e leigas de forma estável e com responsabilidade própria e não simplesmente como "suplência"?" (CNBB, Missão e Ministérios dos cristãos leigos e leigas, n. 89). Há que se rever radicalmente esta questão da suplência!

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